• Revista Gruvi

Junho atípico na Capital do Forró

Em Caruaru, no agreste Pernambucano, o forró deu lugar à solidariedade para o São João 2020

Foto: Divulgação


Quem conhece o São João apenas da perspectiva da plateia não imagina o que acontece nos bastidores o resto do ano. As famosas quadrilhas, por exemplo, costumam ter apenas um mês de descanso após o espetáculo junino de trinta dias, logo retornando para preparar o ciclo do ano seguinte. Bacamarteiros, quadrilheiros, músicos, artesãos e vendedores de comidas típicas são algumas das categorias que estão sendo afetadas diretamente com as mudanças necessárias no calendário junino para o combate a Covid-19.


Em Caruaru, no agreste Pernambucano, o forró deu lugar à solidariedade para o São João 2020. A Prefeitura da cidade criou a campanha “São João Caruaru Solidário”, com o objetivo de arrecadar fundos para doação de cestas básicas e kits de higiene que devem garantir a sobrevivência do setor produtivo junino. A iniciativa, que beneficia mais de 6 mil trabalhadores e 12 mil indiretos, é uma parceria da prefeitura com a Rede Solidariedade e o Transforma Caruaru e também recebe apoio de alguns órgãos locais, como a OAB Caruaru e CDL Caruaru. Além disso, há um canal aberto para doações da população, basta entrar no site www.saojoaocaruarusolidario.com.br e escolher uma forma de ajudar: com a cesta básica, no valor de R$ 48; com um kit de higiene, no valor de R$ 25 ou com qualquer valor através do QR Code ou dados bancários disponibilizados na plataforma.


Nesse momento, as políticas públicas e o engajamento da população são essenciais não só para movimentar a economia, mas para que o carácter social de muitas organizações continue vivo. A maioria dos grupos que trabalham no São João ultrapassam a ideia de uma simples “mão de obra produtiva” e atingem um caráter social e pedagógico, de forma que muitos espaços funcionam realmente como redes de apoio para muitas crianças, adolescentes e até mesmo famílias completas.


A grande roda


Na quadrilha, esse é o momento em que todos os componentes dão as mão e formam uma grande roda, ato simbólico da coreografia que pode ser pensando como uma alegoria para o sentimento de aliança que existe nesses ambientes.


Um desses grupos é a Molecodrilha, uma das mais famosas quadrilhas do Agreste e que completa 15 anos de existência no próximo ano. Com sessenta membros de idades variadas (dos 10 aos 50 anos); a quadrilha reúne pessoas das mais diversas camadas sociais, entre elas, pessoas em situação de vulnerabilidade social, que perderam o emprego devido a pandemia. Alguns componentes da quadrilha, além de lidar com a crise causada pela Covid-19, enfrentaram graves perdas materiais causadas pelo período de chuvas intensas entre os meses de abril, maio e junho em Pernambuco.


Para Lucinéia Ferreira, à frente da Molecodrilha, o grupo é um lugar que gera oportunidade para os sonhos florescem. “Tem a vida social de cada um deles, tudo que a gente passa o ano inteiro... Eu costumo dizer que minha casa é uma fábrica de sonhos, onde a gente constrói e cria tudo desde o início”.


A determinação de que não haveria São João presencial na ‘Capital do Forró’ este ano interrompeu os planos da quadrilha, que desde agosto do ano passado se preparavam para ostentar o tema ‘Magnífico País Caruaru’. Néia, como é conhecida carinhosamente por todos, enxerga uma grande perda cultural em não poder colocar a quadrilha nas ruas. “Nossa cultura perde muito sem o brilho da nossas quadrilhas, ficar sem poder mostrar o trabalho que é forma de orgulho para cada um deles é muito triste”, disse a mulher, que também se mostrou preocupada com a autoestima de cada membro.


Durante esse período de desafios, Néia informa que cada quadrilheiro da Molecodrilha recebeu cestas básicas através da iniciativa da Prefeitura e ressalta que doações de qualquer tipo são bem vindas. Apesar do apoio, a ausência da renda que as apresentações presenciais trazem é sentida pelo grupo, que precisa dela para sobreviver o resto do ano e arcar com parte dos custos da quadrilha.


A pandemia do novo coronavírus acentuou uma realidade de dificuldades já vivida pela Molecodrilha e muitos outros grupos culturais. “A vida social de quem é um quadrilheiro é muito sofrida; a prefeitura paga a gente as apresentações que fazemos no São João, mas não temos uma associação de quadrilheiros, por exemplo, que trabalhem em prol de trazer dinheiro para nos auxiliar o resto do ano”, explica Néia.

Ao longo do ano, em meio aos ensaios e confecção de figurinos, o grupo costuma se organizar para vender camisas, canecas ou planejar bingos solidários. Agora, a quadrilha se adaptou e entrou na onda das lives. Uma transmissão foi feita no dia 1 de junho - data em que seria realizada a abertura do São João de Caruaru -. e outra live está sendo programada para o dia 24 de junho, com alguns membros da quadrilha se apresentando. A transmissão tem a proposta de ser solidária, arrecadando, dessa forma, doações para alguns integrantes do grupo e também para caruaruenses em situação de vulnerabilidade social. Para mais detalhes, acompanhe o Instagram @molecodrilhaoficial.


E a sanfona, como fica?


Muitos músicos locais encontram nos trinta dias de São João um espaço maior para serem vistos, ou seja, ganhar mais visibilidade através de um número maior de apresentações nos palcos, ruas e bares durante o período junino. Sem o evento presencial, o cenário se torna extremamente desfavorável para os forrozeiros e sanfoneiros, sobretudo para os mais tradicionais e que não têm acesso à tecnologia.


Para o sanfoneiro caruaruense André Julião, dentre os artistas que foram prejudicados pela a pandemia, talvez a situação do músico seja a mais delicada de todas. “Infelizmente os artistas foram os primeiros a parar, todo tipo de arte, inclusive nós, os músicos. Se você olhar para o horizonte eu acho que nós seremos os últimos a voltar porque precisa-se de aglomerações, pessoas juntas para ter festa, para ter barzinho…”, ressalta.


O artista lamenta que, justamente em um período tão difícil para todos, a música não possa estar operando sua mágica completamente. “Estou sentindo muita falta de estar no palco, isso é uma coisa mágica, a música dá uma massagem na alma dos seres e num momento difícil desses isso seria muito bom”.


Julião não recorreu ao auxílio da Prefeitura, mas diz ter muitos colegas da área que precisaram e vê uma vantagem na iniciativa, embora talvez ainda não seja suficiente. “Tá tendo um esforço aqui no município, talvez se for analisar a necessidade ainda não tá sendo o suficiente, mas tá sendo feito algo”, explica.


Como para tantos outros gêneros musicais, as lives entram em jogo como uma alternativa para redução de perdas, mas ainda há exclusão. “Diante dessa tempestade toda, eu vejo muitos músicos mudarem o seu perfil, fazendo lives remuneradas, pedindo doações pelo QR que é colocado na live… isso foi uma maneira de aliviar um pouco esses tempos glaciais”. Em contraponto, há uma parcela que não consegue se adaptar, e para Julião, estes devem sofrer mais. “Tem músicos que não tem essa intimidade com essa parte tecnológica… esses sim são na minha visão os mais atingidos”, completa.


Em tempos que costumam ser tão calorosos, chega a ser doloroso ouvir um artista usar a expressão ‘tempos glaciais’. Por enquanto, fica a expectativa de que as cores e sons vibrantes do São João retornem. “É uma falta de vibrar com as pessoas, de ver o calor delas ouvindo um forró, ouvindo um baião, um xote ou um arrasta pé…”


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