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‘Lives’: nova onda de shows online mantém o consumo ativo e reconfigura as relações com a música

por Giovanna Carneiro e Heloise Berreiro

Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação

A chegada da pandemia do novo coronavírus no Brasil instalou uma nova ordem em diversas camadas da sociedade. Hábitos, planos, perspectivas e relações estão em constante mudança, sempre atravessados por um certo desespero provocado pela incerteza de não se saber o que pode acontecer no dia seguinte. No meio de todo esse caos, parecemos despertar para aquilo que nos fortalece como seres humanos sujeitos à reinvenção: a arte.

Diante desse cenário, são raras as coisas que nos servem de acalanto, por isso seguimos firmes em busca de locais de escape para uma realidade menos assustadora. Dentre seus inúmeros formatos de resistência, a música vem sendo um porto seguro para muitos. Uma esfera musical mais íntima, distante das multidões, que nos permite contatar nossa sensibilidade de uma maneira distinta.

As famosas lives, transmissões ao vivo na internet, têm ganhado uma força enorme desde que o confinamento se tornou a única forma possível de sobrevivência. Enquanto não podemos estar amontoados em um show lotado, curtindo uma roda punk e nem mesmo nos sentarmos na mesa de um barzinho, o sofá da sala se tornou o lugar mais seguro e ideal para apreciarmos as performances dos artistas.

Assim como nos shows, cada artista se apresenta da maneira que prefere - diante das limitações impostas pelo isolamento - em suas lives. Toda estrutura depende do gênero musical que o artista representa, do poder aquisitivo que cada um possui, da estrutura que pode ser montada por ele e daquilo que e é pretendido apresentar de si ao público.


Em pernambuco, são notáveis as diferenças entre as lives dos artistas de brega. A live da ‘Musa’, Priscila Senna, transmitida no dia 11 de abril no canal do YouTube da artista, foi gravada no Rooftop do Cais do Sertão, patrocinada pela marca da cerveja pernambucana Nossa, ostentando, assim, uma estrutura “sofisticada”.

Já a live de MC Troia, transmitida no dia 10 de abril no canal do Thiago Gravações, foi gravada em um estúdio onde colocaram um papel de fundo para criar uma imagem holográfica do ambiente. O cantor de bregafunk recebeu convidados e cantou ao lado de suas dançarinas e do DJ, já a Musa do brega romântico fez uma apresentação solo acompanhada pelas melodias musicais que foram gravadas e reproduzidas na live.

Pensando em gêneros musicais, é evidente que algumas dificuldades surgem na hora de experimentar essa nova forma de se mostrar ao mundo. Nos deparamos com as cirandas e maracatus, ritmos pernambucanos que trabalham com instrumentos diversos e costumam fazer uso do esforço coletivo de vários músicos para produzir uma canção. Pensando nisso, destacamos a live do cantor Siba, realizada no Dia do Trabalhador em sua própria casa.

Apesar do clima íntimo, a transmissão ao vivo não dispensou uma pequena equipe de gravação. No enquadramento do vídeo, o cantor aparece sempre sozinho com sua guitarra, por muitas vezes lamentando a ausência dos músicos que, em condições normais, costumam lhe acompanhar, por isso muitas delas eram antecedidas por homenagens e dedicatórias. Siba também relatou sentir muita falta dos shows presenciais, constantemente declarando que não sabia se adaptar ao vídeo e descrevendo a falta que sentia das apresentações presenciais.

As performances de Troinha, Priscila Sena e Siba se esforçam para se aproximar ao máximo das apresentações ao vivo, ao mesmo tempo que inauguram um ambiente virtual de consumo completamente novo. As lives sempre existiram, claro, mas até então nunca tinham sido a única alternativa para os consumidores.

Adotando essas novas formas de enunciação, os artistas buscam manter contato com o público, tanto para promover uma aproximação afetiva em tempos de distanciamento social quanto para promover novas formas de consumo. No universo capitalista, o que está a venda é uma experiência: a experiência de um festival, de ouvir seu artista favorito ao vivo, de ouvir um álbum recém lançado nas plataformas de streaming, ter uma visão privilegiada da estrutura do palco, e por aí vai… Poderíamos passar o dia listando as vivências musicais que compõem a vitrine do capitalismo. Por esse motivo, mesmo que de forma não intencional, os músicos, através das lives, alimentam esse cenário.

No momento de distanciamento social que estamos vivenciando, a internet tem ajudado a garantir que a rede de consumo não se enfraqueça, e sim se adapte às demandas atuais. Por essa lógica, é seguro dizer que as novíssimas transmissões ao vivo anunciam uma mudança completa na lógica dos consumidores e produtores. De patrocínios gigantes até lives pagas, é possível ver um novo cenário sendo construído diante de nós.

Mas calma! Não precisamos ficar impassíveis e assistir o universo mudar bem na nossa frente, afinal, somos os agentes de toda essa mudança. Pela nossa necessidade de algo novo, as estruturas estão sendo reconfiguradas - a agenda do entretenimento foi modificada para atender às nossas novas necessidades relacionadas à cultura. Mais do que nunca, este é o momento de analisarmos os produtos musicais consumidos e nos agarrarmos a nossa própria subjetividade.


Novas formas de interação com a música


Participar de um show é uma experiência carregada de afetos e sociabilidade, e isso nos enche de prazer. Comprar um ingresso, convidar as pessoas, arrumar-se, pegar um transporte até o local do show e poder dividir o momento com uma rede de pessoas que compartilham gostos semelhantes aos nossos é, sem dúvidas, uma sensação única que nenhuma live, ou qualquer outra forma de consumo, poderá superar ou substituir.


Entretanto, é inegável que nos adaptamos da melhor maneira possível para lidar com o isolamento social e continuar curtindo uma boa música. Agora procuramos o canal do Youtube onde a live será transmitida, nos arrumamos, pegamos a bebida na geladeira, iniciamos uma chamada de vídeo com os amigos – ou não, e assistimos os artistas em um lugar de segurança representado pela nossa casa.


Antonny Guedes, 21, adora curtir shows e festas open bar e afirma que não trocaria essa experiência por nenhuma live, mas de qualquer forma se rendeu a nova tendência. “Eu tenho acompanhado sim as lives, mas nunca é a mesma coisa e sinto que com o passar do tempo o meu interesse tem sido menor, os artistas prolongam muito as transmissões e não conseguem manter a mesma energia até o final”, contou. Antonny fala com tom saudoso do calor humano das festas e dos corpos reunidos. “Eu sinto muita falta de um show de brega, afinal, como um bom pernambucano eu amo um breguinha. Quem não gosta de uma aglomeração, né?”.

A música sempre teve um papel fundamental em promover a união das pessoas. Seja curtindo um show junto, compartilhando um álbum com um amigo ou navegando pelas plataformas de streaming, a música nos conecta com nós mesmos e com outras pessoas, por isso ela tem um papel tão essencial nos momentos de resistência e reinvenção.


Mesmo quem não consegue se conectar de forma tão intensa com as transmissões ao vivo ainda encontra outros caminhos para estreitar os laços com a música durante a pandemia. Muitos acreditam que o isolamento é um momento para dedicar mais tempo aos métodos mais tradicionais de manifestações musicais, provando que não é necessário uma live para criar novas experiências e se reinventar.


“Deitar, fechar os olhos, pegar certos detalhes de uma música e me conectar a uma experiência nova, isso não acontecia muito nesses últimos tempos”. Para Diêgo Laurentino, de 26 anos, os novos momentos remetem à uma época antiga antes da popularização da internet, quando separar um momento e dedicar todas as energias às melodias era um hábito comum. O retorno dessa memória só foi possível pela vivência da atual situação, é o tempo que parece desacelerar um pouco, nos permitindo reescrever antigas impressões.


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