• Júlia Rodrigues

Realeza na luta: Lenne Ferreira e a Aqualtune não andam sós


Lenne Ferreira, idealizadora da Aqualtune Produções. Reprodução/Instagram

“A revolução é uma mulher preta tomando seu café da manhã em paz”. É na luta pelo concretizar desse tiro desarmado que Lenne Ferreira levanta todos os dias da cama e desde cedo do dia começa a trilhar o roteiro de sua rotina. Filha de Luciana e favelada do Barro (na zona oeste do Recife), como se autodescreve, ela é também jornalista e criadora do projeto de comunicação popular Afoitas, protagonizado por mulheres negras. Além disso, é aceleradora cultural e, junto a Tássia Seabra, idealizadora da Aqualtune Produções, selo independente que emerge com o objetivo de fazer a gestão e o escalonamento de carreira de artistas independentes, faveladas e nordestinas. Hoje, a produtora conta com os esforços também de Maya Santos, Yasmim Neves e Marcela Pontes. 


Entre as artistas agenciadas pela Aqualtune Produções está a rapper pernambucana, Bione, vencedora da 17° edição do festival Pré-Amp, realizado em fevereiro deste ano, e dona de um repertório carregado de questionamentos à histórica masculinização do hip-hop, com a mixtape "Sai da Frente", lançada no ano passado. Além dela, a produtora e também assessora MC Negrita, que leva em suas rimas vivências individuais dentro de uma atemporalidade coletiva; Rayssa Dias, artista que transita na musicalidade do Brega Funk escrachado de Pernambuco, e DJ Karla Gnom, também produtora musical, beatmaker e baterista.


A Aqualtune completou três anos de existência no dia 14 deste mês, façanha que rememora os emblemas sobre sua fundação. A produtora recebe o nome de uma princesa, que, ao longo da história, esteve longe de viver os contos de fadas produzidos dentro das realezas europeias. A armadura de Aqualtune, por exemplo, foi construída na superfície de sua negritude e nas amarras da senzala, após ter sido sequestrada de Angola, no final do século XVI, para ser escrava no Brasil. 


Ela tem nome de deusa, mas sua atribuição à mitologia sempre foi realidade muito distante para ser contada pelos ocidentais. Por ela, foi conduzida parte muito simbólica da construção da ancestralidade do povo preto no Recife, onde chegou como "escrava reprodutora", em meados de 1597. Aceitar um sistema cruel e imposto, no entanto, não seria tarefa de vida da princesa, que organizou uma fuga e se ancorou, junto a outros escravos, no território que posteriormente foi erguido o Quilombo dos Palmares. Aqualtune é avó de Zumbi e mãe de Ganga Zumba, símbolos imortalizados de resistência, luta e liberdade do povo preto. 


Daí a importância de destacarmos a história da princesa. Não somente para que ela não se repita nesses e em outros aspectos do presente - como ainda acontece através de políticas escravocratas reinventadas dentro do capitalismo -, mas também para mostrar as raízes fecundas de um movimento forçadamente em ascensão. Entre uma brecha e outra, é assim que a Aqualtune Produções se fortalece, tal como reitera Lenne: “A gente existe para desbancar essa indústria hegemônica. Se a gente desistir, ela terá vencido”. 


Gruvi - A pandemia trouxe diferentes reflexões sobre como a sociedade tem se organizado coletivamente ou até mesmo deixado de se organizar de tal maneira. Na sua visão, como mulheres pretas têm buscado ser rede de apoio umas das outras e qual a importância de vocês se organizarem dessa forma para continuarem existindo?


Lenne - Eu percebo que ao longo da história, as mulheres negras sempre estiveram aquilombadas. Elas sempre precisaram umas das outras, sempre precisaram compor redes. Embora essas redes não funcionem a nível de uma organização consciente, essas redes existem. Inclusive é, de fato, uma estratégia de sobrevivência. Nas favelas, por exemplo, muitas mulheres apoiam e ajudam umas às outras dentro do cotidiano, a partir de coisas mínimas, como olhar o filho da vizinha enquanto ela foi fazer uma faxina. Seja a mãe que tem um filho no presídio e que precisa ir visitar e não tem com quem deixar os outros filhos, a vizinha vai lá e segura a onda. O aquilombamento entre mulheres é uma realidade há muito tempo.


Eu tenho visto várias composições de mulheres se apoiando nesse momento, porque é com quem se pode contar. Quando a gente não tem política pública que nos atenda, a gente precisa contar com a favela mesmo. Eu acredito que a pandemia só deixa esse fortalecimento mútuo e esses aquilombamentos cotidianos mais visíveis para possibilitar sobrevivências, resistências e existências.  

Lenne e MC Bione, uma das artistas agenciadas pela Aqualtune. Jezz Maia/Divulgação

As raízes do racismo continuam profundas, são mantidas e reinventadas por estruturas políticas construídas com a intenção de preservar os privilégios da branquitude. Para você, que além de produtora é jornalista, de que forma o Jornalismo pode contribuir para a maior visibilidade de trabalhos como os da Aqualtune, que agencia artistas pretas independentes da cena local? Lenne - Comunicação é revolução. Qualquer jornalista que exerça sua função em uma  mídia tradicional ou independente precisa fazer uma reflexão profunda sobre seu papel dentro de uma sociedade que ao longo da história promoveu o silenciamento de vozes e apagamento de corpos de uma só cor. Não é mais possível pensar numa comunicação que não comungue de valores que ajudem a desconstruir o senso comum e reeducar a população a partir de novos conceitos e símbolos. Eu acredito que visibilizar o trabalho de artistas como as que a Aqualtune produz é uma forma de possibilitar a mudança de paradigmas, usando a arte como suporte, além de contribuir com a sustentabilidade dessas artistas, uma vez que a divulgação de seus trabalhos pode render novas oportunidades.


O que representa ser uma mulher preta produtora, no meio de uma indústria de produção hegemônica, que predominantemente cultua composições feitas por artistas brancos? 


Lenne - A Aqualtune acaba de completar três anos e os desafios continuam os mesmos do início do projeto. Toda a trajetória vivida até aqui contém pitadas de drama, fortes emoções e muita superação. Nossas artistas lidam com problemas que vão desde falta de estrutura familiar à total falta de estrutura material. As crises internas são muitas. Eu já pensei e até iniciei a redação de nota de encerramento inúmeras vezes. Mas não é possível parar quando você, Bione ou Rayssa mandam uma letra ou quando Karla Gnom compartilha o beat que fez de madrugada. Eu acho que o que nos mantém vivas é a potência de cada artista. Estamos a serviço delas, porque é preciso instrumentalizar o trabalhar dessas garotas. O que elas fazem e escrevem é a nossa maior motivação. Representamos a persistência da cada uma das nossas artistas. A gente existe para desbancar essa indústria hegemônica. Se a gente desistir, ela terá vencido.


De que forma sua vida e o ser Lenne são injetados na arte musical? 


Na direita, Lenne Ferreira, Maya Santos, Yasmim Neves e Marcela Pontes. Divulgação/Aqualtune

Lenne - A Aqualtune está além de Lenne Ferreira. Hoje, somos quatro: Maya Santos, Yasmim Neves e Marcela Pontes. Cada uma com seu papel e talento. Não se faz revolução sozinha, não se move estruturas sozinha. Desde sempre, eu penso que a produtora precisa ter vida e sustentabilidade e, para isso, não pode contar apenas com a minha energia, embora eu acabe liderando muitos processos. No entanto, nenhum deles seria possível sem a atuação das demais. Minha vida nunca mais foi a mesma desde que tudo isso começou. Eu já tive inúmeras crises de choro, ansiedade, insônia. Já tive muito prejuízo, muita dor de cabeça e muito estresse emocional. Muitas vezes, sofro por problemas que não são meus e tenho tentado aprender um novo “modus operandi” para não desistir, para não enlouquecer. Não sou heroína nem quero ser, por isso, busco fazer desse projeto algo que exista para além do que eu possa dar. Se um dia precisar me afastar ou focar mais em coisas como escrever, algo muito importante pra mim, eu quero que o projeto continue fazendo o que se propõe. Aqualtune foi a avó de Zumbi. Esse nome representa muita força e poder. Por isso, ainda estamos aqui.


Qual a importância de politizar a música para a construção de uma sociedade em que pessoas pretas possam falar sem a necessidade de pedir para serem ouvidas?


Lenne - Se a arte não for política, eu não sei o que ela poderia ser. Eu acredito que a música atua como ferramenta de educação na medida em que ela se propõe a refletir sobre a sociedade. Ninguém está pedindo licença. É como Bione diz na sua mixtape: Sai da frente. Quem tiver ouvidos para ouvir que ouça ou permaneça surdo (a).


Na sua avaliação, há algo que difere os protestos que se organizam em torno das pautas antirracistas hoje dos que aconteceram em outras ocasiões? Essas mobilizações recentes te passam um sentimento de que as coisas caminham para uma mudança?


Lenne - O povo preto nunca esteve sentado e calado diante das atrocidades que sofreu. A luta vem desde a resistência nas capturas na África, passando pela senzala e dias atuais. Mas a História não foi escrita pelo nosso povo. Trago o exemplo da escrava Anastácia, que ao longo da vida resistiu com mordidas aos abusos dos "seus" senhores e ficou conhecida por ser insubmissa ao ponto de ser condenada a usar uma máscara tapando sua boca. Os movimentos negros sempre gritaram suas dores e reivindicações, mas não eram ouvidos. A mídia tradicional nunca quis ouvir. A sociedade brasileira ainda hoje sustenta o mito da igualmente racial. A internet potencializou as vozes que sempre foram negligenciadas. Acredito que os movimentos recentes resultam de uma luta ancestral, da luta de Anastácia, Aqualtune, Zumbi, da Revolta dos Malês. A Internet tem sido um instrumento importante de visibilização de pautas cada vez mais discutidas e que representam a reverberação do empoderamento de um povo que cansou de sofrer atrocidades.


Gruvi - De que forma o movimento "Vidas Negras Importam" pode contribuir para que artistas e produtoras (es) negros possam ganhar mais espaço no cenário local e nacional da música? E qual a contribuição que artistas brancos podem ter nesta causa?


Lenne - Eu quero que vidas negras importem enquanto estão vivas. E não quero que a morte dos nossos sirva para o impulsionamento da carreira de artistas. Quero que nossas cantoras e cantores cantem suas alegrias e reflexões intimistas também. Não quero pensar no racismo como oportunidade para vender discos temáticos. Eu quero que não exista racismo. Percebo muita gente pegando carona na temática racial, mas sem um comprometimento real.


Em que lugar do mundo você se enxerga hoje? 


Lenne - Eu me vejo em um lugar de busca por autoconhecimento e maior apropriação da minha história. Me vejo mais perto da minha mãe, das pessoas que me viram crescer na minha comunidade. Me busco em cada beco onde corri e acredito que só consigo comunicar e produzir melhor se estiver sintonizada com o que me fundamenta. A Aqualtune não seria possível se eu não tivesse conectada com a minha história,- assim como todas as outras mulheres que tornam esse projeto possível.


A revolução está na mulher preta?


Lenne - A revolução é uma mulher preta acordando pela manhã e tomando seu café da manhã em paz. Mas não a paz representada por uma pomba branca voando. A nossa pomba gira e nos leva mundo afora. Um mundo onde a gente não tenha que lutar tanto. Apenas existir.


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