• André Santa Rosa

Juliano Holanda: por entre os fluxos de pensamentos e os silêncios da quarentena


“É sobre como o mundo contamina o artista, muitas vezes de lugares insuspeitos”, explica Juliano Holanda. No meio das inúmeras obscuridades e incertezas, "Por onde as casas andam em silêncio" é um retrato de uma arte contaminada pelo nosso contexto. Seja em uma poética que repele as mazelas com a esperança, ou com o mesmo gesto de reiterar o lado mais pesado da quarentena. O terceiro disco solo de Juliano é composto por oito faixas, que passeiam por um lirismo labiríntico, experimentalista e baseado em uma poética do fluxo de pensamentos de um artista em isolamento.


Embalado na maiorias das faixas por um contrabaixo e voz, o disco conta com direção musical assinada pelo próprio Juliano e por sua companheira, a produtora Mery Lemos. Produzido durante a pandemia, conta com seis canções feitas durante o isolamento, em um retrato curto, porém com uma exuberância tão grande de imagens que parece preencher bem esse espaço. Possivelmente o grande acerto e potencial do disco está em entender o isolamento e o contexto político brasileiro como um prisma de experiências. É o cair em si - “não há queda maior que Cair Em Si" - mas encontrar nessa queda o amor a seus amigos, alguns escapismo e as paisagens noturnas das nossas janelas.


Em entrevista a Gruvi, o músico fala sobre o processo criativo na pandemia, isolamento social e sobre a construção melódica minimalista do seu disco.




Gruvi: Como surgiu a motivação para esse disco?

Juliano: Esse disco foi resultado da aprovação na Lei Aldir Blanc. Por muito tempo a gente sentiu essa necessidade de fazer um material que falasse sobre esse momento histórico. O disco foi se esboçando aos poucos, se aglutinando e puxando outras faixas para conversar entre si. Quando abriu o edital, Mery Lemos, que é minha produtora e companheira, botou o projeto. A motivação foi o próprio momento histórico. Ele é o resultado dessas vivências.


Gruvi: São oito canções autorais em um disco em formato mais curto, com pouco mais de 20 min. Como essa estrutura e seleção de composições foi formada?

Juliano: Quando a gente aprovou o projeto, comecei a produzir uma faixa em formatos normais: guitarra, baixo e bateria. Mas no meio do processo, Mery falou “por que tu num faz uma faixa diferente? voz e baixo?”. Então acabei fazendo e achei o caminho interessante. Essa primeira faixa foi sugerindo outras e essa própria sonoridade do voz e baixo foi determinando o repertório. Os baixos fazem muitos caminhos e linhas melódicas, que criam uma malha harmônica. Então são melodias menos sinuosas que consequentemente dão uma força maior das letras. Como uma conversa, alguém querendo dizer algo.


"Essa poética do ir e vir de ideias, como um fluxo de pensamento"

Gruvi: Como você surgiu com a ideia do título?

Juliano: Essa faixa que dá título ao disco é uma das poucas músicas que não foram feitas na pandemia. Foi uma música que eu escrevi até pra responder uma pergunta, que fiz a mim mesmo e que às vezes me fazem: “De onde vem a criação?”. No refrão eu canto: “todas essas coisas me contaminam”. É sobre como o mundo contamina o artista, muitas vezes de lugares insuspeitos.


Gruvi: E é um disco que a poética é muito moldada pela pandemia e situação política. Como foi a construção de uma obra que transforma tantos sentimentos complicados em composição? Como foi o processo criativo?

Juliano: As músicas não foram compostas em sequência para o disco. Na pandemia, acabei entrando num processo de spa criativo, que era ressignificar e transformar esse processo doloroso em algo propositivo. Acabei compondo muito, cerca de 200 canções. O trabalho foi encontrar nessas canções, aquelas que dialogavam de forma natural. O processo passou muito por ouvir o material composto e encontrar eixos. Tanto que existe música com versos que se repetem, em uma ideia de labirinto.


"Não pretendo dar respostas, mas apresentar algumas perguntas"

Gruvi: Eu achei interessante, dentro dessa ideia de isolamento, que existe uma certa ideia de introspecção como gesto artístico dentro do disco. Qual ideia tu queria passar?

Juliano: A ideia central desse disco é esse “em si mesmamento forçado” e as decorrências disso. A gente tá muito consigo próprio e isso com certeza vai gerar algum tipo de análise. É uma análise forçada, tá todo mundo no cantinho da consciência, pensando o muito a partir dessa lógica. Ele não pretende dar respostas, mas apresenta algumas perguntas. É propositivo nesse sentido, de alguém perplexo e espanto com o mundo.


Gruvi: Achei muito interessante a letra "Daqui da lua", como você escreve sobre alguém que assiste de longe o estado atual das coisas no mundo. Como foi a composição dessa faixa?

Juliano: Essa canção foi encomendada por um amigo de Minas Gerais. Essa ideia da pessoa vista da lua estava no disco desse amigo meu. Ela é um escapismo realista, de um fluxo de pensamento, com uma letra muito longa e esse fluxo de escrita. É sobre alguém que consegue sair desse ambiente de análise e ver o mundo desse lugar de fora. Um tipo de música que parece um vitral de imagens, quando você se distancia entende mais um pouco.


Gruvi: Apesar de ser muito poético e muito imerso na pandemia, a mensagem da música final (Cuidado) é de esperança e de união. Por que tu decidiu terminar o disco com essa faixa e o que ela representa pra você?

Juliano: "Cuidado" foi escrito um dia antes do lockdown. Fui fazer um show no Rio e quando voltei pra Recife dois dias depois, teve lockdown. Essa é a minha primeira impressão com a pandemia: o vírus e as máscaras. E acaba sendo a maior canção de espanto no disco. É fruto de impacto inicial. Mesmo antes da pandemia, essa busca pela coletividade já era algo que eu procurava. Nessa música eu espremi tudo, uma música de afeto e que no final explicasse: a saída é através desse processo coletivo.


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