• Giovanna Carneiro

Mata Goiana: um movimento pela memória e continuidade musical

A cidade de Goiana, na Zona da Mata de Pernambuco, é um berço histórico e cultural. Terra de poetas, musicistas e manifestações culturais que influenciaram a formação da identidade de todo um povo e seu território. Porém, a falta de políticas públicas para a área cultural da cidade colocou em risco a memória e a continuidade das produções artísticas dos goianenses.


Reconhecendo a importância de se criar um acervo cultural que pudesse permitir aos moradores de Goiana uma conexão com as produções artísticas e culturais da cidade, o publicitário Elthon Taurino e o programador Douglas Torres resolveram criar um site que acabou se transformando em um projeto maior.


“Muita gente do cenário alternativo não tem as mesmas chances que os artistas da cultura de massa têm e até a própria cultura de massa muitas vezes tem dificuldade em ganhar visibilidade e espaço, além disso existe uma falta de incentivo generalizada para organizar a cena musical de Goiana”, declarou Elthon Taurino. Foi dessa necessidade de incentivar a música local que nasceu o MATA (Músicas Alternativas de Trabalhos Autorais) Goiana.


Criado no final de 2017, o Mata Goiana surgiu quando Elthon e Douglas sentiram falta de ouvir canções antigas da banda goianense Zefa Deão, que fez sucesso nos anos 2000, e não sabiam onde encontrar o material. “Nós sentimos dificuldade em encontrar as músicas do cenário alternativo de Goiana e pensamos que seria massa ter um portal que fornecesse isso”, declarou Elthon Taurino.


O projeto multimídia iniciou apenas nas redes sociais, com contas no Instagram e Facebook e atualmente conta também com um canal no YouTube, um site e um programa na rádio local Nova FM.



No site do Mata Goiana é possível encontrar um acervo sobre os cantores e as bandas da cidade, além de notícias sobre o cenário musical e matérias especiais sobre cultura. Os músicos da cidade podem se cadastrar para fazer parte do catálogo do portal. Além disso, o site disponibiliza um material histórico sobre a formação musical da cidade.


Totalmente independente e colaborativo, o projeto se mantém graças ao trabalho dos próprios goianenses que se dispõem em manter o movimento sem contar com nenhum apoio financeiro da prefeitura da cidade. Atualmente, o projeto tem a seguinte formação: Elthon Taurino (Comunicador/Publicitário); Emanuelly Leite e Nelly Alves (Fotografia e Audiovisual); Douglas Torres (Programador); Raphael Urbano (Design); Guilherme Souza (Jornalista e Apresentador); Evelyne Figueiredo (Produtora Cultural); Sam Silva (Cantora e Musicista) e Valfrido Santiago (Cantor e compositor).


Para se manter de forma independente e conseguir o mínimo de recursos para ajudar os artistas, o Mata Goiana conta com uma vaquinha virtual e uma loja, ambos disponíveis no site do projeto. “A falta de incentivo municipal é absoluta e os apoios estaduais vêm através de incentivos como o Funcultura e editais do Sesc, mas ainda é muito pouco para desenvolver a classe artística e dar uma independência a essas pessoas”, afirmou Elthon Taurino.


A fim de aproximar ainda mais a população da música, surgiu o “Noites Mata Goiana”. Em parceira com o Atelier Valcira Santiago, casa de shows localizada no centro da cidade, o Mata Goiana promove, toda sexta-feira, de 15 em 15 dias, uma apresentação de um artista goianense. Os shows, que têm um repertório todo autoral, são gratuitos e abertos ao público. Elthon revelou ainda que antes da pandemia estava sendo organizado um festival de música só com artistas da cidade, mas os planos foram adiados.


O projeto, que nasceu como um site e uma rede social virtual, ganhou força e se tornou um movimento multicultural e os planos ainda são maiores. O criador do Mata Goiana afirmou que pretende criar um selo de produção artística para os artistas da cidade. “Nós queremos criar uma roda para que o próprio movimento de música autoral da cidade tenha uma autonomia e a partir dessa força consiga realizar parcerias até com o próprio poder público e com empresas privadas”, disse Taurino.


Quando pensamos em música e cultura no geral, Goiana é uma terra fértil. Lar de um dos maiores compositores de forró do Brasil, o autor da famosa canção “Espumas ao vento”, Accioly Neto, a cidade da Zona da Mata também revelou, mais recentemente, nomes como Lucas Torres, Juliano Holanda, Valfrido Santiago e Sam Silva. Porém, os artistas da cidade sempre enfrentaram dificuldade em receber apoio e reconhecimento dos governos municipais. Por isso, a criação de um movimento independente que tem como objetivo divulgar e fortalecer o cenário musical da cidade de Goiana é tão necessária e importante.


“A própria população não tem conhecimento do quão importante é a cultura da cidade e o quanto ela é representativa nas nossas vidas. Nós queremos que os próprios goianenses conheçam a história da música que é produzida aqui e também esperamos que as pessoas de fora possam ter acesso ao que estamos produzindo”, declarou Elton Taurino, idealizador do Mata Goiana.


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