• Giovanna Carneiro

“Obará”: o corpo negro como potencialidade e não tragédia na performance de Afroito



“Quando eu botei na cabeça que era isso que eu queria fazer eu já sabia das dificuldades que eu teria pelo fato de ser um corpo negro, mas eu acho que o importante é pensar o meu corpo não como tragédia e sim como potencialidade para que eu possa continuar e me manter fazendo”. Aos 26 anos, o pernambucano Afroito, morador do bairro de Caixa D’água, em Olinda, encontrou na música uma maneira de existir e resistir através da musicalização do seu corpo e de sua vivência.


O artista pernambucano começou a carreira musical no ano de 2018 em parceria com a MC Nena Callejera. A canção Macarrão Ao Molho Negro “MMN”, da dupla, traz referências do Hip Hop com uma letra forte que retrata a vivência na periferia. “Eu comecei a fazer música para provocar e por querer ocupar esse espaço e poder permanecer nele”, afirmou o cantor.



Em sua experiência, Afroito percebeu que apesar da cultura Hip Hop ser um lugar onde os corpos negros são valorizados, as pessoas LGBTQI+ não tinham espaço. “Por volta de 2017 eu estava entrando em contato com o Hip Hop e percebi que esse era uma espaço bem limitado aos corpos LGBTQI+ e por isso eu quis fazer algo para mudar isso e poder usar dessa linguagem também”.


O incômodo do artista com a falta de representatividade de corpos não heterossexualizados na cena musical enfatiza a potência da imersão de Afroito na cena musical. Testemunhamos uma nova organização onde, num cenário nacional da música, nos deparamos com a ascensão de artistas como Liniker, Linn da Quebrada, As Bahias e A Cozinha Mineira, Rico Dalasam e tantos outros que expõem trabalhos artísticos que tendem a proporcionar um debate maior sobre a interseccionalidade entre raça, gênero e sexualidade a fim de criar um cenário musical mais diverso e mais plural.


Mais próximo da cena pernambucana, temos como exemplo Bixarte, Rízian e o próprio Afroito, que através de suas performances amplia o leque de possibilidades da representação de novos corpos na música. “Eu comecei a me movimentar na música por perceber a necessidade de ter corpos como o meu ocupando os espaços que a música proporciona”, declarou Afroito.


Em seus últimos trabalhos, “Nunca Mais Eu Venho” e “Debesta”, o cantor olindense se afastou do Hip Hop, e se aproximou do brega e do R&B, gêneros musicais influentes da música negra, trazendo narrativas e musicalidades mais românticas. “Nunca Mais Eu Venho”, fala sobre uma saudade doída, já “Debesta” trata de uma paixão carnavalesca que não passa de uma ilusão.


“Eu só sei falar de amor. Quando eu comecei a compor eu comecei a usar o ritual de escrita como processo de cura e nesse processo eu percebi que tinham várias mágoas de relacionamentos da minha vida que eu precisava externalizar de alguma forma e a música era um espaço receptivo para isso”, declarou o cantor.



Afroito está ciente do tamanho de sua potencialidade e sabe que ser um homem negro e homossexual que canta sobre o amor é também ser fonte de uma construção mais humana da história da negritude. “Quando eu fui entendendo as pautas de hiperssexualização e como o corpo do homem negro é colocado em um campo extremamente viril e insaciável sexualmente eu percebi que era importante falar das minhas vivências de afetividade”, declarou.


Entre as diversas formas de opressão presentes na vida do povo negro, a hiperssexualização dos corpos é um dos traços mais marcantes da colonização e do racismo. Reduzir as pessoas ao seu corpo, tratando-as como objeto desejável proporciona uma desvalorização do seu intelectual. No livro Pensamento Feminista Negro, a socióloga e ativista negra Patricia Hill Collins, afirma que “essas imagens de controle são traçadas para fazer com que o racismo, o sexismo, a pobreza e outras formas de injustiça social pareçam naturais e inevitáveis na vida cotidiana”.


No campo artístico e musical essa hiperssexualização opera como um fator epistemicida e contribui para o apagamento e desvalorização do intelectual das pessoas negras quanto produtores de arte, como bem esclarece Afroito: “A condição de homem negro e gay faz com que, na maioria das vezes, as pessoas estejam preocupadas com meu corpo, com o que eu tenho de sexual e de viril e não o que tem de importante na minha arte. Então, muitas vezes, eu sou colocado nesse lugar de possibilidade sexual e não de artista”.


Ainda de acordo com Collins, a música negra tem um papel fundamental na desconstrução dos alicerces da opressão que se apoiam no pensamento binário, na objetificação e na hierarquia social. “O povo negro foi capaz de criar com sua música uma comunidade estética de resistência que, por sua vez, encorajou e nutriu uma comunidade política de luta ativa pela liberdade”, afirma a pensadora.


Em um país como o Brasil, onde a educação, sobretudo uma educação antirracista, é um privilégio, a música se torna uma ferramenta didática e uma fonte de conhecimento. Por isso, através de suas canções, artistas negros, como Afroito, são capazes de quebrar os estigmas racistas e criar uma nova ordem histórica e social.


“Quando eu compreendi que não era só sobre estar lá fazendo e sim sobre ter copos negros iguais aos meus gerindo e fazendo parte também, me fez pensar que a coisa era mais séria do que eu poderia imaginar. Por mais que dentro desses três anos de carreira eu também tenha aprendido a negociar com a branquitude, eu entendi que é urgente colocar mais de nós lá [no cenário musical] e assim, quem sabe, em um futuro bem próximo, esse lugar seja um lugar mais proporcional”, disse Afroito.




Obará

O próximo lançamento do artista pernambucano será o single e o clipe “Obará” que chega às plataformas de streaming no dia 18 de setembro. A canção aborda o afeto afrocentrado, a ancestralidade negra e proporciona uma conexão musical muito forte com as subjetividades de Afroito.


A produção audiovisual traz elementos da religião de matriz africana e a força e influência das águas. Gravado em frente ao mar, o clipe conta com uma performance do artista acompanhado pelas ondas que se movimentam em slow motion.


“Obará reflete a negritude quanto potencialidade e afeto, com símbolos da cultura Iorubá, e remete muito ao meu conhecimento e vivência no terreiro, a minha relação com o mar, as jóias que a minha mãe me empresta. Obará vem para contribuir com a ascensão da negritude pernambucana e para o processo de equidade a partir de uma vivência pessoal”, afirmou o músico.


Para ajudar na divulgação do clipe, Afroito promoveu o sorteio de uma arte feita por ele. Para participar basta acessar a postagem no Instagram do artista e seguir as instruções.




Referência Bibliográfica

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento Feminista Negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução Jamille Pinheiro Dias. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2019

85 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo