• Giovanna Carneiro

Pela proteção do guerreiro Ogum, Afroito lança o single Onã

Onã significa caminho e os caminhos traçados por uma pessoa negra durante a sua vida costumam ser dolorosos. Aos 27 anos, o artista olindense Afroito sabe muito bem disso. Após sofrer uma violência policial no ato do dia 29 de maio, no Centro do Recife, o cantautor decidiu transformar em música a sua vivência.


O single Onã, que faz parte do segundo álbum da carreira do artista e só seria lançado no ano que vem, precisou ser antecipado para servir como uma denúncia ante ao ocorrido no ato. A música chega às plataformas digitais no dia 4 de junho. Em entrevista à Gruvi, Afroito falou sobre a violência sofrida que inspirou a canção.


Um dia após a abordagem violenta que resultou em sua detenção, o artista foi correndo para o estúdio para gravar a canção e, assim, deixar registrado na história o ocorrido. “Para mim, a melhor forma de responder a violência é com arte. Eu não sou um cientista político, nem um intelectual para falar tão bem como eu gostaria, mas eu tenho a música e ela é a minha melhor arma”, afirmou Afroito.


A violência policial


No dia 29 de maio, amigos e fãs do cantor foram surpreendidos pelas imagens que mostravam o momento em que quatro policiais imobilizaram Afroito de forma violenta, no ato que pedia o impeachment do presidente e vacina para a população.


Em uma reportagem publicada pela Marco Zero Conteúdo, o artista detalha como aconteceu a abordagem:


“Tinha uma barreira do Batalhão de Choque e eu desviei da barreira, passamos pela lateral. Quando eu estava passando pela lateral, um dos policiais segurou o meu braço e, com calma, eu expliquei a ele que só queria passar pra comprar um cigarro e pedi para ele me soltar. Fui, comprei o cigarro e voltei pelo mesmo lugar. Quando estava passando, outro policial colocou a mão em mim, dessa vez com mais força, daí eu já me chateei e puxei o meu braço. Depois uma policial mulher, que estava na ponta da barreira tentou me segurar mais uma vez e eu pedi que ela me soltasse, puxando meu braço novamente. Depois disso eu saí andando e falei ‘Vocês não têm família? Deveriam estar do nosso lado, protegendo a gente’. Logo em seguida eles vieram correndo para me segurar. Eu não corri, porque eu sabia que se eles atirassem poderiam me ferir ou ferir outras pessoas que estavam próximas. Quando eu dei conta, já tinham quatro policiais em cima de mim e a partir desse momento o meu corpo reagiu, eu tentei me soltar, eu pedi para que eles me soltassem, porque na minha cabeça não fazia sentido que tantos policiais precisariam me segurar daquela forma para me conduzir para algum lugar”.



Afroito foi imobilizado por quatro policiais do Batalhão de Choque da PM-PE. Crédito: Milena Ferreira

Tanto Afroito quanto sua amiga, Maristella Lourenço, que acompanhava o cantor no momento do ocorrido, terão que responder uma ação judicial que os enquadra nos delitos de descumprimento a medidas sanitárias, desobediência e desacato à ordem de autoridade.


A música como registro histórico


A violência policial é um trauma antigo de Afroito, o pior de toda a sua vida. O artista revela que há muitos anos enfrenta o medo e a dor de ser um corpo dissidente em uma sociedade burguesa, branca e patriarcal.


Com isso, ele busca na arte uma forma de se manter firme diante das violências. “A música fala sobre as guerras que eu traço, os caminhos que eu tenho que passar para me manter sendo quem eu sou e fazendo o que eu faço nessa sociedade”, revelou Afroito.


O single Onã é uma saudação e uma forma de acessar o axé do orixá Ogum, uma entidade representada com um guerreiro nas religiões de matrizes africanas. Afroito afirma que escreveu a canção para pedir proteção de Ogum e para se colocar como um guerreiro ante a uma sociedade racista que o oprime.


Após a violência policial sofrida pelo cantor no dia 29 de maio, a canção ganhou um significado ainda mais forte. “Muitos policiais que exercem o candomblé como religião dizem que Ogum é o orixá que protege eles, porque é o poder das armas, da justiça. Porém, o que eu quero deixar bem nítido e gravado na história é que esse orixá protege o verdadeiro guerreiro, aquele que luta pela sua tribo, pela sua aldeia e pelo seu povo. Nesse contexto, eu me sinto como detentor desse rótulo de guerreiro”, declarou o artista.


Mesmo imobilizado por quatro policiais armados, Afoito foi valente e lutou para que fosse libertado daquela violência desmedida, não teve medo, sentiu revolta pela injustiça que passou. Colocar o single Onã no mundo foi mais uma forma que o artista encontrou para reafirmar a sua bravura. “Eu preciso falar para essas pessoas [policiais] que me coagiram e me agrediram daquela forma que eu não sou um covarde e eu preciso expressar isso em forma de arte”, afirmou.


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