• Xainã França

“Rap é resistência, rap não é morte”: Vitu fala sobre territorialidade e batalha rimada na pandemia

Morar numa pequena cidade do interior pode fazer com que grandes potenciais sejam minguados, ainda mais quando seu sonho é fazer arte; produzir música. João Victor do Nascimento Silva, de 13 anos, estudante do 8º ano de uma pequena escola de Vitória de Santo Antão mal imaginava que aos 17 anos seria o vencedor da etapa regional do Duelo de MCs Nacional e muito menos que em 2020, aos 19, estaria produzindo seu primeiro EP e tendo a oportunidade de soltar sua rima no mesmo espaço virtual que o consagrado Emicida.


Ainda na escola, descobriu Racionais MC’s, o que aguçou a curiosidade do menino sobre a cena rap no Brasil. “Eu comecei a compor nas aulas, mas sem intenção de fazer música, até então. Do nada eu me interessei por rimas e comecei a pesquisar sobre batalhas no YouTube. Quando eu vi que tinha aqui em Pernambuco, eu me apaixonei”, recordou Vitu. A terra da Pitu não passa de 50 km da capital pernambucana, mas ainda assim a distância e o preconceito da família foram empecilhos.



Foi aí que Vitu e seus amigos começaram a se movimentar na escola a fim de criar um pequeno grupo de rima na escola, e, no futuro, uma batalha nas ruas de Vitória. A Batalha da Matriz, que leva o nome de uma das praças da cidade, surgiu por volta de 2016. “Eu fiquei na intenção de fazer uma roda de rima na cidade para que eu pudesse participar, sabe. Por que aqui não existia. Hoje em dia ela não existe mais”. Outro grupo que também não vingou, infelizmente, foi a Batalha do Todo, da cidade vizinha, Pombos. “Lá foi a primeira vez que me senti acolhido no movimento”, confessou.


Contudo, a ida do vitoriense à final do Duelo de MC’s Nacional fez com que a cena voltasse a aquecer na cidade, o que é motivo de orgulho para o artista. “Ser de Vitória de Santo Antão e reafirmar em cada lugar que vou é importante porque mostra que tudo é possível. Aqui tem talento. É a cidade que eu carrego e sempre vou carregar, porque eu quero oportunidade para todo mundo”, declarou Vitu em tom apaixonado.



Atualmente existem duas rodas de rima ativas na cidade da Zona da Mata, a Batalha do Beco, no Beco do Sipau, e a Batalha da Grade, no coreto da Praça do Livramento. “A da Grade tava gerando, toda sexta, mas veio a pandemia”. Todas as atividades estão suspensas por causa da Covid-19, e isso não é diferente para os encontros de rap na metrópole. Vitu também é frequentador da Batalha da Escadaria, a maior do Nordeste, que costuma acontecer na Avenida Conde da Boa Vista - local onde o artista também fincou raízes e sentiu-se em casa.


Ir até o centro do Recife para competir nunca foi fácil para Vitu, mas sempre valeu o esforço. “Hoje em dia sempre tem vaga garantida pra quem sai do interior para duelar na capital, mas já aconteceu de eu chegar no encontro, com muita dificuldade por causa da mobilidade, e não ser sorteado para rimar”, comenta, também trazendo à tona questões financeiras e de estadia.


A batalha, para além de um duelo de rimas, é um ponto de encontro de amigos, um local de diálogo. Vitu diz ser difícil ficar em casa, porém, afirma que é o necessário a se fazer enquanto uma vacina não é liberada. Nem todos os grupos possuem a estrutura para promover reuniões online e mesmo assim, “não é a mesma coisa, porque não tem a emoção de mandar uma rima foda e ouvir a reação do público”, afirma.


O rapper comenta que os duelos de rap que continuam presencialmente estão sendo “queimados”. “Toda credibilidade dessa batalha some, porque mancha a imagem de um movimento que já é muito criminalizado. Tem quem fale ‘ué, mas rap não é resistência? Então vamos continuar’. Sim, o Rap é resistência, o Rap não é morte. E aglomeração está causando morte. Principalmente quando falamos de um movimento que é majoritariamente preto e pobre”.


Há pouco tempo o rapper participou do “Vai Ser Rimando”, batalha organizada pela LAB Fantasma TV, plataforma de entretenimento idealizada e gerida por Emicida e Fióti. “Rimei contra pessoas de vários lugares do Brasil. Cheguei até as quartas de finais, e enquanto eu estava duelando, a minha internet caiu”. Segundo as regras da disputa, cada competidor possui cinco minutos para voltar. “Eu consegui voltar a tempo, mas fiquei muito desfocado. Eu não gosto de rimar on-line, mas como era o Emicida, eu abri uma exceção. Fiquei feliz só dele dizer meu nome” declarou o artista.


Além disso, Vitu se classificou para a seletiva estadual do Duelo de MC’s Nacional, organizada pela Família de Rua, organização focada na promoção da cultura Hip Hop. A seleção este ano foi um pouco diferente. Ao invés de competir cara-a-cara, a classificação foi por indicação.


MCs já consagrados, em cada estado, indicaram 16 rappers para ocupar 8 vagas. Dessas 8, 3 foram selecionados por votação aberta, 2 vagas para indicação exclusiva de mulheres e 2 para repescagem. A fase estadual acontecerá em um estúdio, sem público, e com testagem de todos os envolvidos. Ainda não há data marcada para a etapa pernambucana, mas o vencedor do Nordeste viaja em dezembro à Belo Horizonte para a nacional. Além do Duelo de MCs, Vitu afirma estar produzindo seu primeiro disco em estúdio. “Meu plano maior é viver da minha rima”.


21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo