• André Santa Rosa

"Sonorizar paisagens": O processo de criação da trilha sonora de Bacurau




Com uma vocação tão grande quanto os recurso visuais para narrar e criar atmosferas em um filme, a trilha sonora é um dos recursos mais elaborados dentro de uma obra. Mas como é feita a trilha sonora de um filme? Um ano depois do lançamento de Bacurau, talvez o filme mais recente a chamar atenção para seus sons, a Gruvi entrevistou os irmãos e músicos Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, que contam pra gente como foi o processo de composição de canções originais.


Bacurau como um filme que se articula em gêneros tem em sua trilha sonora uma relação com a gramática de filmes como western, em uma versão lisérgica, e a própria ficção científica. Não à toa, são gêneros muito icônicos em suas trilhas sonoras, inclusive, Ennio Morricone faleceu recentemente, um dos grande compositores dos westerns que ajudou a dar a cara desse cinema. Além da construção de uma identidade, a trilha sonora instrumental se relaciona com as outras faixas que tem no filme, principalmente, clássicos da MPB como Não Identificado de Gal Costa e Requiem para matraga de Geraldo Vandré. Uma das composições mais absurdas do filme é Nighthawk, que é uma canção feita em homenagem ao diretor e compositor John Carpenter (The Thing e Halloween), que inclusive também está na trilha sonora.


Entrevista - Mateus Alves e Tomaz Alves Souza // músicos e compositores


Gruvi: Como foi o convite inicial e a formulação pra trilha de Bacurau?

Mateus: O convite partiu tanto de Kleber como de Juliano. Com o primeiro eu tinha trabalhado em Aquarius, daí foi meio que natural emendar o trabalho seguinte - em Aquarius não compus música original pro filme, licenciei algumas músicas que tinha gravado pra um álbum autoral de 2012. Sem contar que nos conhecemos de longas datas etc, fazemos parte de um mesmo grupo de amigos que coincidentemente ou não tem muita galera de cinema. Juliano eu conheço até de mais tempo pois somos meio que da mesma geração. O primeiro trabalho com ele foi o longa "Amigos de Risco" de Daniel Bandeira e da Símio Filmes (a produtora deles e co-produtora de Bacurau) pelos idos de 2007, acredito que o primeiro longa da galera. Nesse trampo eu fazia parte de uma banda chamada Chambaril que compôs a trilha em parceria com meu irmão, Tomaz Alves Souza, que assina a trilha de Bacurau comigo.


Gruvi: Inclusive, foi um trabalho em conjunto com o seu irmão, então como foi essa parceria?

Mateus: Isso, foi uma parceria com meu irmão que já trabalha com trilhas há mais tempo, desde o começo dos anos 2000. Como ele também é amigo de Kleber e Juliano foi meio automático os dois serem chamados, como falei mais ou menos acima. Lembro que vimos um corte ainda em andamento no final de 2018. Apesar do filme ainda estar em construção percebemos o forte potencial dele - apesar de nunca imaginarmos o sucesso que seria - e começamos a debulhar como faríamos essa divisão de trabalho. Nesse "primeiro corte" já estava bem claro os dois núcleos de personagens principais do filme: a galera da vila, Bacurau, e os gringos assassinos. Sendo assim, decidimos em conjunto que eu ficaria a cargo de musicar a vila enquanto que meu irmão ficou a cargo dos gringos. No processo de composição as coisas foram se misturando mas sempre tendo por base essa lógica inicial.


Gruvi: Acho que pouca gente sabe, inclusive eu tenho essa curiosidade, de como é o processo criativo de compor uma trilha sonora?

Mateus: Varia muito, depende do projeto. Alguns diretores e diretoras nos dão bastante liberdade enquanto que outros intervêm mais. Em Bacurau foi tipo um meio do caminho pois Kleber e Juliano são aficionados por música, daí tinham mais ou menos claro as intenções que queriam pro filme em termos musicais. Ao mesmo tempo, nos deram bastante liberdade estilística e pudemos trabalhar basicamente como queríamos. Tivemos uma troca bem intensa sobre referências, que coincidem bastante em nós quatro, principalmente em termos de compositores de trilha, e a partir de então mandamos brasa produzindo sem parar até dias antes do filme ir pra finalização, um processo que durou acho que uns 3, 4 meses.


Como se dá a relação entre imagem e som nessa criação?

Mateus: Falando mais da minha produção em si, estou acostumado a trabalhar em filmes pernambucanos que se passam no interior e tal, aquele cenário que estamos bem familiarizados, mesmo quem é da capital. Em paralelo a isso, a música que pesquiso e trabalho em termos orquestrais tem relação direta com a música nordestina, com as sonoridades que caracterizam nossa região. Clovis Pereira, por exemplo, é uma grande referência pra mim nesse sentido. Daí posso dizer que é meio que natural "sonorizar" essas paisagens, essas imagens... É como se tivesse no nosso DNA esse tipo de som. Caso o filme seja de outra natureza, busco adentrar o universo dele, buscando referências e tentando me "apoderar" desse novo "meio ambiente". Daí pra frente é mão na massa e fazer som, não tem muito mistério, hehe...


Gruvi: A trilha tem outras composições de MPB, que já eram bem conhecidas mas tiveram um buzz na época do filme, como Gal Costa e Geraldo Vandré. Vocês pensaram no som de vocês pra de alguma forma dialogar com essas músicas?

Mateus: Pensamos sim. No "primeiro corte" lá que falei que assistimos algumas dessas músicas já estavam presentes. Uma que saltava de cara era "Bichos da Noite", de Sérgio Ricardo. Kleber e Juliano salientaram desde o primeiro momento a importância dessa canção e partimos dela pra compor a música original, até mesmo fazendo referências meio internas nas nossas composições e nos aproveitando de alguns elementos musicais presentes na música pra dar aquela "liga" na trilha do filme como um todo. Outra música que não lembro se estava nesse primeiro corte mas que era outra referência total era "Night", de John Carpenter, que rola naquela cena da capoeira. Ela também foi bem fundamental principalmente pro meu irmão compor a parte dele, mais eletrônica e experimental, que caracteriza os gringos. Eu fiquei a cargo da parte mais tradicional da trilha sonora, de música orquestral.


Gruvi: Uma das composições que eu acho mais absurda é Nighthawk. Acho uma das músicas mais memoráveis do cinema mais recentemente, inclusive, tem contornos muito “John Carpenterniano” (que também tá na trilha e em forma de cinema no filme). Como surgiu essa faixa especificamente?

Tomaz: A ideia desse tema surgiu da vontade de criar um motivo musical que unisse tanto o universo da vila de Bacurau quanto o grupo de invasores estrangeiros que ameaçam os moradores da vila. Ela faz referência aos timbres eletrônicos típicos do fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980, muito explorados por John Carpenter, mas também por outros nomes como Giorgio Moroder e Vangelis em trilhas de filmes muito populares até hoje. Parte da estrutura do arranjo e da composição são tipicamente europeus (Moroder, Vangelis), principalmente os elementos rítmicos enfatizados pelo uso de sequencers, o que confere a esse tipo de música uma impressão mais fria ou mecânica. Esses elementos seriam representativos dos estrangeiros invasores no enredo do filme. Já a melodia principal e as partes de violão, são derivadas das mesmas formas encontradas nos temas de Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré que estão no filme. Essa mistura improvável de mundos tão diferentes deu em Nighthawk que, curiosamente, nem toca no filme, só foi usada nos trailers e nos materiais de divulgação.



Gruvi: A sonoridade que vocês construirão é bem ampla, mas vem bastante da música eletrônica. Qual atmosfera vocês criaram?

Tomaz: Os diretores do filme homenagearam John Carpenter e isso imediatamente remeteu às trilhas dos filmes dele. Além disso já havia a vontade de usar como referência o trabalho de Giorgio Moroder, principalmente a trilha do filme Cat People. A escolha pelos timbres eletrônicos também foi feita para evidenciar o clima de constante ameaça e dúvida que paira sobre o grupo de invasores de Bacurau, enquanto que os temas orquestrais pontuam a vida dos moradores da vila.


Gruvi: Mas também existem momentos mais minimalistas, como o violino na faixa Michael e um momento mais ruidoso em Se for, Vá na Paz. Como foi construir essas diferentes paisagens?

Mateus: Teve a divisão de trabalho entre eu e meu irmão mas durante o processo as coisas foram se misturando: tanto eu mandando material pra ele manipular como ele mandando sonoridades que eu inclui nas orquestrações. Um processo bem orgânico que acho que serviu bem à narrativa do filme. A linguagem minimalista é outro universo onde eu particularmente transito bastante, então foi natural esse tipo de sonoridade transparecer. Já o ruído foi um elemento mais trabalhado por meu irmão e que serve em muitos filmes pra aproximar a trilha sonora "mais musical" do próprio desenho sonoro do filme, um artifício bastante utilizado no cinema e que ajuda a "enterrar" as músicas dentro do filme, construindo a unidade audiovisual da coisa.


Gruvi: O disco com a trilha saiu também em vinil. Como foi pra vocês terem uma trilha que ganhou tanta evidência e materializada em uma mídia tão especial como o vinil?

Mateus: Pra gente foi basicamente um sonho realizado! Somos colecionadores de vinil e nunca imaginamos que um dia teríamos alguma música prensada. Ainda é meio surreal "folhear" aqui os discos e de repente ver a trilha junto... Fica aqui o agradecimento eterno a Gustavo Montenegro, parceiro e responsável pela edição das nossas músicas para filmes através de sua editora Urânio, e que foi quem se encarregou da produção dos vinis. Há uma versão nacional (que saiu pelos Três Selos, uma galera massa aqui de São Paulo - aquele abraço pra Rafa Cortes!) e uma versão internacional através da galera da Plaza Mayor Company.


Gruvi: Você chegaram a fazer alguma sessão com apresentação ao vivo? Ou cogitaram a possibilidade? Seria muito bacana

Mateus: Não chegamos a pensar nisso e ainda por cima veio essa pandemia, complicando bastante os trampos de apresentações ao vivo, mas seria muito massa realizar isso em algum momento!


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