• Vinícius Lucena

Xambá 90 anos: música, identidade e resistência

Atualizado: 2 de Jun de 2020


Bongar em apresentação no FIG em 2016. Foto: Juarez Ventura/Fundarpe

A última nação Xambá da América Latina caminhava lentamente para um apagamento. Situado em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, o segundo quilombo urbano do Brasil enfrentou, ao longo do século XX, uma série de medidas repressivas por parte do estado. Entre os elementos de resistência, a música desempenhou um papel fundamental na história da comunidade e potencializou o processo de afirmação do povo Xambá. Com o surgimento do grupo Bongar e de outras iniciativas de afirmação, os descendentes da nação se tornaram ativistas e se mostraram ainda mais resistentes, enfrentando uma extinção iminente motivada pela repressão estatal, pelo racismo e pela intolerância religiosa.

O povo Xambá vem de uma região que, hoje, está num território localizado entre a Nigéria e Camarões. Nos anos 1920, o babalorixá Artur Rosendo Pereira, fugindo da repressão policial às religiões afro-brasileiras, saiu de Maceió e chegou à capital pernambucana. O babalorixá desempenhou um papel fundamental nas imediações de Recife, iniciando filhos de santo que abriram terreiros nas proximidades. Em 1938, nos primeiros meses do Estado Novo de Vargas, a nação sofreu uma violenta repressão policial, legitimada pela ação do estado, que resultou na prisão de pessoas da comunidade e na suspensão das atividades religiosas, que foram jogadas para a clandestinidade até o início da década de 1950, quando a comunidade ressurgiu no terreiro do Portão de Gelo, em Olinda, por iniciativa de Mãe Biu. A relação do povo Xambá com a música é intrínseca e vem de bem antes do surgimento do Bongar, em 2001. Com a forte influência dos bantus, a nação herdou uma percussão forte, tocada com as mãos e que usa tambores mais rústicos. Dos iorubanos, a herança é materializada no culto aos orixás. Quem explica é Guitinho da Xambá, vocalista e membro fundador do Bongar. “A música sempre esteve presente na nossa história, é algo comum entre os povos de matrizes africanas e a Xambá se torna um expoente por mesclar elementos desses dois povos [bantus e iorubanos]. Fazemos da música uma ferramenta de expressão cultural, de conexão com os deuses e, no dia a dia, ela se torna um elemento impulsionador do trabalho”, diz Guitinho. No candomblé, os toques são um elo entre o divino e o humano. Em seu livro O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2019), o professor e historiador Luiz Antonio Simas sintetiza a relação das religiões de matrizes afro-ameríndias com a música. “Há uma sofisticada pedagogia do tambor [...] tocadores dos tambores rituais são educados com base nos saberes da percussão para aprender o toque adequado para cada divindade”.

Guitinho da Xambá - Foto: Jan Ribeiro/Fundarpe

A gente canta pra nascer, pra viver e pra ‘plantar’, ressignificar os nossos entes queridos”, diz Guitinho se referindo ao axexê, cerimônia fúnebre de uma pessoa iniciada no candomblé. O cantor também afirma que as particularidades do povo Xambá vão além do campo musical. Herdamos dos bantus coisas que nos diferem dos outros terreiros. Costumamos comer os axés [partes vitais dos animais], por exemplo, algo que não é comum nos cultos de origem iorubana. Para outras nações isso é um sacrilégio, mas pra gente não”.


Na música, um exemplo das singularidades dessa nação é o uso de instrumentos específicos. É o caso dos ingomes, por exemplo, que são barrica feitas de madeira “retorcida” que possuem apenas a membrana superior, feita de couro de cabra. “Isso o transforma num tambor diferenciado, mais difícil de ser tocado”, explica Guitinho. A forma de tocar, cantar e os andamentos das cantigas também são diferentes dos de outras nações.

Esses elementos estão presentes na sonoridade do Bongar, que, de acordo com o vocalista, “toca um coco mais forte, elétrico”. “Eu atribuo essa influência à origem bantu, que tem essa força pra tirar o som dos ingomes. Nossos bisavós e avós transferiram isso para o coco que a gente toca até hoje no bongar”. A longevidade do grupo, que vai celebrar duas décadas de existência em 2021, está relacionada, entre outras coisas, à afirmação dessas particularidades. Antes do Bongar, outros grupos musicais surgiram na Xambá. Entre os ritmos escolhidos predominavam o pagode e o samba. Nas músicas, eram abordadas temáticas e sons que não eram próprias daquele povo. Por isso, Guitinho classifica esses grupos musicais como “releituras de grupos de outras regiões”. “Não deu certo porque não cantavam a nossa música. Se você não canta sua história, você não se afirma, não aparece.”

E foi assim que o Bongar se firmou. Desde sua formação, a história recente da Xambá se mistura com a do grupo. Para além da música, o Bongar é uma banda de ativistas. Músicos preocupados em reforçar a necessidade de afirmação do povo Xambá. “Percebemos, ao longo do tempo, que nossa música era capaz de fazer com que a gente construísse políticas públicas de afirmação. Passamos uma mensagem que abrange não só o território físico, espiritual, mas se posiciona a favor das lutas de toda uma comunidade negra”.

“Havia o discurso de que a Xambá era um povo extinto. Na minha geração houve uma abertura pra juventude, fomos além das fronteiras do quilombo e nos conectamos com coisas externas, que os nossos pais não vivenciavam muito. Essas gerações mais recentes vivem dentro e fora. Podemos dialogar com a música contemporânea, conhecer outros países e gravar com muita gente. Hoje o Bongar tem a característica de fazer uma música ancestral e contemporânea”, conta o vocalista. Uma prova dessa abertura é o disco Macumbadaboa, lançado no ano passado em parceria com o DJ e produtor musical estadunidense Maga Bo, que também já trabalhou com o Coco Raízes de Arcoverde. No álbum, os elementos e temáticas tradicionais se misturam, por vezes, ao eletrônico, materializando uma fusão entre dois universos musicais.


O conceito de “moderno”, no entanto, não diz muito pra Guitinho. “Nossa música não tem esse conceito de tempo. pra gente moderno é ancestral, é novo, é perspectiva do futuro”. E, para o futuro, o desafio de manter vivas as tradições desse povo exige um cuidado com as gerações futuras. Além do Bongar, outras iniciativas musicais movimentam a comunidade, como o grupo Pirão Bateu, que reúne adolescentes e jovens num projeto que visa garantir a perpetuação da cultura desse povo. Além do Pirão, surgiram, recentemente, novos grupos formados por crianças menores e outros por pessoas mais idosas. “É algo crucial, alimentar o ancestral com aspectos ‘modernos’. É fundamental que a gente construa uma relação intergeracional, que é algo sempre presente entre os povos africanos”, completa o cantor.


Ensinar essas formas de resistência para as gerações futuras é um mecanismo visto na Xambá como uma forma de garantir que o ativismo continue por gerações. Ao longo dos seus 90 anos de história, o terreiro da Xambá precisou resistir a atentados legitimados por políticas de estado racistas e autoritárias. Hoje, o desafio de lidar com um estado excludente motiva as manifestações dos descendentes dos tchambá. “É um sistema falido, que não nos representa e segue uma lógica que não atende os povos negros e indígenas, por exemplo”, afirma Guitinho. “Quando criança sempre observei como nos ensinaram o quão fundamental era que nos afirmarmássemos como praticantes do candomblé, apesar das dificuldades causadas por um estado que diz ser laico mas não é”. “Vivemos numa sociedade que mostrou que não nos compreende, não aceita nossos saberes intelectuais em detrimento de uma lógica acadêmica ineficiente, muito eurocêntrica e norte-americana. A proposta de sociedade que o mundo adotou não deu certo. Não dá pra seguir com essas mesmas filosofias, essas mesmas ações políticas e as mesmas pessoas que seguem ocupando os cargos de poder político. É inadmissível que o estado esteja contaminado por grupos fascistas, que propagam ideias de eliminação do outro por causa da diferença.” Nesse contexto de ameaças, a música continua desempenhando um papel fundamental. O Bongar, e os outros grupos, surgem como uma “ferramenta de defesa e afirmação”, como define o próprio Guitinho.

“A Xambá vem fazendo isso ao longo do tempo. Reivindicamos políticas públicas mais eficientes e, ao mesmo tempo, construímos de forma independente a nossa forma de ser. Não podemos esperar que eles façam tudo”.

Novas gerações participam das manifestações culturais / Foto: Arquimedes Santos / Prefeitura de Olinda

Celebração Desde 2018, o terreiro da Nação Xambá é considerado Patrimônio Vivo do estado de Pernambuco. O título veio 80 anos depois dos ataques promovidos pelo estado em 1938. Em 2020, os 90 anos do terreiro serão celebrados virtualmente, por causa da pandemia causada pelo coronavírus. “Estávamos preparando uma comemoração presencial. Havia uma articulação com o Governo do Estado para que fosse assinado um pedido de desculpas pelos atentados às casas de matriz africana em 1938”, afirma Guitinho. Naquela ocasião, o terreiro foi invadido, instrumentos musicais foram confiscados, pessoas foram detidas e materiais foram destruídos. As ações truculentas também provocaram a doença de Maria Oyá, que, na época, estava à frente do terreiro e que morreu com depressão uma ano após a investida policial. Pra não deixar a data passar batido, uma série de lives vai comemorar os 60 anos individualmente. Entre as transmissões, estão apresentações musicais, debates e diálogos que vão abordar a história do terreiro. O festival, que acontece entre os dias 1º e 5 de junho e reúne nomes como Canibal, Isaar, Juliano Holanda e Siba, será transmitido pelo Instagram, Youtube e pelo Facebook do Grupo Bongar. Nas lives, serão arrecadados recursos para a reforma da Casa Xambá (o terreiro) e para a manutenção das atividades do Centro Cultural Bongar, equipamento onde são oferecidas oficinas de capoeira, percussão, literatura e cinema. Para ver a programação completa, clique aqui. Para colaborar com a campanha de arrecadação de fundos para a reforma emergencial do terreiro, clique aqui.



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