• André Santa Rosa

WebRolê: a alternativa independente na pandemia



O isolamento social reconfigura nossa relação com a arte, principalmente as nossas escutas de música ao vivo. A partir das interdições necessárias causadas pela pandemia do novo coronavírus estabelecemos, também, uma outra relação com os próprios ambientes de shows e o rolês locais. “Quem tá na barraca do webbeijo?”, brinca alguém no chat da edição de São João da radioshow Quarta&20. A produtora independente Life’s Too Short está há mais de um mês repensando essas possibilidades do rolê na quarentena: toda quarta-feira vai ao ar no Youtube a Quarta&20, às 4h20, um radioshow com apresentação de videoclipes, lançamentos e outros quadros. O projeto remete muito ao estilo da MTV, ao mesmo tempo que não se descola do contexto da internet e repensa a própria ideia de programa “musical”. Após a exibição os episódios ficam gravados no canal da produtora. Além do radioshow, o selo lança o Rolê Simulator, uma sala online na plataforma do Zoom que funciona nas sextas. Nesta sexta (03), será realizada a segunda edição com Dj set de RA e Camila Regueira, live Set de Yung Vikus, intervenção visual de Gools e performances de Sinaypse e Paulo Fidelis.


A produtora, que surgiu ainda em 2016, tem Mateus Cabral com a produção executiva, Thiago Couceiro com a identidade visual e Danilo Galindo com as mídias sociais e, agora, também com a apresentação do radioshow. O programa e os conteúdos online surgem nesse contexto de impossibilidade das atividades, que inclusive tinham datas marcadas para acontecer em abril. “A gente percebeu que ia ser um momento complicado e que não ia dar pra fazer o que a gente vinha fazendo, que eram os shows durante todo ano e dar circulação para banda independentes do país”, explica Mateus. “Quando a gente teve a ideia, fizemos logo o teste de cara. Danilo gravou uns offs, pra ficar entre os blocos, e depois foram vindo ideias para montar os quadros”.





A formulação de forma orgânica da rádio teve com um dos pontos centrais a pesquisa para encontrar sua linguagem. “A gente sempre teve vontade de fazer um programa nosso, com quadros de humor e conteúdo sobre música, bem na vibe MTV das antigas, mas isso nunca tinha rolado. Aí durante a quarentena, pela falta de previsão de quando novos eventos iriam rolar, a gente procurou novas formas de interagir com a galera que curtia a Lifes, e as lives eram uma forma legal de ocupar a internet e continuar produzindo conteúdo. Muitos programas de lives começaram a surgir, e a gente foi se inspirando pra criar o nosso também”, explica Danilo.


A primeira edição seguia só o formato de watch party de videoclipes através do instagram, que não compactuou com o formato. Depois da migração para o Youtube, o processo de construção do que é a radioshow é elaborado a cada programa. “A linguagem tá sendo elaborada a cada episódio. Acho que a principal característica desse programa é que ele é feito na internet, pra internet, com nenhum custo, então a gente se baseou em como a gente consome conteúdo. O meme e o vídeo são coisas que fazem parte do universo online, e todo mundo entende e gosta de ver, e por ser uma coisa semanal, a gente quis dar atenção às novidades da música de um nicho que a Lifes de certa forma está inserida e que a gente acha legal transmitir”.


O programa tem um enfoque nos lançamentos, escolhidos por uma curadoria coletiva do selo, que funciona de forma muito orgânica. São sons de bandas que já passaram por eventos, estão no radar, ou simplesmente fazem parte do interesse geral da Life’s: novos artistas, preferencialmente nordestinos, que independente do gênero estão produzindo um som fora do grande circuito. “Um critério que a gente usa é se a banda ou artista já tocou em algum evento da Lifes Too Short; outro critério é ser do Brasil, preferencialmente do Recife ou da região Nordeste, pra trazer sons que sejam mais próximos a gente. A gente evita delimitar por gênero, então rola de tudo, de rock a eletrônico, brega funk, rap, hip hop, o importante é se encaixar nesses critérios”, pontua Danilo.


A convergência de temas que estão no epicentro da tensão política que vive o mundo também é objeto de interesse da curadoria, que recentemente tem passado muito por uma pesquisa sobre artistas pautados pelas lutas do povo negro e indígena e a resistência antifascista. A exemplo do Kunumí MC, que teve o som apresentado na transmissão do dia 17 de junho.





Além da música, a ideia é criar um público e fortalecer uma rede de realizadores independentes. “Trazer nossos amigos e amigas pro programa também fazia com que todo mundo se encontrasse nesse plano virtual e se divertisse com a gente nesse período difícil, em que o isolamento deixa todo mundo distante”. O programa tem a participação de Beatriz Andrade ensinando receitas vegetarianas, Isabella puxando cartas do Tarot e outras participações em conteúdos diversos. “Na minha visão, os rolês da LIFES não envolvem só música. A gente sempre organizou feiras de artistas independentes, já rolou campeonato de skate, flash de tatuagem e outras coisas em nossos eventos, e quando a gente criou o programa pensamos em trazer essas pessoas que sempre colaboraram para participar criando conteúdo sobre aquilo que elas gostam”, explica.


A presença dos seus amigos e o som da banda da banda ao vivo, até mesmo o calor do espaço, são um conjunto sensações que fazem parte do ao vivo, presencial, e nada disso é exatamente substituível. Muito mais necessário que estabelecer um “novo normal”, melhor seria implodir esse termo, é construir possíveis formas de fazer o rolê sobreviver durante a pandemia. Ou ao menos trazer um lampejo que seja de sanidade para a quarentena: “O resultado de tudo isso é que a gente precisa encontrar formas de continuar existindo, e a cultura é uma forma muito legítima de lutar por um mundo melhor”.

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