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Jonatas Onofre, o artista entre vísceras e nuvens

Por: Xainã França


“Sou fruto das contradições de classe e raça”, afirma Jonatas Onofre, cantor, compositor e pianista, mas, antes de tudo, homem preto. Igarassuano, Jonatas iniciou sua carreira completa em 2014 e já conta com 9 trabalhos. Ele reúne em seus álbuns canções e experimentações que abarcam sonoridades de seu universo, atravessados por afetos. O Cantor e instrumentista também já realizou férteis parcerias com artistas e grupos como Una, Zizo, Flor de Mulungu e Luann Ribeiro.


Jonatas Onofre transforma o MPB em um horizonte de experimentação, acrescentando as suas letras reflexões sobre questões ambientais, negritude e violência. Isso é mais demarcado em seus álbuns “Qui Tolis, Vulnere” e “The Little Big Braba”, ambos de 2017, em que faixas instrumentais e cantadas parecem nos transportar a uma dimensão onde tensão e acalanto podem coexistir. Sua discografia está parcialmente disponível no Bandcamp e em serviços de streaming.





Para Jonatas Onofre, a arte tem um papel fundamental nas causas sociais. “A música está presente em vários aspectos da nossa vida, tendo um poder de nos influenciar e refletir sobre questões sociais”, afirma. Infelizmente, foram necessárias mortes, como a de George Floyd, João Pedro e Miguel Otávio, para reascender o debate sobre raça e classe no Brasil e no mundo. A fim de fomentar o debate antirracista realizamos uma entrevista com o cantor.



Gruvi- Como a negritude atravessa tuas obras?

Jonatas Onofre - A cor e a periferia atravessam não só meus trabalhos, como também constitui a minha própria existência. Sempre vivi em uma realidade que a violência é recorrente. Dois dos quatro álbuns que lancei em 2017, o “Qui Tolis, Vulnere” e o “The Little Big Braba”, falam muito sobre questões de violência racial. Na época da produção desses trabalhos houve uma onda de repressão tão forte onde moro, que muitos amigos meus ou foram presos ou morreram. E cada vez mais tenho refletido isso nas minhas músicas. A arte tem essa possibilidade de fazer a gente sair do lugar, e é nela onde, muitas vezes, questões sociais transparecem.



Gruvi - Na sua avaliação, há algo que difere os protestos que se organizam em torno das pautas antirracistas hoje dos que aconteceram em outras ocasiões? Se sim, essas mobilizações recentes te passam um sentimento de que as coisas caminham pra uma mudança?


JO - Eu acredito que sim, a dimensão. Porque eu nunca vi algo assim, com essa união em torno da pauta. Isso por que a questão racial no Brasil é muito mascarada, por uma suposta democracia racial. Quando acontece uma movimentação dessa, ainda mais em um momento de pandemia, me deixa muito surpreso. Isso é reflexo de muita pressão, e opressão, e que em algum momento teria que explodir. Ao mesmo tempo esses atos geram uma preocupação, por causa desse cenário pandêmico, que pode prejudicar as pessoas do próprio movimento negro. Mas é uma pauta muito urgente, que fala sobre a nossa sobrevivência. Eu acredito sim que é a partir do povo preto e pobre que vem alguma mudança. Eu quero muito que esse debate não enfraqueça, por que ele fala sobre a força dessa vontade de mudança.



Gruvi - De que forma o movimento "Black Lives Matter" pode contribuir para que artistas negros ganham mais espaço no cenário local e nacional da música?

JO - Dando visibilidade, que é muito importante. E quebrando os preconceitos acerca de até onde a pessoa preta pode ir na arte, para que nós possamos ser nós mesmo. Muitas vezes as pessoas querem que o preto esteja naquele lugar fixo, e isso também acontece na música. O negro tem o direito de estar onde quiser, e sem precisar pedir permissão. Não temos que atender a uma expectativa de quem não entende da nossa história. Pianistas pretos, por exemplo, são raros, mas também podemos estar nesse lugar . Em uma das minhas primeiras apresentações, que foi inclusive em um local dito progressista, me foi negado o piano. E o motivo foi que eu não “aparentava” ter a aptidão para tocar o instrumento. Se auto-afirmar abre portas. Elas não vão se abrir espontaneamente. Me alegra muito saber que artistas como Bione, Cassio Oli, que também é de Igarassu, estão produzindo coisas inovadoras e com maestria. Mostram a riqueza e a força do nosso pensamento.



Gruvi - E qual a contribuição que os artistas brancos podem ter nesta causa?

JO - Nos deixando ocupar os lugares em que queremos estar. Há também quem ainda tente ajudar, e acabe por assumir o protagonismo. Nós sabemos andar com nossas próprias pernas. Nós sabemos o que queremos, mas muitas vezes o outro lado não escuta. A branquitude tem muito o que aprender com a gente.



Conheça mais do trabalho do cantor e compositor Jonatas Onofre, acessando o seu perfil no Bandcamp: https://jonatasonofre.bandcamp.com/album/qui-tolis-vulnere


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