• Giovanna Carneiro

Um flow carregado de ideia e referências: Bell Puã estreia na música com "Dale"

Campeã do Slam das Minas BR em 2017, a poetisa e escritora pernambucana Bell Puã deu início a sua jornada na música com o lançamento do single e clipe “Dale”, no dia 28 de junho. Disponível nas plataformas digitais, a produção é mais uma prova de que a pernambucana nasceu para fazer história e tomar o protagonismo negado por tantos anos às pessoas negras.


Com um beat boombap, e uma letra cheia de referências e representatividade, “Dale” traz os elementos sonoros do trap e a narrativa potente do tradicional rap de mensagem. No clipe, que tem direção e roteiro de Bell, a artista aciona duas personas para dar ainda mais força a sua poética: a maga e a preta chique.


Com participações de Dora Buarque, Mun-Há e das integrantes do Slam das Minas PE - Amanda Timóteo, Cris Andrade, Olga Pinheiro e Patricia Naia - , o clipe de “Dale” exalta a importância da representação e da coletividade preta na cena musical, destacando a potência artística produzida em Pernambuco.



Seja como uma feiticeira, que tem raízes no mangue, ou como a preta patrícia que chegou pra afrontar, Bell Puã assina de forma singular a sua estreia na música e chega para compor uma cena musical que tem se tornado cada vez mais feminina e feminista. “Fazer ecoar algo que foi bom pra mim e pra quem escutou é a coisa mais especial desse trabalho e também pra mostrar que a gente não precisa ter medo do rap, por ser uma cena que valoriza muito mais os machos”, afirmou a artista.


Se jogar em uma nova carreira artística sendo mãe de uma criança de dois anos não foi um processo fácil para Bell, mas o nascimento de seu filho gerou dentro dela uma vontade maior de criar algo novo, como destacou: “eu achava que ia ficar mais de boa, mas foi ao contrário, quando eu tive ele [seu filho Jorge] eu me senti mais forte e mais pronta para encarar, então eu fui criando ele e trabalhando nesse novo projeto”.


Bell Puã incorpora a Preta Chique em "Dale" - Créditos: Mateus Bernardo / SubversoLab

Em entrevista à Gruvi, Bell Puã contou com detalhes os impulsos e as aspirações que a levaram a se lançar como uma cantora e compositora de rap.


Gruvi - O que te motivou a começar uma carreira na música?


Bell Puã - É uma motivação pra mim quando eu penso nas artistas e intelectuais que me inspiram e como elas chegaram tão longe sempre se desafiando. Quando a gente vê uma pessoa como nós se desafiando a gente se sente mais encorajado a se desafiar também e foi isso que aconteceu.


Fazer ecoar mais algo que foi bom pra mim e pra quem escutou é a coisa mais especial pra mim e mostrar que a gente não precisa ter medo do rap ser uma cena que valoriza muito mais os machos. O momento que a gente vive também me inspirou e meus versos seguem sem alisar nenhum racista.


Gruvi - Como se deu o processo de iniciar essa carreira musical?


BP - Eu vinha me organizando desde 2019 para esse momento, sabia que precisaria ter uma organização e também desejava isso. A gente precisa saber jogar pra poder ser visto, ter estratégia, mirar seu público, tudo isso eu pensei bastante.


Esse momento de pensar minha carreira e gestar esse primeiro single, que é o “Dale”, foi executado junto com Eduardo Gomes, meu companheiro, que é o produtor executivo do clipe e Rodrigo Ramos. Nós três pretendemos lançar uma produtora chamada Bola 1 Produção e “Dale” foi o trabalho de estreia.


Gruvi - Como se deu a execução do clipe e o que foi mais desafiador?


BP - A música foi produzida entre janeiro e fevereiro de 2021 e o clipe em abril de 2021. Além da composição e da voz, eu fiz o roteiro e a direção geral do clipe.


Ser mãe em tempo integral de uma criança de dois anos e cinco meses e trabalhar. Pesquisar flow, melodia, fazer aula de canto e procurar me especializar para poder entrar no universo da música, que é parecido, mas ao mesmo tempo muito diferente, da literatura, procurando encaixar minha poesia, minhas letras na canção, foi um processo desafiador que teve início no final de 2020.


Gruvi - O mangue aparece diversas vezes como uma cenografia do clipe, o que motivou essa escolha?


BP- A lama sempre foi sinônimo de mal assombro, de feiura e o mangue carrega essa narrativa. Em uma das pesquisas para minha dissertação eu encontrei uma matéria no Diário de Pernambuco que afirmava que o mangue era feio porque era preto e a areia da praia era bonita porque é branca.


O mangue, que foi tema da minha dissertação, é algo que me fez aprender muito sobre o meio ambiente, sobre as pessoas pretas e sobre a nossa história. O mangue sempre foi associado à população negra de um jeito negativo pela burguesia, o sinal de progresso era tirar o mangue da cidade e fazendo oposição a isso, a grande maioria dos quilombos do Recife eram formados próximos ao mangue porque é uma floresta com água.


Produção do clipe "Dale" - Créditos: Mateus Bernardo / SuversoLab

Gruvi - A equipe do clipe é composta majoritariamente por pessoas pretas, você que montou a equipe e optou por essa formação? Por que?


BP - A gente prezou muito por ter pessoas pretas na criação do clipe para mostrar a nossa força em modos práticos. Eu sei que nós, pretos e pretas de Pernambuco, somos capazes de fazer um trabalho incrível e nós vamos fazer.


Por isso fiz questão de trabalhar com pessoas pretas, entre elas o Cabrochas Brechó, que é um brechó sustentável e com preços acessíveis, que assinou o figurino do clipe. A maquiagem por Ingrid Casadevall, uma mana preta que é referência pra mim. E os acessórios, feitos com material reciclável por Júlia Matos.


Gruvi - Por que você escolheu cantar e compor trap e quais são as suas referências?


BP - O trap é um lugar de muita ostentação e uma pessoa que é muito referência pra mim nesse sentido é Cristal, uma irmã que o Slam me deu. No ano que eu competi no Slam Brasil ela também estava competindo e a gente ficou amiga, ela tinha 15 anos na época. Pouco tempo depois ela foi fazer rap e estourou, tem música até com Djonga. Ela traz um diferencial no trabalho dela, ela faz trap, mas ela dá ideia, não fica só falando de amenidade e ostentação, uma mulher preta no corre, uma grande referência pra mim.




Outra grande referência é B.I.O.N.E.. A gente começou muito próximas no Slam das Minas PE. Ela é uma pessoa que eu vejo amadurecendo o seu trabalho e com um potencial muito grande para sua idade.



Outras referências que eu posso citar são: Don L, Nego Gallo, Djonga, Black Alien, Ebony, Nic Dias, Drik Barbosa. Porém, sem dúvidas, a maior referência desse trabalho é Missy Elliott, uma das maiores compositores e rappers do mundo, ela que tem uma arte muito livre e me inspirou a pensar as personas presentes em “Dale”.



Gruvi - Quais são os planos para o futuro? Podemos esperar mais hits?


BP - A gente ‘tá’ trabalhando em uma música pra ser lançada com clipe em agosto e um EP que só deve ficar pronto em 2022. Além disso, eu quero lançar dois livros de poesia, um deles para o público infantil.


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