• Giovanna Carneiro

Preta, negra e fera: a luta antirracista e ancestral de Uana Mahin


De voz potente e opinião forte, a artista pernambucana Uana Mahin iniciou a carreira como percussionista e cantora no grupo Sagaranna. Carregadas de ancestralidade e empoderamento feminino, as composições de Uana são capazes de criar uma conexão imediata com a cultura negra, seja pelos ritmos ou pelas letras das canções.


Ciente de que a arte tem o poder político de difundir ideias, a cantora pernambucana usa a música para falar sobre temas que são essenciais para as pessoas pretas: coletividade, solidão da mulher negra e espiritualidade. Em seu último disco “Pantera”, lançado em 2019, Uana honra a cultura negra e une ritmos como reggae, afrobeat e cânticos das religiões de matrizes africanas.


Não bastasse fazer da música uma ferramenta de propagação das suas experiências como mulher preta, Mahin faz questão de se posicionar abertamente e tomar partido das causas antirracistas em suas redes sociais. “Eu me posiciono porque eu sofro com o racismo diariamente, no meio artístico e na sociedade em geral e não consigo existir sem me colocar contra esse preconceito”, afirma a artista.


Diante dos últimos acontecimentos e do ressurgimento de uma pauta antirracista, Uana se sentiu ainda mais pressionada a se mobilizar e dar voz a uma luta que, para ela, assim como para todas as pessoas pretas, é ancestral. “Eu senti muita raiva e isso é normal, eu acho que nós, pessoas pretas, precisamos entender que pela quantidade de violência que nós sofremos diariamente é natural que a gente sinta raiva, errado seria não sentir nada. Mas depois eu quis organizar esse ódio e foi por isso que eu decidi me posicionar nas redes sociais”, conta Uana.





Gruvi - A ancestralidade é algo muito marcante na sua carreira musical. Como ela influencia também na sua luta como mulher negra?

Uana Mahin - A minha escolha por falar sobre a ancestralidade está inteiramente ligada como a minha luta quanto mulher negra. Eu aprendi a ser uma pessoa lutadora, com as minhas ancestrais, primeiro com minha mãe, com a minha vó e depois com a nossa história ancestral. É importante saber sobre a história dos nossos ancestrais, mesmo que ela tenha sido apagada pela escravidão e pelo racismo, pois sem eles nós não estaríamos aqui. Quando a gente fala sobre ancestralidade, a gente aprende muito como o nosso povo, que é um povo de luta e de resistência. Então a ancestralidade influencia completamente a minha luta quanto mulher negra porque é onde eu busco minhas referências, quando eu tenho alguma dúvida eu busco evocar essa ancestralidade, tanto nas histórias quanto na espiritualidade.


Gruvi - Nós, mulheres negras, estamos no front das lutas antirracistas e feminista. Como esse posicionamento político influencia na sua arte?

UM - Me posicionar politicamente é um tanto desafiador para o meu lugar de artista, porque a gente tá acostumado a ter artistas que preferem não se posicionar por medo da opinião pública. Eu escolhi me posicionar porque eu acredito que a arte e a política não estão desvinculadas e mesmo quando você não quer se posicionar diretamente a sua música ou produção artística vai imprimir sua visão de mundo. Apesar de estar buscando falar mais sobre afetividade eu entendo que isso também é político porque durante muitos anos o amor e o afeto foi algo negado para nós, pessoas pretas.


Eu me posiciono porque eu sofro com o racismo diariamente, no meio artístico e na sociedade em geral e não consigo existir sem me colocar contra esse preconceito porque eu sei que as coisas não estão bem e precisam mudar. A música tem um potencial de difusão de ideias muito grande, então, quando a gente tem uma ideia e coloca ela na música a gente se comunica com muitas pessoas.


Gruvi - Suas canções são marcadas pela sua narrativa e subjetividade quanto mulher negra. Para você, qual a importância de trazer à tona as suas vivências?

UM- Falar sobre as nossas vivências quanto mulheres pretas é muito importante, primeiro porque precisamos garantir um espaço para as nossas vozes já que durante muito tempo nós fomos silenciadas e também para que nós possamos contar nossa própria história que por muito tempo foi contada pelos homens pesquisadores brancos. Eu acredito que isso acontece muito na arte também, na música, no cinema, mas agora nós já entendemos que é preciso ocuparmos nosso lugar de fala. Só a gente pode falar o que a gente sente e isso é sobre política também, poder colocar as nossas impressões no mundo.


Gruvi - Todas as suas canções têm influências de matrizes africanas, seja no ritmo ou nas letras das composições. Como a sua formação pessoal contribuiu para que essa cultura fosse tão presente na sua arte?

Eu demorei muito para ter um contato direto com o candomblé, mas sempre admirei e respeitei as religiões de matrizes africana. Depois, durante a minha trajetória, eu sempre convivi com pessoas que eram de terreiro e eu acabei escolhendo o candomblé como religião. Meu pai sempre admirou a cultura popular e as referências da arte africana e isso influenciou a minha formação. Então, quando eu decidi falar sobre a ancestralidade eu parti pelo viés da religião e assim nasceu o meu disco Pantera.


Gruvi - Recentemente testemunhamos a barbárie do assassinato do menino Miguel Otávio, de 5 anos. Como mãe de uma criança negra, como foi para você experienciar algo tão cruel?

UM - A morte de Miguel para mim foi muito dolorosa. Eu senti muita raiva e isso é normal, eu acho que nós, pessoas pretas, precisamos entender que pela quantidade de violência que nós sofremos diariamente é natural que a gente sinta raiva, errado seria não sentir nada. Mas depois eu quis organizar esse ódio e foi por isso que eu decidi me posicionar nas redes sociais e participei do ato que foi organizado no dia 5 de junho pedindo justiça por Miguel, mesmo estando na pandemia, eu reconheci a importância de estar presente naquele momento histórico e tão marcante.


Esse crime foi muito chocante pelas opressões que estão presente, por ser uma criança, filho de uma empregada doméstica que estava trabalhando mesmo durante uma pandemia, ocorrido em um prédio que é símbolo da classe média recifense, Sari é esposa do prefeito de Tamandaré. Então, eu fiquei muito tocada e pensei no que eu podia fazer para que esse crime tivesse uma repercussão e eu me organizei com as pessoas pretas e antirracistas para que pudéssemos nos mobilizar e pressionar a mídia para retratar esse crime da maneira mais sincera possível.


Foi chocante e tocou todo mundo, mas só quem é mãe sabe o que a gente sentiu porque a gente pensa logo nos nossos filhos e na nossa infância, na quantidade de vezes que as pessoas brancas não tiveram paciência com a gente.


Gruvi - De que forma o movimento "Vidas Negras Importam" pode contribuir para que artistas negros possam ganhar mais espaço no cenário local e nacional da música?

UM - Eu acredito que o movimento pode contribuir sim com os artistas negros, mas ao mesmo tempo eu tenho consciência de que em algum momento isso vai passar, é triste, mas é real. A gente tem que cobrar que as pessoas continuem sendo antirracistas para além dos movimentos que acontecem a nível mundial. A gente tem que cobrar ao poder público que ele seja antirracista também ao montar a grade de um evento, que seja implantado um sistema que priorize a participação das pessoas negras e indígenas e de todas as etnias que compõem o país.


Nós estamos num momento onde a música preta é muito reverenciada e ouvida, mas basta um artista branco chegar e se apropriar daquilo, usar de um capital que eles têm e eles conseguem ser maiores do que os artistas criadores de verdade. É muito difícil ser um artista negro nesse mercado racista e eu espero que o movimento Vidas Negras Importam mude, de fato, alguma coisa e que a gente consiga ter mais espaço e fazer mais dinheiro.


Gruvi - Sendo uma artista pernambucana e mulher negra, como você vê o racismo se manifestar no meio artístico? E para você, como os artistas brancos podem ajudar na causa antirracista?

UM - O racismo se manifesta no meio artístico de maneira muito evidente se observarmos o espaço que os artistas negros recebem comparado aos artistas brancos. Aqui em Pernambuco nós não temos o histórico de nenhum artista negro que tenha ganhado um lugar de prestígio grande na música nacional e a gente consegue ver artistas brancos ocupando esse lugar.


Pernambuco tem uma tradição de música negra muito forte por causa das nossa cultura popular, nós somos um berço cultural muito potente e as influências estão presentes em todas as produções artísticas, seja no coco e no maracatu, ou no brega, ambos muito utilizados por artistas brancos. As referências são negras, mas quem consegue ganhar dinheiro e visibilidade são artistas brancos. É assim que o racismo se manifesta: suga a nossa cultura, mas não nos dá valor.


Para mudar isso, os artistas brancos podem ajudar divulgando o nosso trabalho, nos convidando para fazer colaborações, compartilhando nossa música, utilizando da influência que eles têm para nos dar mais visibilidade. É preciso que as pessoas brancas abram espaço para que as pessoas negras possam se colocar também, mas infelizmente a maioria das pessoas parece não querer que o preto ocupe esse lugar.


Gruvi - Na sua avaliação, há algo que difere os protestos que se organizam em torno das pautas antirracistas hoje dos que aconteceram em outras ocasiões? Se sim, essas mobilizações recentes te passam um sentimento de que as coisas caminham para uma mudança?

UM - Eu vejo que há uma diferença sim desses protestos para os outros pelo contexto que estamos vivendo, essa ascensão dos governos de direita, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos e a pandemia de um vírus letal, mas muitos pontos da luta antirracista continuam sendo comuns, um deles é o fim da violência policial. Eu acredito que ainda tem muito a ser feito, mas o mundo está mudando e nós estamos cansados de assistir o genocídio do povo preto, então, se a gente organizar esse ódio a gente consegue modificar as estruturas.






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