• Revista Gruvi

“Não sou filha, nem filho, eu sou a falha do sistema": A potência e artisticidade de Rizian

Por Mikhaela Araújo



“Eu faço música para ser ouvida.” Com apenas 20 anos, a artista pernambucana Rizian encontrou na arte uma forma de se expressar. Seu trabalho mais recente é ‘Confundiu Amor’, música lançada em março deste ano em colaboração com IMERSO. A batida é de bregafunk, completamente diferente de seu primeiro trabalho musical, ‘Puta Liberdade’, lançado em julho de 2019, com uma pegada mais R&B. Ambas falam sobre relacionamentos, decepções e frustrações no amor. “Quem não viveu isso, né? Quem não queria um romancezinho e a pessoa só queria se divertir, queria fazer de brinquedo?”, conta. A sonoridade e performance de Rizian bebe de várias fontes, desde Ney Matogrosso e Tim Maia até artistas novos com Mc Tha e Jaloo, tudo numa mistura deliciosa com ritmos e estilos culturais locais. Não tem gênero fixo e, segundo a própria, rotular-se não é um objetivo.



Produzir uma música de bregafunk, para Rizian, era quase que uma obrigação como recifense, uma forma de se autoafirmar como cidadã pernambucana e reforçar a cultura rica do estado. Num meio tão machista e carregado de preconceitos e fetichizações, ‘Confundiu Amor’ veio com a intenção de fazer parte do movimento que quer mudar isso no gênero. “Bregafunk é uma força aqui em Recife, onde surgiu. E eu como artista daqui tinha o dever de lançar um bregafunk, mas que não marginalizasse a cultura feminina, que é o que sempre fazem. Queria falar sobre algo meu”, disse.


A música não foi o primeiro campo artístico visitado por ela. Em 2016, participou do curta metragem Ceça, trabalho de Rodrigo Bezerra sobre a devoção à Nossa Senhora da Conceição em Recife, lançado em 2018. Foi aí que ela se deparou com Rizian pela primeira vez. “Eu precisava de um nome que me declarasse, me trouxesse uma essência individual, mais divergente do que existe, sabe? E eu sonhei com esse nome, veio na minha cabeça e eu falei ‘esse é o nome, é o nome que eu quero para mim’. É o nome que todo mundo me chama hoje e o que eu mais me identifico. Eu nunca decidi ser ela, ela sempre existiu. Eu só precisava botar ela para fora e encontrar o tempo certo de botar ela para fora, porque desde pequeno eu precisava de um nome para me manter firme, que transparecesse a coragem e a eficiência de ser negro, ser bicha, nordestino, periférico, uma essência que transpassasse esse veículo.”, explica. No audiovisual, ela ainda atuou em Carro Rei, filme de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira com Matheus Nachtergaele no elenco. Também trabalhou com a dupla no projeto piloto da série Livro de Ouro, gravado em Aldeia, aqui em Pernambuco.


Como artista independente, Rizian conta que enfrenta ainda mais dificuldades que o comum por fazer parte de grupos marginalizados pela sociedade. Pernambuco tem uma gama de artistas enorme e diversa, porém, boa parte deles não consegue chegar ao grande público por fatores externos. “A gente tem uma musicalidade negra enorme, mas só quem ganha visibilidade são artistas brancos, entendeu? E é assim que tudo se manifesta, que o racismo se manifesta: ele suga nossa cultura e não dá valor a gente.”, desabafa. Segundo a artista, é a oportunidade que separa o artista branco do artista negro. Recentemente, o movimento antirracista ganhou mais visibilidade, após o caso do assassinato de George Floyd por policiais nos Estados Unidos. Apesar disso, Rizian não acredita que levantar hashtags seja o bastante. É preciso agir e se posicionar na prática. Para ela, “a gente ainda tem muito, muito, muito pela frente. Eu acho que vou morrer na velhice e ainda vou sofrer da mesma fonte de ódio”.



Entre os próximos trabalhos de Rizian estão um remix de ‘Confundiu Amor’, uma música nova chamada ‘Apostas’ e um clipe de Puta Liberdade, seu primeiro audiovisual autoral. A artista pretende estrear seu primeiro álbum em 2021 e continuar fazendo arte. Tenho certeza que ainda vamos ouvir bastante essa voz potente, que externa tantos gritos muitas vezes silenciados. Rizian é, como ela mesma diz, uma falha do sistema - que deu muito certo. “Nunca quero chegar ao topo, porque quem chega ao topo, uma hora cai. Quero ir subindo e levando os meus comigo, mostrando que que é possível sim ser viado, ser negro e ter uma estabilidade emocional, física, financeira, social e artística. [...] E eu sei que tenho muito axé, muito axé pela frente.”


Siga o perfil de Rizian no Spotify e no YouTube para conhecer mais do seu trabalho:






283 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
frufru.png