• Revista Gruvi

Os caminhos que levam da Ruína à transfiguração

por Marlon Diego


Sem parnasianismos e imersos num experimentalismo sonoro repleto de elementos extraídos de suas principais influências musicais, a Ruína, banda pernambucana de Crust Hardcore, lançou “Transfigurar”, segundo EP do grupo, pautando a depressão e o luto com peso e inquietação em tempos turbulentos.


Para os que não os conhecem, vale ressaltar que o ‘rótulo’ de Crust Hardcore já não cabe ao agora trio formado por Zé Carlos (vocais), Rodrigo Santos (Bateria) e Lucas Guedes (guitarra). Dos synths nas músicas aos efeitos utilizados através de pedais conectados ao microfone de Zé Carlos, a Ruína traz um som maturado, que cria generosas camadas em cima de um som agressivo e inteligente.


Com um 2019 corrido entre diversas apresentações, possibilidade de viagens para tocar e suas atividades pessoais e profissionais também tomando bastante tempo, a banda programou para 2020 as novas produções, incluindo um Split com grupos amigos. Como todos nós sabemos, o ano foi marcado pela pandemia da Covid-19, que trouxe com ela mudanças drásticas principalmente no convívio social.


Para a banda, um entrave nos projetos pensados desde muito antes. Para os integrantes, um desafio a ser enfrentado em suas vidas, afetadas de formas distintas. Além das preocupações com assuntos ligados a política e pandemia, alguns músicos do grupo tiveram perdas na família, tendo que lidar com o luto recentemente.


O processo de produção de “Transfigurar” calhou como um modo de aliviar todas as tensões vividas nos últimos meses.

"Foi muito massa poder canalizar essa energia toda e produzir um material novo. Juntar as saudades dos rolês, dos palcos, de se reunir com a banda. E era um processo que a gente já tava querendo fazer há muito tempo, dando uma guinada na sonoridade e na estética do grupo. Acabou tirando um pouco a cabeça desse tanto de informação, notícias ruins e vivência da pandemia", disse Lucas, responsável pela Guitarra, Synths e Beats.

Quimera, Abismo, Aracne e Serpente são as canções que compõe o álbum e formam uma viagem sonora de nível elevado. A primeira faixa começa com um ambiente ruidoso, prelúdio de uma descarga musical destruidora que explode aos 1:56 e dura até o fim da track. Chegando a “Abismo”, faixa que carrega, além do ruído, beats ao fundo e elementos eletrônicos perpassando as camadas, criando texturas diferenciadas numa imersão que prende o ouvinte. “Aracne” é o caos, uma sucessão de ecos e vozes ao fundo, dando uma sensação de desordem e introduzindo a última faixa. “Serpente” é densa, melancólica e encerra o álbum com o ruído que o começou.


Assistir ao Visual EP torna a experiência ainda mais prazerosa e, em vários trechos, ‘incômoda’.



A captação dos instrumentos ficou a cargo de Lucas, as vozes foram captadas por Ítalo Dantas e a mixagem e masterização foi feita por Daniel Farias. Arthur Victor é responsável pela fotografia do grupo, Adson Alves produziu a iluminação e captação de imagens para o visual EP disponível no Youtube. Para quem ouve pelas plataformas de streaming, um bônus: Uma quinta faixa intitulada “Aremiuq”, remix da Sülfür Noise (Rodrigo Bnery), com participação de Renan Holanda (Rabujos) na bateria.


Sobre influências e elementos eletrônicos, samples, Synths e o noise incorporado ao som, os integrantes se mostram abertos a outros gêneros e outras formas de se fazer música pesada.


"Antes de ouvir rock, eu sempre curti muito o Rap e o universo hip-hop norte americano com nomes tipo N.W.A., RUN DMC. Mas eu tinha um tio que ouvia muita música eletrônica e isso permaneceu até hoje com Funk Melody, Eletrônica. Isso também influencia no que eu consumo atualmente”, comentou Zé Carlos.


Para Lucas é importante estar disposto a conhecer outras formas de fazer música, seja ela ‘Extrema’ ou não.


"Acho que todo mundo da banda pode concordar comigo que, parte do problema da música extrema e do Rock, no geral, ter se distanciado do público é que boa parte das pessoas envolvidas fazendo esse tipo de música, não se preocupam em ouvir o que tá sendo produzido de diferente hoje em dia, quais as estéticas que você pode trazer pra sua obra. Nunca foi ideia da gente ser mais uma banda que emula um som de 20 a 30 anos atrás. A gente ouve outros estilos, agrega e cria algo novo a partir disso"

Sendo a primeira produção totalmente assinada pela banda, as experimentações criativas não ficaram limitadas apenas à música. "A gente já tinha trocado uma ideia sobre a ideia do EP, o tema "Isolamento" e tal. Queria dar essa identidade visual pro álbum. Foi daí que sugeri que a arte da capa fosse uma Aranha, com a sensação de algo que agarrasse, prendesse", disse Zé Carlos.


Quem assina a capa do EP é Lucas, que também é Designer. A banda explicou que a ideia é trazer a “Sensação de caminhar pelo desconhecido”. A concepção envolveu práticas analógicas e uma técnica de experimentação digital conhecida como Databending, que torna imprevisível o resultado até estar finalizado.


Para além de 4 faixas que trazem uma mudança sonora significativa, maturada pelo grupo desde o lançamento do seu primeiro trabalho até o presente momento, “Transfigurar” torna-se registro de um processo de transição pessoal vivenciado por cada um dos integrantes e do momento em que se encontram como músicos, depois das inúmeras e intensas vivências em um ano turbulento como 2020.

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