• Heloise Barreiro

Por que apoiar um músico independente?

Atualizado: 28 de Mai de 2020


Sam Silva, artista independente de Goiana. Emanuelly Leite/Divulgação

É como se tivesse no meio de um tiroteio”. Assim é como a cantora e compositora goianense Sam Silva situa metaforicamente a si mesma e a outros artistas no contexto de incerteza desencadeado pela pandemia da Covid-19. Sem eventos presenciais e patrocínios, músicos independentes e profissionais do ramo estão desamparados e sentem na pele os desafios da crise no país e no mundo.


Na área da cultura, as lives têm emergido como uma alternativa, mas para quem? O simples processo de escolher quem deve receber patrocínio é duro e exclui justamente quem mais precisa - os artistas com pouca visibilidade que se ancoravam na renda de festivais e apresentações nos espaços públicos das cidades.


A própria internet acaba criando barreiras para essa parcela de artistas, que mesmo recorrendo às lives, enfrentam dificuldades na hora de monetizar o processo, ou seja, conseguir alguma renda a partir das apresentações online. No YouTube, por exemplo, só é possível acessar uma live de um dispositivo móvel se o canal reunir pelo menos mil inscritos. Boa parte da população utiliza o celular pessoal para praticamente tudo na rotina diária, inclusive para acessar lives, por esse motivo a “regra” cria uma restrição de público.


Diante dessa situação, algumas iniciativas de apoio a artistas independentes têm ganhado destaque nas redes sociais. Um deles é o projeto “Ágora Sonora”, canal que garante a remuneração das lives desses artistas. A ideia proposta é que todos que desejem assistir a live na plataforma colabore com no mínimo R$ 20, valor que irá garantir a renda dos artistas. Após escolher o “show” e fazer a colaboração, o colaborador receberá as instruções de como acessar a live privativa. Nela, é possível interagir com quem está se apresentando e até conversar e pedir músicas.


Em Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, Sam Silva, de 27 anos, se destacou por muitos anos por ser uma das poucas (talvez a única) baterista da cidade. Há pouco mais de um ano, decidiu tocar um projeto pessoal e trabalhar em suas próprias composições musicais. Ela é uma das artistas que formam a agenda do Ágora Sonora. Desmotivada pela ausência de um público com quem pudesse interagir e pelo cenário projetado pela crise do coronavírus, a artista que até então não tinha se arriscado no universo das lives viu a iniciativa como um espaço para trabalhar a autoestima e criar possibilidades.


“Esse convite que eu recebi me deu uma chama. Me deu a instiga de voltar a tocar”, afirmou. Sam entende que apoios como esse ajudam a criar perspectiva. “Isso incentiva [o projeto] e abre subjetivamente a criatividade dos artistas convidados para que eles pensem na suas próprias maneiras de se manter”, acrescentou.


Além de Sam, que tem a live marcada para a próxima terça-feira (2), o Ágora Sonora conta com artistas como Flaira Ferro, Juliano Hollanda, Isaar, Vinícius Barros e outros. Diferente das lives mais tradicionais, nos shows promovidos pelo projeto o músico consegue ver o público, aproximando ao máximo o formato de uma apresentação presencial, como aponta a produtora e idealizadora da iniciativa, Twilla Barbosa. “Eu acho que a gente não pode nem chamar de live, tem que chamar de show mesmo, é um show virtual. Não temos a presença física mas a gente tem o contato, o olhar, a voz…”.


Quanto ao público, que à primeira vista poderia estranhar uma live paga, recebeu de forma acalorada o projeto, de forma que o número de pessoas aumenta a cada agenda planejada. “A adesão está cada vez maior e a gente tá conseguindo fazer com que os artistas se mantenham trabalhando no seu ofício”, orgulhou-se Twilla. Até agora, 34 artistas já se beneficiaram da iniciativa, que já movimentou mais de R$ 25 mil reais. Para acompanhar o calendário de apresentações, acesse o instagram @agorasonora.


O Terra Café, espaço de cultura localizado na Boa Vista, no centro do Recife, também criou um projeto para apoiar artistas e ao mesmo tempo manter vivo o vínculo com o público. Desde o meio do mês de abril foi lançado o “Terra Alive”, ação que promove apresentações em transmissões ao vivo através do perfil oficial do Instagram do estabelecimento (@terra_cafebar).


As lives são abertas e gratuitas, mas quem quiser contribuir pode acessar o endereço do Sympla disponibilizado no perfil do espaço. Até agora, artistas como PC Silva, Marcello Rangel e Martins já apareceram por lá. Para acompanhar o calendário e ficar por dentro das apresentações basta acompanhar as redes sociais do Terra Café.


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