• Heloise Barreiro

Nordeste nunca houve: a reinvenção da nordestinidade na música pernambucana atual

Atualizado: 6 de Nov de 2020

O Nordeste é flutuante e nele não há espaço para amarras. Tal como nos Sertões tecidos por Euclides da Cunha, o Nordeste em sua essência não pode ser um só, eles são vários, plurais e encontram-se em permanente mudança. “Ele frequentemente vira-se do avesso e nos desarma”, escreve a jornalista pernambucana Fabiana Moraes em visita aos mesmos sertões revirados do escritor carioca.


Muito se vem à mente ao evocar o Nordeste: o chão batido, a seca, a miséria, o forró… Um caminho possível é pensar que esses estereótipos são resultado de assunções preconceituosas, de pessoas de ‘fora’ que não nos conhecem ‘de verdade’. Mas o que seria essa verdade? Há quem complexifique a ideia de Nordeste e tente convencer que ela é uma identidade espacial construída, só possível de existir dentro de uma série de relações de poder produzidas a partir de práticas e discursos regionalistas. No livro “A invenção do Nordeste e outras artes”, o professor e pesquisador Durval Muniz de Albuquerque Jr trabalha a ideia da identidade nordestina como construída na história:


O Nordeste e o nordestino miserável, seja na mídia ou fora dela, não são produto de um desvio de olhar ou fala, de um desvio no funcionamento do sistema de poder, mas inerentes a este sistema de forças e dele constitutivo. O próprio Nordeste e os nordestinos são invenções destas determinadas relações de poder e do saber e elas correspondente”.

A potência de pensar a nordestinidade dessa maneira reside na possibilidade de desconstrução. Da mesma forma que uma identidade é construída, ela pode ser diariamente renovada e reinventada, pautada em novas narrativas. No mundo da música, o cearense Belchior já soltava o verbo na canção “Conheço o meu lugar” ao cantar os versos: Nordeste é uma ficção / Nordeste nunca houve / Não eu não sou do lugar / Dos esquecidos/ Não sou da nação/ Dos condenados/ Não sou do sertão/ Dos ofendidos/ Você sabe bem. Ao rejeitar qualquer categorização redutora do Nordeste, o músico usou da sua poesia para criar novas formas de existência nordestina; e apesar do destaque que recebeu, ele não foi o único a compartilhar esse pensamento. Na música, muitos artistas e grupos, consciente ou inconscientemente, através de seus trabalhos e posicionamentos, contribuem para sempre atualizar os ideais de Nordeste.


No agreste pernambucano, a banda caruaruense Joana Francesa - formada por Amilcar Bezerra, Luiz Ribeiro, Gael Vila Nova, Gustavo Alonso, Elter Araújo e Artur Lima - se destaca por trazer a renovação do Nordeste através de um termo específico: o neorregionalismo. Para o grupo, o termo é sobre se conectar com referências diversas para além do recorte espacial, ao mesmo tempo que reconhece a importância do regional e trabalha para apresentá-lo como atual.


Foto: Cecília Távora/ Divulgação

Ao mesmo tempo que a gente é situado num lugar e numa cultura, a gente tá cada vez mais acessando outras referências, tendo diálogos com culturas diferentes, com sotaques diferentes, com músicas diferentes”, discorre Amilcar Bezerra sobre a essência do termo.


“Serve também para verter um pouco essa ideia de que o Nordeste seria uma região mais atrasada ou desatualizada com relação às coisas contemporâneas, o termo brinca um pouco com esse estereótipo, mostrando que o regional também pode se apresentar como o novo em vários sentidos”, completa o músico.

A Joana Francesa é uma banda recente, mas que nasce com uma proposta relativamente antiga: a de misturar o regional, como o xote, a outros ritmos de fora, como o rock e pop. Com um som bastante setentista, o grupo bebe da mesma fonte que muitos artistas que saíram do Nordeste para o mundo na década de 1960 e 1970, como Ave Sangria, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho. “Ter uma identidade sua, regional, não significa que você não pode conversar com outros universos, outros públicos e artistas”, argumenta Almicar. O francês Serge Gainsbourg e o caruaruense Carlos Fernando são as principais inspirações para o grupo, que inclusive se juntaram graças a Carlos, tema de uma projeto acadêmico na Universidade Federal de Pernambuco (Campus Caruaru) que uniu os integrantes da banda.



Identidade que fortalece


No Sertão do Pajeú, na cidade de Triunfo, rap e repente se confundem na poesia musicada de Jéssica Caitano. Lá também vemos o regional, representado pelo coco e pela poesia falada, atrelado às tendências internacionais do rap; tudo isso atravessado pelas vivências de mulher sertaneja da artista. “Falo muito sobre a vivência na zona rural, na roça, os saberes ancestrais de cuidados com a terra e semente crioula, tudo que pude aprender com minhas avós, isso é sobre alimento pro corpo e pra alma, é transmissão de conhecimento que minhas avós me passaram e tento colocar isso no verso”, explica a artista. Para ela, a mistura de ritmos vem de forma natural e faz parte de seu processo criativo.


Créditos: José de Holanda/Divulgação
Quando me vi no Pajeú cercada da poesia falada e cantada no repente, nos cocos e a também a poesia declamada; a oralidade muito forte, me encontrei ainda mais”, conta.

Fazem parte das inspirações de Jéssica nomes como Mocinha de Passira, Lindalva do Pandeiro, Aurinha do Coco e Mãe Beth de Oxum.


Antes de tudo, explica Jéssica, a música é sobre diálogo e identificação. “Quando minha música toca na rádio local e tem uma agricultora trabalhando no cultivo, na agricultura familiar, ouvindo e se identificando com aquela poesia, então é aí onde meu trabalho faz sentido”. A cantora canta primeiramente para a terra e para as mulheres da terra, de forma que a desconstrução de padrões não é exatamente uma meta, mas um reflexo disso tudo. “Se isso ajuda de alguma forma a desconstruir as ideias e preconceitos das pessoas também, maravilha, mas sinto que minha palavra é primeiro pela terra”, argumenta.


O certo é que, tanto pela musicalidade como pela mensagem das canções, a cantora ressignifica valores de nordestinidade, os fortalece e também alimenta a alma das ouvintes com autoestima e empoderamento, duas condições que são historicamente negadas às mulheres, sobretudo às nordestinas. “É importante se posicionar para se colocar atenta, saber o que se passa e criar as estratégias de defesa e de ocupação dos espaços, não só na música, mas todos os outros lugares que nós mulheres quisermos ir, se tenho esse espaço eu uso como ferramenta, a mulher nordestina também precisa ser ouvida”, afirma Jéssica.



O movimento de tornar o lugar comum um espaço para transformações também foi adotado pela banda Joana Francesa, que em seu primeiro single, “Fogo Branco”, trabalha a narrativa de uma cangaceira trans. A canção é inspirada na história retratada no roteiro homônimo, dirigido pelo jornalista Renand Zovka. Para Luiz Ribeiro, integrante do grupo, a música representa uma quebra de expectativas, tanto em relação ao gênero como em relação ao que o Nordeste representa. “Você pega uma referência típica do que seria um estereótipo do Nordeste, mas ao mesmo tempo está reinventando, está quebrando o senso comum mesmo, ocasionando uma ruptura”, explica Luiz.


Luiz Ribeiro e Amilcar Bezerra, compositores de 'Fogo Branco'. Crédito: Bruna Santos/Divulgação.

Assim como Belchior, a musicalidade e proposta estética do grupo surge para negar qualquer amarra. “A gente da banda, nessa pequena contribuição musical, parte muito disso de criar novos Nordestes e sempre recriar essas ficções”, reforça. Nas palavras de Durval Muniz de Albuquerque Jr: “É através das práticas que estes recortes permanecem ou mudam de identidade, que dão lugar à diferença; é nelas que as totalidades se fracionam”.

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