• Giovanna Carneiro

Menga: o desapego como premissa do afeto

Das palmas das mãos de Afroito nasce o disco que reverencia a cultura popular e as vivências de um coração que habita um corpo negro


Foto: André Santa Rosa

Falar de música é falar de gente. Dos amigos, da família, dos amores, da sociedade e, sobretudo, falar de si mesmo, e Afroito sabe muito bem disso. Prestes a lançar o seu disco de estreia, intitulado Menga, o artista olindense utiliza de suas canções como uma extensão do seu próprio corpo, carregado de subjetividades e afetos.


Durante a conversa que deu vida a esse texto e ao vídeo da série Gruvilinas Sessions, ficou nítido o desejo de Afroito em se colocar como um ser carregado de emoções e merecedor de afeto, buscando fugir do lugar enquadrado pelo olhar colonizador, que molda a percepção e a compreensão sobre o seu corpo preto e periférico. “Talvez, em um futuro bem próximo, corpos como o meu possam falar de afetividade no sentido de reciprocidade e do acesso direto e não no contexto da solidão”, enfatizou o artista.


Entrevista com Afroito realizada durante as gravações das Gruvilinas Sessions. Foto: André Santa Rosa

Não é à toa que vemos o crescimento de debates que buscam humanizar a experiência de corpos negros através do afeto. São discos, livros, filmes, séries, diversas produções culturais feitas de pessoas negras para pessoas negras, a fim de criar uma nova história, contada por nós mesmos e diferente do padrão imposto pela branquitude. Nos últimos anos, Luedji Luna, Emicida, MC Tha, Zé Manoel e diversos nomes da música nacional produziram músicas exaltando o amor como forma de resistência e, com Menga, Afroito se une a esses artistas.


“Todas as composições de Menga são minhas. Eu não viajo na ideia de interpretar algo, eu gosto de criar algo e cantar a partir disso. Sinto muita necessidade de interpretar aquilo que faço”, declarou Afroito ao falar sobre o processo de criação do álbum, que estreia nas plataformas de streaming no dia 26 de março.


No programa da série Gruvilinas Sessions, Afroito apresentou três faixas do disco Menga. Foto: André Santa Rosa.

Dono de sua própria história e consciente do poder de conexão que a música pode estabelecer, o artista olindense faz questão de se apropriar do processo de escrita para construir uma narrativa própria de suas vivências, que, segundo ele, já foram silenciadas durante muitos anos: “Menga é um talho para o que se pensa sobre afetividade para corpos negros como o meu”.


Um dos grandes desafios assumidos por corpos negros, como o meu e de Afroito, está na libertação de uma imagem de sofrimento e violência, é preciso pensar em possibilidades mais humanas de relacionamentos afetivos e também externalizar narrativas que se desprendam do racismo. Muito mais do que admitir que corpos negros estão propícios a sofrer ataques e preconceitos, é urgente possibilitar que nossos corpos possam assumir experiências de amor e alegria. Pensando nisso, o cantor traz em seu disco o ritmo que nos leva a um lugar de acolhimento, dança e resistência: o coco de roda!


Cria de Olinda e Recife, Afroito sempre participou das brincadeiras populares. As experiências em maracatu, quadrilha e coco de roda são influências diretas na vida e no processo criativo do cantautor. Assim, Menga nasce como uma homenagem ao coco de roda, ritmo marcante e fundamental para a cultura popular pernambucana.


A música que nasceu da brincadeira popular


“Não ter os afetos negativos como sofrimento e sim como desapego”, é assim que Afroito descreve o seu disco. Composto por dez faixas, Menga é uma obra coerente, concisa e excepcionalmente forte, que traz uma narrativa sequenciada sobre sofrimento, desapego, ancestralidade e festejo.


Para a Gruvilinas Sessions o artista preparou uma apresentação intimista com pandeiro e voz. Foto: Renatto Mendonça.

Todas as músicas são de composição autoral e algumas delas foram escritas há anos, antes mesmo de Afroito saber como tocar o pandeiro. “Quando eu comecei a fazer música eu já tinha interesse em contribuir com o coco de roda, mas eu não sabia nem pra onde ia o pandeiro. As primeiras canções eu fiz na palma da mão, só depois eu consegui um pandeiro emprestado e comecei a tocar”, declarou o artista.


Além das canções, que carregam diversas referências sonoras e narrativas do maracatu, da sambada, das cidades pernambucanas e do Rio Beberibe, Menga conta com um material audiovisual com cenas gravadas na Ilha de Itamaracá e no Centro do Recife. Após ouvir algumas canções do disco, que foram apresentadas pelo artista na primeira edição das Gruvilinas Sessions, no dia 6 de março, é difícil não ficar minimamente instigado a conhecer a obra completa.


O trabalho de Afroito é permeado por interseccionalidades que fazem com que o artista seja capaz de conquistar e se conectar com diversos ouvintes e, ao colocar o coco de roda como ritmo central de Menga, é possível ampliar o alcance das brincadeiras populares através da música.


“Eu acho que a cultura popular pernambucana é a resposta exata contra o plano de genocídio”. É com essa convicção de homem preto e periférico, que nasceu e cresceu imerso nas brincadeiras de rua, que Afroito expressa em seu trabalho a potência vital que existe na união entre a urgência do afeto e o legado dos brinquedos da cultura popular pernambucana.



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