• Heloise Barreiro

Vivendo no tempo do fim


Foto: Divulgação/Marcos Araújo


Desarmonia, injustiças, crise ecológica, tragédia, incertezas, exploração… Se as canções espelham a realidade em que existimos, o que esperamos ouvir? Arrancando o humano do centro do universo ao mesmo tempo em que promove um deslouvor à própria instituição da humanidade contemporânea, a banda recifense Rua do Absurdo lança o seu terceiro álbum, Queda. A banda é formada por Caio Lima (Voz), Yuri Pimentel (Contrabaixo), Hugo Medeiros (Bateria), Nelson Brederode (Cavaco) e Bruno Giorgi (Texturas). “Convivemos com o cancelamento do futuro e as visões do fim do mundo se multiplicam por todos os cantos”, atesta Caio Lima, vocalista do grupo. A vivência no tempo do fim é a principal identidade do trabalho, que foi pautado em rupturas, crises, desconfortos e incertezas que formam a existência como conhecemos hoje. “Penso que o disco ensaia uma experiência da crise contemporânea, e por isso é um disco obscuro, no sentido de que a experiência da contemporaneidade é impossível”, diz Caio.


Atravessado por obscuridades em diversas camadas, da sonoridade aos conceitos que consolidaram o disco, Queda foi gravado entre 2014 e 2019 - extenso período de criação em que a banda percebeu o mundo aperfeiçoar cada vez mais a sua decadência. “Foi um longo período, um acúmulo de todo o procedimento - a gente atravessou várias fases, várias descobertas, cada integrante fez uma coisa diferente, várias experiências individuais entraram nesse processo”, explica Yuri Pimentel, baixista da Rua.


Para Caio, a própria bagagem carregada pelos integrantes da banda também produz a obscuridade percebida no álbum: “Durante esses seis anos, nós fomos acumulando sons, ideias sonoras e fomos preenchendo esse espaço sonoro com esse sons, então o disco acaba ficando muito denso, pesado”.


Desta vez, em um movimento político contracorrente, o novo álbum não foi diretamente para as plataformas de streaming. “O que acontece através dessas plataformas é que ao clicar na música parece que desaparece todo o trabalho necessário para que você possa escutar essa música, colocar ela em seu ritual cotidiano para viver nesse mundo”, explica Caio. Por isso, por enquanto o trabalho está disponível apenas na plataforma Bandcamp, onde é possível ouvir gratuitamente ou comprar o disco por uma colaboração mínima de $2 USD (aproximadamente R$ 10). Parte do valor será revertido em doações para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).



Ruídos


O disco é composto por seis faixas: Metamorfose; O velho; Narciso; Passiflora ou Vão; Oásis e Queda. A heterofonia e o ruído são conceitos importantes para a escuta do trabalho, além de serem elementos que o diferenciam de Do Absurdo (2011) e Limbo (2014), na medida em que o resultado final de Queda adentrou uma dimensão muito mais cortante por trabalhar a sobreposição de sons na produção de ruídos. “É como se fossem vários escombros, várias camadas de um prédio quando é demolido, quando cai”, para Nelson Brederode (cavaco), esse é um dos efeitos de produzir canções ruidosas.


“Tanto ruído como o som grave provocam um desconforto, uma perturbação da consciência. O ruído é a voz do antropoceno, o ruído é a voz da modernidade”, diz Caio. Ao mesmo tempo que a multiplicidade de sons presentes remete a conflitos, elas podem também ser um caminho para estudar a ideia de pluralidade. “É uma música menos consonante, menos harmoniosa para falar da necessidade de agenciar melhor esses conflitos nas democracias, para aumentar a pluralidade das vozes”, explica Yuri, que fez a mixagem do trabalho junto com Hugo Medeiros e Bruno Giorgi, também responsável pela masterização do disco


A catástrofe que “batizou” o disco


Desde o início de 2019, Queda começou a ser divulgado timidamente nas redes sociais da banda com o lançamento do clipe de “Passiflora ou Vão”. Por desencontros do cotidiano, o lançamento foi sendo adiado até que deu de cara com a pandemia de Covid-19, mais um acontecimento para a rotina de desastres do mundo. “A pandemia acabou também batizando o disco, foi essa catástrofe da qual a pandemia é feita [...] Tudo que mobilizou o disco tem a ver com esse momento”, conta Caio.



Além disso, a desaceleração das atividades provocada pela pandemia deu aos integrantes a chance de se conectar melhor e combinar os detalhes do lançamento do projeto. “Seis anos e a gente estava sem conseguir se concentrar para concluir. Foi um momento que a gente teve mais tempo, que conseguimos nos conectar mais para fechar esse trabalho que merecia esse fechamento”, detalhou Yuri.


Geopoética


Uma das definições de geopoética é a busca por traçar uma relação mais sensível entre a Terra e as artes, neste caso, a música. Esse aspecto Natureza e Cultura está presente constantemente em Queda, que busca emular sons que evocam formações rochosas, ressonâncias oceânicas, atmosfera de floresta. Um dos exemplos dessa manifestação é a canção Narciso, na qual Caio e Hugo fazem um duo de flautas. “A gente, por exemplo, pega flautas doces e começa a tocar elas todas juntas nos trinados, fazendo barulhos com as flautas, tentando emular uma atmosfera densa de floresta. A gente sobrepõe vários instrumentos fazendo melodias cíclicas e coloca o som do mar, pra fazer essa relação da erupção do mar dentro da música”, explica Caio.

35 visualizações0 comentário