• Vinícius Lucena

As inquietações que fortalecem a sensibilidade musical de Larissa Lisboa


Larissa Lisboa nas Gruvilinas Sessions. Foto: André Santa Rosa

As múltiplas sensibilidade expressas nas canções que têm como tema central o amor costumam representar fragmentos existenciais dos artistas, cantores, intérpretes e compositores. Ao mesmo tempo, algumas músicas conseguem ser projetadas para além da pessoa responsável pela criação artística e alcançam o receptor, que por sua vez é levado a se sentir representado nas letras. As canções de Larissa Lisboa, cantora que tem despontado na cena independente de Pernambuco, funcionam assim.


Larissa diz que “inquietações” a levaram a compor pela primeira vez. Antes pensava em ser só intérprete, ela conta citando nomes como Elis Regina e Cássia Eller. Desde que bateu essa inquietação, uma série de criações foram concebidas a partir de vivências pessoais que a influenciam explícita e implicitamente. É um processo que envolve muita exposição.


Acontece primeiro na minha vida e depois consigo colocar na música. Os três singles já lançados por ela são retratos de experiências pessoais, percalços e contradições. No entanto, Larissa reconhece que tais vivências são moldadas por questões que são alheias a si mesma; são nesses pontos que acontecem as intersecções e, consequentemente, a identificação de outras pessoas com a sua obra.


não sou eu, é amor que eu tenho e nada mais e eu choro, não nego compõem uma trinca de composições literais, como ela mesma avalia. Apesar da compreensão fácil, há uma potência que reflete, nas entrelinhas, um movimento que se relaciona a questões como a visão estereotipada da mulher negra em relacionamentos; sem expectativa de cumplicidade, compromisso. Para Larissa, tais questões influenciaram em relacionamentos passados, na forma como ela vê o mundo atualmente e, de forma indireta, no teor das suas criações.

minhas músicas refletem muito o que eu penso, o que sou e como vejo as pessoas que estão ao meu redor

Foto: Renatto Mendonça/Alcalinas Brisadas

O longo processo que resultou nos lançamentos das primeiras músicas teve início ainda na infância. Dos tempos de igreja evangélica, uma influência que a fez despertar para a música, aprender a tocar violão e, depois de muito tempo, superar a vergonha de se apresentar. Larissa conta que passou a testar a receptividade de alguns vídeos lançados nas redes sociais, experimentar a hostilidade e os inconvenientes de bares e restaurantes até, enfim, passar a ser convidada a tocar em eventos.


Entre as diversas referências que a ajudam, indiretamente, a construir seu repertório, a maioria está na música pop. Apesar de frequentar esse terreno com assiduidade, ela dá graças a deus por não soar igual às artistas que mais escuta. Essas referências vêm junto, fazem parte do meu ser e me influenciam sobretudo nas temáticas.


Citando a espanhola Rosalía, Larissa conta que a inspiração vem em outros campos, para além de uma mera reprodução das sonoridades. A diva do pop latino, que tem apenas 27 anos, é responsável por boa parte da produção das suas obras, desde a composição à produção.


Assim como Rosalía, Larissa busca estar presente em todos os processos que envolvem seu próprio trabalho. Mesmo com a lógica do it yourself, a artista relata dificuldades para se inserir no meio musical. Há um desgaste de ser quem eu sou no mercado de música, que como todos os outros é muito machista, heteronormativo.


não são situações restritas ao mundo da música. ainda temos muitas mulheres que morrem só por serem mulheres; pessoas pretas morrendo só por serem pretas

Para mudar o panorama, ela sugere que as pessoas envolvidas com produção musical abram mais a cabeça. Parece que é muito mais árduo conhecer, ter acesso, ao trabalho da mulher, mas é uma questão de oportunidade, o conteúdo existe, mas as pessoas não investem.

Confira a apresentação de Larissa Lisboa nas Gruvilinas Sessions:



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