• Revista Gruvi

O frevo e o jazz: parentesco, afinidades e diálogos possíveis



Texto especial por Amilcar Almeida Bezerra**


Poucos gêneros de música instrumental podem se gabar tanto de sua popularidade quanto o frevo. Em Pernambuco, é comum que orquestras ambulantes do gênero eletrizem multidões com suas performances instrumentais durante o carnaval. Estas orquestras de rua são as legítimas sucessoras de bandas que, desde o século XIX, acompanhavam o desfile de clubes pedestres no Recife.


Frevo é música de rua, mas também de palco. Ao longo do século XX, vários maestros pernambucanos, como Duda, Ademir Araújo e José Menezes, ficaram conhecidos por seu trabalho à frente de orquestras de frevo que tocavam em palcos abertos ou em ambientes fechados, sobretudo em bailes de carnaval. Geralmente os integrantes destes grupos se diferenciavam dos músicos de rua por um maior apuro técnico, mais adequado aos padrões exigidos para execuções amplificadas. É entre eles que costumam ser recrutados os músicos para gravações de frevo, por exemplo.


No século XXI, os padrões de execução de palco e gravação de frevo foram redefinidos por um maestro da nova geração hoje internacionalmente reconhecido: Inaldo Cavalcante de Albuquerque, o popular Spok. Inspirado na estética das clássicas big bands de jazz, com músicos de alto calibre trajados a rigor, Spok elevou o frevo de palco a outro patamar de excelência técnica, enfatizando sonoridades e improvisos jazzísticos.



Os mais conservadores torceram o nariz para Spok, sob a alegação de que a linguagem do jazz desvirtuaria características essenciais do frevo. Porém, a maior parte da crítica nacional o acolheu como um bem-vindo sopro de renovação, projetando o gênero local para além do debate provinciano entre tradição x modernidade. Por este ponto de vista, entre o frevo e o jazz haveria mais afinidades do que diferenças irreconciliáveis.


Frevo é música, mas também é dança. Assim como o jazz, o frevo se organiza em torno de um ritmo binário e de uma orquestração de metais derivada de um modelo europeu de bandas de música transplantado para o continente americano. A herança afro-americana legou a estes gêneros musicais acentos rítmicos e maneirismos específicos no manejo dos instrumentos de sopro e percussão que, decantados, moldaram suas características formais próprias. Ambos surgiram em grandes cidades portuárias (Recife e Nova Orleans), entre fins do século XIX e início do século XX, num caldo cultural fermentado pela rápida urbanização e por transformações nos padrões de consumo. Ambos se desenvolvem e se consolidam como gêneros musicais em simbiose com danças homônimas. Já na década de 1910, Tin Pan Alley, a rua de Nova Iorque conhecida como embrião da indústria musical norte-americana, atribuía o rótulo de jazz a qualquer música comercial dançante. Enquanto isso, no Recife, os negros capoeiras reinventavam os movimentos corporais que dariam origem à dança do frevo e influenciariam a evolução de seu sotaque musical específico.


Cabem alguns apontamentos quando falamos de jazz: no sentido histórico, trata-se de uma criação revolucionária de músicos negros do sul dos Estados Unidos que se cristaliza no início do século XX em Nova Orleans. Aqui reside a matriz de um estilo musical que influenciaria decisivamente a música popular comercial do ocidente, inclusive a brasileira. É notável a influência da formação instrumental da jazz band na gravação dos sambas de Noel Rosa nos anos 1930, por exemplo (estranhamente, décadas depois, os mesmos puristas que acusariam a bossa nova de ser uma versão abrasileirada do jazz percebiam, em contrapartida, naquelas gravações de Noel, exemplos do samba mais genuinamente nacional).


As orquestras de Pixinguinha, responsáveis por gravar diversos frevos instrumentais no Rio de Janeiro entre os anos 1930 e 1940, tinham uma formação também análoga às orquestras estadunidenses. O próprio Capiba, expoente maior entre os compositores de frevo-canção, foi integrante da jazz-band acadêmica, a primeira do gênero no Recife. Após a chegada do swing e a era das big bands, toda uma geração de maestros pernambucanos acabaria influenciada pelos arranjos de orquestras como a de Glenn Miller, com seus volumosos naipes de metais.


Contudo, num sentido mais amplo, podemos ainda definir o jazz como uma atitude então inovadora diante da música, centrada na performance instrumental e no improviso em contraposição aos padrões da música erudita, que privilegia o compositor e o respeito à partitura. Neste aspecto, o jazz está visceralmente ligado a certos valores culturais modernos. A flexibilidade que permite a cada um executar o que não está escrito, o acordo tácito de mútua confiança entre os músicos como premissa para a liberdade que cada um tem de improvisar sobre uma base comum, a abertura para o inusitado, a coloquialidade na dicção dos instrumentos e a ausência de hierarquias no palco são algumas características que fazem do jazz mais do que um estilo ou um gênero. A performance do jazz reflete aspectos cruciais da vida moderna, tais como a quebra das hierarquias tradicionais e a abertura de caminhos a serem seguidos pelo indivíduo num mundo prenhe de possibilidades. O jazz imita a vida e se reporta a ela, pela sua própria maneira de ser, como uma expressão simbólica de prazer e liberdade.


Por tudo isso, a seara trilhada por Spok e por músicos como Amaro Freitas e Henrique Albino, quando fomentam o diálogo entre o frevo e o jazz, não apenas promove um retorno a certas raízes do gênero, como também estimula o desenvolvimento do frevo como linguagem artística, expressão de subjetividade e construção de identidade que transcende o momento carnavalesco. O parentesco de origem facilita a troca de influências, como ficou claro no encontro da Spok Frevo Orchestra com Wynton Marsalis e os músicos da Jazz Lincoln Center Orchestra no Recife, em 2015. Nesta perspectiva, uma assimilação espontânea do jazz por parte do frevo deveria ser encarada como natural ou até mesmo desejável. A história ensina que são os hibridismos, e não os fundamentalismos, que dão origem às invenções artísticas mais interessantes e transgressoras.


**Amilcar Almeida Bezerra é professor do Núcleo de Design e Comunicação e do Mestrado de Música da UFPE. Atua como pesquisador de música popular, tendo publicado artigos na área e contribuído para roteiros de documentários como Sete Corações (2014) e Pesado: que som é esse que vem de Pernambuco? (2017). É coautor do livro Evoluções! Histórias de Bloco e de Saudade (2006), integrante do projeto de canções autorais Joana Francesa e crooner da Banda de frevo elétrica.

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