• Heloise Barreiro

Para ouvir, ver e sentir: as várias formas de acessar a música

Um atravessamento de sensações e possibilidades visuais e sonoras que resulta em infinitas experiências estéticas. Assim se dá o acionamento da sinestesia na música, fenômeno que tem sido cada vez mais trabalhado por artistas para proporcionar uma verdadeira imersão dentro das narrativas da canção. Dessa forma, a maior inclusão de elementos visuais dentro do universo sonoro surge como uma grande colaboração para essa empreitada.


O aspecto visual não é totalmente novo na música; as capas de discos e encartes, por exemplo, sempre deram um “gostinho” para além da camada sonora. O desejo de ampliar a canção cresceu ainda mais com o surgimento do videoclipe em meados dos anos 60, e sua popularização com o surgimento da MTV nos anos 80 nos Estados Unidos, e nos anos 90 no Brasil. Em comparação com os videoclipes, o mergulho dentro das narrativas propostas por cada artista ganha espaço para crescer com a recente tendência dos álbuns visuais.


Além disso, o acesso às tecnologias de rápida captura e edição de imagens tem tornado o ambiente musical mais atraente até para artistas que vêm de outras áreas, como teatro e artes visuais, e enxergam no visual musicado uma potência para comunicar novas sensibilidades.


Em Pernambuco, vários artistas têm aproveitado a transversalidade da arte para explorar seus pontos fortes e acessar o público de diferentes formas. No sertão do estado, a transartivista catarinense Renna Costa constrói sua identidade visual apoiada no imaginário sertanejo, de brincadeira popular e de resistência LGBTQIA+. A identificação inicial de Renna com a arte aconteceu no teatro, sobretudo nas iniciativas populares e de rua, onde a artista encontrou uma possibilidade de se expressar e se assumir enquanto travesti: “Foi um lugar fundamental para que eu pudesse experimentar essa outra corporeidade, esses outros gestos, essas outras identidades sem ser julgada de primeira”.


Foto: Anderson Dinho/Divulgação

A partir de 2016, com influências como Liniker, As Baías e Rosa Luz, a artista passa a enxergar a música como um espaço possível de reconhecimento. “Fui me interessando mais por entender esse lugar da música e fui me colocando nesse lugar de visibilidade, para potencializar que outras corpas também pudessem ter essa possibilidade como uma maneira de viver na arte, para inspirar minhas irmãs”, conta.


Em 2018, Renna foi selecionada para o festival Sonora Olinda com o projeto Sertão Cigana, que agrega músicas e poesias, e se iniciou no mundo musical do lugar mais familiar possível: a performance ao vivo. A artista apresentou-se em palcos no São João de Arcoverde, no Festival de Inverno de Garanhuns e no Festival Pré-Amp, no Recife. Neste ano, Renna ganhou ainda mais visibilidade com o lançamento do clipe de “Lamento de Força Travesti”, viabilizado a partir da lei de fomento cultural Aldir Blanc.



O clipe, definido por ela como um “prelúdio” para toda a sua obra, traz referências de um sertão psicodélico e futurista, da realidade da artista como brincante popular e da violência sofrida pela população travesti; mas não só: o projeto, por abordar a sensibilidade e sonhos de cinco travestis, também faz uma celebração dessas vidas.

Foto: Anderson Dinho/Divulgação

“Desde o início eu sempre pensei na música a partir da imagem, do visual. As minhas criações partem muito do meu corpo, é a minha primeira matéria prima de escrita e de performance. Essa coisa da fotografia é outro ponto chave das minhas criações, eu sempre penso numa imagem e a partir daí eu começo a criar outras pontes”.

Ainda na ideia de explorar as imagens, a estética do primeiro trabalho do recifense Gomes nasce do exagero, do romântico e do brega. Ator desde os 12 anos, o multiartista é mais um nome das artes cênicas e visuais que se lança na música. Em meados de 2017, decidiu mergulhar no aprendizado musical com outros colegas e começar um trabalho na área. “Eu não sabia de nada. Chamei as pessoas pra aprender junto. A gente pegou o notebook e fez tudo no quarto de um amigo”, revela o artista.


Foto: Divulgação.

No clipe de “Não Vai”, terceira faixa do EP “Um Quarto”, a noção do visual chegou antes do sonoro a partir de inspirações românticas, exageradas e megalomaníacas que vieram de antigos casarões do Recife. “Quando a gente começou eu queria trazer uma estética meio romântica baseada naqueles casarões da Boa Vista. Eu passava lá e ficava me perguntando o que acontecia lá, o que existia lá antes de estar assim”.


Ao assistir o clipe, a sensação de grandeza romântica é transmitida em diversas camadas, desde as maquiagens com cores fortes, passando pelas joias, figurinos e cômodos do casarão, até à letra dramática da canção e a sonoridade nostálgica do brega.



Além disso, o projeto visual de “Um Quarto” é tão dedicado que tem até uma cor que sintetiza a sua essência, o azul. Nas palavras do artista: “O azul é sobre ver uma intensidade numa certa frieza, numa certa calma”.


Para Gomes, a experiência com o visual permitiu que ele conseguisse expressar melhor as abstrações nas canções através de um olhar imagético. “Às vezes eu não sabia dizer o que eu queria passar quando a gente ia fazer a letra da música, por exemplo, e aí eu falava ‘bicho, tu tá ligado aquela melancolia de fim de tarde? Eu quero isso’. A imagem sempre esteve muito presente; acabou sendo uma necessidade”.


Já a experiência no teatro evidenciou no artista a noção da autopercepção:

Com a correria de hoje em dia, é difícil a gente se perceber, e quando a gente se percebe, abre muito mais caminho para escrever uma música, por exemplo”.

Apesar de reconhecer como cada arte afeta o seu processo criativo, Gomes acredita ser impossível desvincular as artes, de forma que elas agregam uma à outra de forma natural. “É uma coisa muito intrínseca, acaba ficando uma dentro da outra e quando você percebe. Eu acho que quando eu canto, eu atuo, de certa forma”.


Uma noção parecida também está embutida nas vivências artísticas de Renna Costa, que para além da questão de gênero, denomina-se transartivista por passear em diversos níveis da arte. “O trans ele vem não só com essa questão da minha identidade de gênero, que é algo muito explícito no meu corpo, mas principalmente por transitar, por transversalizar essas várias linguagens que me possibilitam criar”, explica a artista.


Fugir de tudo que é paralelo e óbvio parece ser algo inerente ao pensar artístico. A mesma palavra, transversal, aparece também no posicionamento do artista Ciel Santos: “A minha forma de composição é extremamente caótica, às vezes vem primeiro letra, às vezes melodia. Eu gosto mesmo da transversalidade da arte. Eu acho que tem que ser transversal, a gente tem que se alimentar de arte de maneira contínua e de flechadas avulsas”.


Natural de Bezerros, no Agreste de Pernambuco, Ciel vem ressignificando as estéticas heteronormativas e preconceitos ainda imbricados na cultura popular, ao mesmo tempo que traz para a realidade brasileira referências europeias, como o renascentismo. Com o álbum visual “Enraizado”, e clipes das canções “Coração” e “Corpo”, o artista trabalha elementos da moda, dança e teatro que celebram a corporeidade queer.


Foto: Diego Cruz/Divulgação

Ciel ingressou no mundo das artes ainda adolescente, através da dança e do teatro no Balé Popular Papanguarte de Bezerros. O artista conta que sempre se imaginou como cantor, mas acabou enfrentando preconceitos relacionados à própria voz. “Eu sempre quis cantar, mas porque tinha uma voz andrógina eu sofria muito, as pessoas não entendiam, diziam que eu estava imitando a voz feminina”, explica.


No entanto, driblando os preconceitos, Ciel já reúne mais de quinze anos de carreira como cantor nos mais diversos palcos. Tanto na performance ao vivo, como na gravação de clipes, aos aprendizados do teatro vivem no artista a todo momento.


Foto: Duda Vasconcelos/Divulgação

“Eu crio personagens; como eu vim do teatro, é mais fácil entender como aquela personagem se comporta, como ela dança, como ela encara a câmera e como ela diz o texto. A roupa também ajuda nessa construção”.

O multiartista conta que, para o álbum visual “Enraizado”, valeu-se desses personagens para construção da narrativa: “São vários ‘Ciels’, são várias pessoas que se comunicam esteticamente com o arranjo daquela música, com a forma como aquela música é apresentada”.


Confira:


Ciel, Renna e Gomes são alguns dos nomes que evidenciam a riqueza da cena musical independente de Pernambuco ao agregarem o som a diversos âmbitos artísticos e visuais. Mas a lista não para por aí, confira alguns outros trabalhos que também fizeram esse diálogo:




Um ótimo exemplo dessa nova imersão da música com o visual é a nova edição do Coquetel Molotov.EXE. Com a proposta de trazer "uma experiência visual para todas as telas", o festival foi muito visionário ao notar que o público começou a se esgotar das tradicionais lives, que antes eram uma alternativa aos shows presenciais. Nesse sentido, foi pensado um formato mais atraente e subjetivo para quem assiste, algo que não se esforça para transmitir a performance e o imediatismo do ao vivo, mas que promove uma experiência totalmente inovadora. Confira alguns trabalhos que estão no ar:




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