• Revista Gruvi

Saudade com cheiro de fogueira queimando

por Rian Silva*

Foto: Janaina Pepeu/Prefeitura de Caruaru


Saudade a gente tem do passado.

No presente não temos tempo de preparar a terra e plantar saudade.

Como vou plantar macaxeira no exato local que plantei feijão?


Saudade boa é saudade regada com água. Quem não gosta de sentir saudade, planta bem longe em terra seca, torcendo para nunca chover. Quem planta saudade em março colhe em Junho, junto com o milho. Acredito que aconteceu isso, plantaram a saudade no dia 22 de março, quando iniciou a Quarentena. Que coincidência do destino, plantaram saudade junto com o milho, colheremos o milho juntamente com saudade.


Quando falo do mês de Junho, falo da ansiedade de maio, falo da sede que invade os corações e a vontade de esbanjar todo aquele desejo reprimido nas festividades. Nas atrações. No forró. Na dança colada e no ritmo quente. Quando falo em São João, já relaciono com as sensações olfativas, palativas e sonoras. É o cheiro da fogueira, o cheiro de pólvora nas mãos após soltar um rojão. Aaah o ralar do milho, trabalho duro, para obter a massa e preparar a pamonha, do resto da pamonha já se prepara a canjica, nada se perde na cultura do milho. Tudo é aproveitado, “inté mermo a paia”.


É comendo canjica e o peito apertado, é barragem que sangrou sem avisar a ninguém que sua capacidade estava próxima de ser completada. Só ali, na surdina, esperando a gota d’agua para esborrar. Meu peito transborda e é vitima de uma barragem que não vejo, mas tem fonte infinita d’agua jorrando por entre meus olhos. Embarcando no trem das lembranças remotas de minha infância, trazendo no peito um São João do passado. Com o milho assando na fogueira, as crianças brincando e soltando fogos, enquanto os pais se divertiam ao seu molde. A família reunida. Hoje a tradição mostra-se frágil em relação a algo maior, um vírus global que não buscou saber se em Caruaru tinha um mês especial.


Eu busco na cidade as lembranças do que era o presente, do que estava predeterminado pelo calendário, JUNHO, mês dos Santos (São Pedro, Santo Antonio e São João). É automático, não há esforços. Só a espera do melhor mês do ano, na minha opinião. É andar nas feiras esbarrando com as pilhas de milhos nas calçadas. É sua mãe e sua tia a reclamarem do preço da saca. “Menino, tu viu como tá caro?” Logo ouve a sábia resposta popular: Não choveu no dia de São José, e a tia velha já se conforma e em seguida silencia-se. Minha cidade tá opaca, cinza como um dia nublado. Não quero acreditar que vou viver um mês de Junho com essa paleta de cores tão apagadas. Sem graça. Triste. O frio a doer a espinha dorsal sem uma fogueira a queimar a saudade e nutrir o forró. Nesse balaio de saudade eu tenho o povo, carente. Saudade Coletiva. Ansiando por estar nas ruas da cidade esbanjando alegria, o desbunde de Caruaru, o São João.


Engraçado pensar sobre o São João na cidade de Caruaru, o Pátio de eventos que chega a comportar 50 mil pessoas. Hoje tem 50 mil pessoas trancafiadas em casa, sentindo a mesma saudade e mais de 350 mil pessoas que tem suas vidas influenciadas diretamente por essa data.


Onde o mestre Gonzaga estiver, está agora sentindo o peso da ausência. Seus pupilos, que levaram sua música a diante e a permanência de sua essência sentem. Lamentam. Meu lamento foi na forma escrita, gostaria de compor um forró melancólico, como esta saudade que me sufoca. Como não sei compor, fica o registro de minhas palavras, do sangue que corre em minha veia e espera ansiosamente por um próximo São João. Fiquemos em casa, nos cuidemos, outros meses de Junho nos esperam.


*Rian Silva mora em Caruaru e é formado em História. Ama literatura, música e cinema.

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