• Giovanna Carneiro

Poesia, Hip Hop e feminismo negro: Slam das Minas completa 3 anos de resistência no Recife

“Necessariamente, parece-me, a voz viva tem necessidade –

uma necessidade vital – de revanche, de ‘tomar a palavra’, como se diz”

(ZUMTHOR, 2000, p. 19)


Em agosto de 2017 iniciava a jornada de um coletivo formado por mulheres que na busca de colocar para fora toda uma subjetividade que alimenta os seus corpos fizeram das ruas o palco ideal. Em meio à uma pandemia, o Slam das Minas PE completa três anos de atividade e enquanto estão impedidas de aglomerar as praças do Recife, as slammers se reúnem virtualmente para traçar novos planos.


“A gente continua fazendo reuniões onlines, conversando sobre os projetos, a gente tem feito lives no nosso Instagram conversando com escritoras, mas ainda não fizemos uma grande batalha online por causa da falta do engajamento, mas estamos decidindo os nossos próximos passos”, declara Bell Puã, integrante do Slam das Minas PE e vencedora do Slam das Minas BR em 2017.



O Slam das Minas é uma competição poética que ocorre, exclusivamente, entre mulheres. As poetas se enfrentam em três rodadas, cada participante recita poesias autorais em um intervalo de três minutos. As participantes são avaliadas por um júri popular formado por convidadas da plateia escolhidas para dar as notas. A interpretação não conta com nenhum artefato ou som, é apenas a poeta e o microfone. A avaliação das competidoras se dá a partir da performance corporal, as mudanças na tonalidade de voz, o ritmo e as pausas, o público é estimulado a interagir com a apresentação e também conta pontos.


De acordo com Martine Kunz (2016), o Slam de poesia foi lançado em Chicago, nos Estados Unidos, nos anos 1980, por Marc Smith, um operário que começou a organizar concursos de poesia em bares. Porém, integrantes do movimento Hip Hop reivindicam a autoria do gênero por ele ter nascido também nas ruas, onde o movimento da comunidade negra começou a ganhar espaço nos guetos nova-iorquinos nos anos 80.


A influência entre o Slam e o Hip Hop é notória já que muitas artistas negras que hoje são cantoras de Rap passaram pela competição de poesia falada, no Recife temos como exemplo a poeta e rapper Bione, que aos 17 anos segue crescendo e fazendo sucesso na música pernambucana. Além de Bione, a poeta e historiadora, Bell Puã afirma que também pretende iniciar sua carreira musical: “estou me planejando pra lançar um single esse ano ainda”.



Para Bell, a música e a poesia andam de mãos dadas e o Slam é a concretização desse encontro. “O Slam é uma cultura que vem do Hip Hop então existe uma entonação melódica nessa poesia falada que se aproxima muito da música. Por isso que o Slam é um grande incentivador para as artistas de Rap do Brasil, muitas delas começaram na poesia”, declarou.


É importante ressaltar que o Rap se configura como uma expressão do movimento negro contra o racismo, mas, ainda assim, deixa a desejar na luta pela igualdade de gênero. Todos os símbolos que cercam a noção de pertencimento ao Rap, entre eles a ideia da virilidade e da vivência de rua, excluem as mulheres do gênero musical, uma vez que, historicamente, as mulheres ocupam o lugar “do lar”, são uma figura dócil que não pode se revoltar nem se manifestar. Nesta perspectiva, o Slam também surge para que as mulheres possam reivindicar um espaço na cena musical do Hip Hop e assim possam criar uma linguagem feminista e própria dentro do movimento.


No Brasil, o Slam, que teve início em 2018, em Brasília, se tornou um movimento feito por mulheres e em Pernambuco não foi diferente, a fim de aproximar a arte das mulheres, sobretudo das mulheres pretas, do público, os encontros de poesia falada tiveram início na capital pernambucana e hoje são um marco no incentivo artístico e cultural da cidade do Recife. “Qualquer movimento social formado por mulheres negras tem muita força moral de compromisso com a sociedade, tem muita força pra levantar a autoestima das pessoas pretas”, afirma Bell Puã.


A cultura Hip Hop tem um valor pedagógico para os povos negros e a poesia do Slam, assim como o Rap, carrega consigo a responsabilidade de ser a abertura das vozes que por muitos anos foram silenciadas. A emoção, a troca com o público, a vibração com que a palavra sai do peito da slammer, é de uma potência generosa, faminta e revolucionária.


Quando nós, mulheres negras, nos autodefinimos, rejeitamos claramente o pressuposto de que aqueles em posição de autoridade para interpretar nossa realidade têm o direito de fazê-lo. Independentemente do conteúdo real das autodefinições das mulheres negras, o ato de insistir em nossa autodefinição valida nosso poder como sujeitos humanos.

COLLINS, Patrícia Hill, 2019, p.216


Para além de ser um movimento poético, o Slam se configura como um movimento de base intelectual, mas não pratica o saber na forma que estamos acostumados, sob uma ótica elitista e conservadora, mas sim um saber pessoal, íntimo e conectado com as vivências de cada slammer, como afirma Bell Puã: “O Slam tem muito a ensinar sobre acessibilidade, falar a todos, ser compreensível, que é o oposto do que fazem os líderes da classe dominante que querem usar de uma linguagem acadêmica, fechada, elitista. O Slam pode influenciar uma nova ordem intelectual que seja acessível”.


89 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
frufru.png