• Heloise Barreiro

A educação libertária como base para a revolução de Gabi da Pele Preta

Meu corpo estremeceu quando a voz de Gabi da Pele Preta reverberou entre as quatro paredes daquele apartamento na Rua da Aurora. Cru, obstinado, natural e ainda livre de intervenções tecnológicas, o timbre potente que cantou os primeiros versos de “Sábio senhor” tem o poder de penetrar imediatamente e cativar qualquer ouvinte. A canção, cedida à cantora por Isadora Melo, reflete sobre passagem do tempo, dores e futuros. Ouvir a súplica “Oh Sábio senhor/ Me diga o que virá” na voz de Gabi realmente faz refletir e coloca as fragilidades, belezas e dificuldades da vida em perspectiva.


Arrisco que falar em música como instrumento educativo e pedagógico é sobre esse atravessamento de sensações, fenômeno que a multiartista caruaruense consegue exprimir com maestria em seu modo de fazer e partilhar arte.


Foto: Heloise Barreiro

Em fevereiro, conversando com Gabi durante as gravações das Gruvilinas Sessions - mesma ocasião em que a ouvi ao vivo pela primeira vez -, me vinham à mente pedaços de uma frase de Paulo Freire que havia encontrado como epígrafe no livro “Ensinando a transgredir”, da teórica estadunidense bell hooks. Lembrava que era algo sobre liberdade e recusa à burocratização.


Fui atrás da frase e dizia o seguinte: “Ser capaz de recomeçar sempre, de fazer, de reconstruir, de não se entregar, de recusar burocratizar-se mentalmente, de entender e de viver a vida como processo, como vir a ser…”.


Confira a apresentação da artista para as Gruvilinas Sessions:



Agregar música e educação parece ser algo que sempre correu nas veias de Gabi. Professora e filha de professores, a mulher desde cedo teve contato com diversas referências musicais e princípios libertadores da educação. “Quando eu estava na sexta série eu fiz uma música falando sobre como a educação não chegava onde devia chegar, sobre como ela ainda era excludente”, revela a artista.


A inspiração, conta, veio da música “Cidadão” do paraibano Zé Ramalho, faixa que esteve presente na sua infância e, junto com tantas outras influências, foi responsável por consolidar sua carreira como vemos agora.


“Por mais que eu ouvisse muita coisa da igreja, a gente sempre foi estimulado para essa outra escuta; uma escuta crítica e que pudesse gerar debate. Hoje, por mais que eu tenha um repertório autoral, acho que o gene que me levava a escolher aquele repertório permanece”.

Reunindo mais de quinze anos de história, Gabi da Pele Preta já pisou em diversos palcos, criando um repertório próprio e autoral com canções que lhe são cedidas por outros artistas próximos. Este ano, entretanto, a artista foi ao estúdio e fez história gravando seu primeiro single. Já com clipe, “Revolução” foi lançado no final de fevereiro e fala sobre buscar uma voz própria, enquadrando a dança como um lugar de revolução, resistência e fé.


Para as Gruvilinas Sesssions, Gabi da Pele Preta se apresenta com Lígia Fernandes. Foto: Heloise Barreiro

Além do lançamento recente, Gabi também protagoniza junto com Isaar, Isadora Melo e Surama Ramos o projeto “Sarau Delas” - um show gravado com artistas negras de Pernambuco que será veiculado virtualmente em várias cidades do Brasil. Nas palavras da cantora: “Um show preto e matriarcal que conta com a participação de mulheres incríveis”. [Leia entrevista que fizemos com Gabi da Pele Preta para a série “Da pele, o som”].


Até aqui, Gabi da Pele Preta já deixou claro à que veio, mostrando que os recortes de raça, gênero e classe são basilares para a manutenção de uma militância que alcance todas as suas atuações, da pessoal à profissional.


“A militância e o ativismo permeiam todas as esferas da minha vida, os meus relacionamentos afetivos, as minhas amizades, a escolha da equipe que trabalho hoje. E é assim que eu subo no palco; carregando essas subjetividades todas de mulher preta, do interior, da periferia”.

Na escola, como professora de educação infantil, a postura não é diferente, de forma que militância e educação se tornam indissociáveis: “Dentro do movimento social, ressignificamos tudo aquilo que foi bombardeado numa vida escolar inteira. Então, obviamente eu conto as coisas com um vocabulário diferente”. Gabi explica que trabalha com literatura Africana em sala de aula e faz pequenas mudanças no vocabulário, como tratar de “Invasão do Brasil”, no lugar de “Descobrimento”.


A coerência entre a mulher negra, caruaruense, militante, artista e professora resulta no exemplo de fortaleza e resistência que Gabi da Pele Preta representa.


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