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Não há brincadeira que a ausência do Carnaval sustente

Por Giovanna Carneiro e Júlia Melo


“É Carnaval o tempo todo numa sede de Maracatu”

Sendo assim, milhares de Carnavais fazem parte dos 20 anos de vida de Karen Aguiar. A estudante de história é da gerência administrativa e regente do baque no Maracatu Nação Leão Coroado, que tem uma trajetória de 158 anos.


Mas, além dessas funções, ela é neta do Maracatu. Seu avô é Afonso Gomes de Aguiar Filho, que em 1996 recebeu o Leão Coroado do Mestre Luís França. Mestre Afonso assumiu a diretoria e levou pra Águas Compridas, Olinda, onde fundou a primeira sede oficial do grupo.


Neta de Mestre Afonso e de dona Janete, Dama do Paço (pessoa que leva a Calunga, peça muito importante no maracatu), Karen cresceu rodeada do som das alfaias e da determinação do avô.

Em 2018, após a morte do avô, Karen assumiu o Leão e embarcou em uma jornada de orgulho e resistência.


“É de um orgulho imenso. Nunca pensei estar à frente de tudo isso, vi o quanto meu avô dava duro pra botar o Leão na rua, e é o que eu faço hoje, manter a luta pelo o que ele lutou".


A chuva que não seca

No Leão, as apresentações de Carnaval se auto sustentam: o dinheiro que se faz num ano é o mesmo que vai ser responsável pela saída do grupo no ano seguinte. O período de folia é a principal fonte de renda do grupo, especialmente as apresentações pagas anualmente pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de Olinda.


Os ensaios para os quatro dias de festa começam “depois da chuva”, a partir dos meses de agosto e setembro. Mas em 2020, foi como se a chuva não tivesse fim. Surgida logo depois da folia de fevereiro, a pandemia do Novo Coronavírus não deixou que os encontros do baque acontecessem.


Toda a renda que o Carnaval de 2020 gerou, que num mundo pré-pandemia seria usada para a manutenção da sede, dos instrumentos e das roupas do desfile, foi destinada para ajudar as famílias da própria comunidade e das comunidades vizinhas, que se encontram em dificuldade com a pandemia: “A gente preferiu colocar comida na mesa das pessoas", conta Karen.


Por isso, mesmo se tivesse Carnaval em 2021, o Leão não sairia.


A sede também atua na integração da comunidade, no resgate de jovens e adultos. É um Ponto de Cultura: dispõe de oficinas de dança, corte e costura, reforço escolar e aulas de informática. As atividades estavam temporariamente suspensas por causa da reforma iniciada em 2018, que tem como objetivo ampliar a estrutura que já é oferecida. Com a reforma paralisada pela falta de recursos, a suspensão se estende.


Levantar o boi

A única ajuda recebida pela a Nação, que é Patrimônio Cultural Vivo do Estado de Pernambuco, foi a do concurso de um dos editais da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, que tinha como foco “premiar a trajetória e atividades artísticas e culturais de mestres e mestras, coletivos, grupos e comunidades relacionados aos Saberes Tradicionais e da Cultura Popular”.


Karen reforça que o valor do prêmio é pouco para suprir as necessidades do grupo e que a lei, em si, não oferece suporte suficiente para os artistas, que precisam “levantar o boi”, fazer dinheiro nas épocas de festas populares como Carnaval e São João, para sobreviver até as do ano seguinte.


“Trabalhar como artista é trabalhar com amor. [...] No Carnaval a gente levanta o boi pra poder viver até a metade do ano, quando tem São João.


A venda online de itens do grupo já era comum antes da pandemia, mas se tornou uma fonte de renda ainda mais essencial na pandemia, apesar de não haver o mesmo retorno de antes. Camisas, adesivos, acessórios como bolsas e colares, livro, CD e documentário em DVD estão à venda no site do Leão Coroado.


2021

Depois de 20 anos, 2021 é, para Karen, o primeiro sem Carnaval. E não significa somente a ausência dos quatro dias da festa. Também quer dizer que o grupo não tem previsão de ensaiar ou se reunir neste ano.


“É Carnaval o tempo todo numa sede de maracatu. A sensação é de pesar. [...] O Leão Coroado é 40% de idosos... É melhor todo mundo em casa triste do que no hospital. Não tem uma alternativa.”


Nem presencial e provavelmente nem online. As lives, que se popularizaram em 2020 como alternativa para os artistas arrecadarem dinheiro, não são uma possibilidade para o Leão. Falta recursos para uma transmissão com equipamentos de imagem e áudio que captem com qualidade os sons feitos pelos instrumentos.


Karen afirma que nem o governo do estado, nem a prefeitura de Olinda entraram em contato para a realização de iniciativas que remediassem os prejuízos da falta do Carnaval.


Até lá, o Leão espera e segue sendo apoio para os seus.


Nos conhecemos de outros carnavais

O Nordeste não é uma região de cultura, sotaques, crenças e tradições únicas, cada estado tem suas particularidades e elas são diferentes entre si, de forma que as cidades que compõem esses estados também são singulares e diferenciadas. Por que estamos afirmando isso? Porque se engana quem acha que Carnaval de Pernambuco é vivenciado de uma única maneira.


A cultura é fruto do povo e são as pessoas que determinam como as manifestações e os costumes são referenciados, portanto, não é possível que um estado com regiões tão diversas possua apenas uma forma de se expressar durante a Folia do Momo, essa ilusão é fruto da exportação da festa da capital e uma certa invisibilidade dos festejos do interior.


Um ano sem máscaras na terra dos Papangus

Cobertos dos pés à cabeça, com máscaras enormes e roupas esvoaçantes e enfeitadas, os Papangus tomam as ruas de Bezerros durante o Carnaval e são parte da história da cidade. Originária do século 20, a brincadeira dos Papangus consiste em caminhar pelas ruas da cidade, com a identidade não revelada, zoando e assustando as pessoas e às vezes pedindo algum trocado.


Com o passar dos anos as máscaras e fantasias, que antes eram feitas com roupas emprestadas, foram ganhando mais ornamentos e se tornaram adereços produzidos com muita dedicação e cheios de beleza. A partir dessa mudança, dezenas de artesãos e carnavalescos da cidade de Bezerros passaram a confeccionar fantasias e máscaras como forma de conseguir uma renda.


Brincante de Papangu há mais de 30 anos, Roberval Lima confecciona máscaras, fantasias e painéis para a decoração. Todo ano, o artista participa da competição de fantasias de Papangu que acontece na cidade. “Nós temos um concurso que acontece no domingo de Carnaval, esse concurso reúne os papangus e competimos em três categorias: individual, dupla e grupo. Eu costumo participar em grupo, e não colocamos nenhum nome porque na brincadeira escondemos a identidade. Eu que idealizo e produzo as fantasias”, declarou. O concurso, organizado pela Prefeitura de Bezerros, tem uma premiação em dinheiro e costuma reunir brincantes de todo o estado.

Uma cidade fantasma

A pandemia comprometeu o Carnaval 2021 e resultou no cancelamento da tradicional competição, afetando a renda dos moradores da cidade que vivem do artesanato e da confecção de fantasias de Papangu, como revelou Roberval: “Quase não tivemos demanda esse ano. Poucos artesãos ainda estão produzindo porque algumas pessoas ainda vão decorar suas casas durante o carnaval. A gente tá incentivando as pessoas a decorarem suas casas, a fachada, justamente para o artesão não ter uma perda tão grande, mas eu sei que a demanda vai ser bem pequena porque geralmente a gente vende bastante para os turistas e lojistas”.


As saídas para tentar amenizar as perdas causadas pela pandemia são simples e não muito eficazes: produzir uma live para transmitir imagens antigas do Carnaval da cidade ou tentar fazer a competição das fantasias de Papangus também através de uma live. A segunda opção parece cada vez mais inviável devido ao aumento do número de casos da Covid-19 em Pernambuco e as medidas de restrição adotadas para conter as aglomerações. Sem muitas expectativas, Roberval conta que às vésperas do mês do Carnaval não há nenhuma programação definida e a melhor solução, para ele, é começar a se preparar para os festejos de 2022.


“Pode ser que algumas pessoas queiram se manifestar em um carnaval fora de época, mas aqui em Bezerros é tão tradicional que a festa aconteça em fevereiro e março que se acontecer em outro período as pessoas não vão se animar. [...] Acho que o melhor é a gente começar a trabalhar e investir para o carnaval de 2022”, afirmou.


O Carnaval também costuma ser época do ano em que o turismo da cidade está em alta, pousadas e restaurantes lotados, comércio de rua com uma boa venda, tudo fluindo bem para gerar lucro para os moradores de Bezerros. O cancelamento dos festejos vai atrapalhar uma grande parcela de empregos formais e informais, além de entristecer todos aqueles que estavam acostumados a vivenciar a alegria de ter as ruas tomadas por belos papangus dançando ao som do frevo. "No domingo, na segunda e na terça de carnaval, era quando as ruas da cidade estavam lotadas de papangus, brincantes e turistas, com muito frevo e alegria, e eu 'tô' imaginando que este ano Bezerros vai ser uma cidade fantasma", declarou Roberval emocionado.


Caboclo das matas descansa e vigia enquanto não chega o carnaval

“Eu tenho fé, em primeiro lugar em Deus, e também no meu pai das matas. A minha fé vai fazer com que tudo volte ao normal [...] essa pandemia vai passar sim e vamos retomar as nossas atividades”. Essa é a expectativa de Geane Gonçalves, Mestra do Caboclinho União 7 Flexas, para o ano de 2021.


Filha do Mestre Nelson Ferreirinha, que em 1978 inaugurou o Caboclinho União 7 Flexas e se tornou uma grande referência para os carnavalescos de Pernambuco, Geane nasceu e foi criada para ser uma brincante apaixonada pelo Carnaval, e em 2019, com a morte do pai, assumiu a diretoria do Caboclinho e se tornou uma das poucas mulheres mestras da manifestação cultural.


Com sede localizada no bairro Nova Goiana, área periférica da cidade de Goiana, na Zona da Mata de Pernambuco, o Caboclinho União 7 Flexas é muito mais do que um local de preparação para o carnaval, é um quilombo onde as pessoas da comunidade se unem para partilhar de uma experiência ancestral incitados pela dança.


Com apresentações o ano inteiro, os brincantes, que em sua maioria são os moradores da própria comunidade, costumavam se reunir toda quarta-feira para ensaiar, mas com a chegada da pandemia, em 2020, tudo mudou. “A Covid-19 nos afetou em todas as áreas, hoje não estamos mais nos reunindo como antes. Tinha um ensaio semanal onde a gente atraia um bom público da nossa comunidade Nova Goiana para nos assistir, e hoje poucos podem ensaiar por causa da pandemia, muitos se afastaram”, disse Geane.


A autogestão da comunidade brincante

Anualmente a agremiação recebe uma verba do fundo de cultura do Governo do Estado de Pernambuco e todo o dinheiro é investido no material utilizado para a confecção das peças dos brincantes e o lucro é arrecadado através das apresentações que são realizadas ao longo do ano. Com o cancelamento das apresentações, os brincantes ficaram sem a renda, que já era pequena e agora é nula.

A falta de apoio do governo para os carnavalescos, brincantes e fomentadores culturais no geral, coloca toda a comunidade em situação de vulnerabilidade, tendo em vista que a agremiação é fonte de renda para os moradores. “O único auxílio que nós recebemos foi o auxílio da Lei Aldir Blanc, depois dela nenhum benefício foi dado ao grupo. Nós somos do carnaval, gostamos e trabalhamos com isso o ano todo, e em 2020 não houve trabalho. Todos os carnavalescos ficaram sem ação com a pandemia”, declarou Geane.


Para a Mestra do Caboclinho União 7 Flexas, a dificuldade financeira pode ser amenizada com a união entre as pessoas da comunidade brincante, que independente da realização do carnaval seguem trabalhando para garantir que a cultura do Caboclinho siga viva e pulsante. Ruim mesmo vai ser não colocar homens e mulheres trajados com cocares, saias e adereços enfeitados com penas pintadas, dançando ao som de ritmo percussivo que lembra o som de um arco e flecha e da flauta doce, para desfilar nas ruas das cidades.


“Nessa época do ano a gente corre, a gente mal tem tempo de dormir e de comer, é uma correria que só Deus sabe. Saio de Goiana para Recife procurando apresentação, levando documentação e assim a gente vai, é tudo muito corrido, mas é uma sensação muito boa e quando chega a hora das apresentações é que é bom mesmo, porque a gente sente a satisfação de um trabalho bem concluído”, lembra Geane saudosa do carnaval.


A falta de auxílio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco para as agremiações carnavalescas é um sintoma grave da falta de assistência à cultura pernambucana. É preciso lembrar que boa parte dos brincantes se dedicam ao Carnaval o ano inteiro, e não apenas durante as festividades do mês de fevereiro e março. A renda gerada pelas apresentações bancadas pelas secretarias de cultura das cidades são investidas em fantasias, transporte e alimentação, para que os carnavalescos se preparem e deem continuidade às atividades ao longo do ano, e sem essa renda não há trabalho.


Em nota, a Secretaria de Cultura de Pernambuco declarou que segue estudando a possibilidade de apoiar as agremiações e grupos que tiveram as atividades comprometidas com o cancelamento do Carnaval 2021, mas não informou quando e nem como esse apoio será realizado. A Secult reforçou que os grupos da cultura popular ligados ao carnaval foram beneficiados através da Lei Aldir Blanc. Porém, o auxílio - que só começou a ser pago em dezembro de 2020 - não é capaz de suprir o déficit orçamentário causado pela pandemia, que teve início em março desse mesmo ano, como evidenciaram os brincantes entrevistados pela nossa reportagem.

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