• Giovanna Carneiro

Gabi da Pele Preta: do interior de uma mulher negra nasce a revolução

Como o próprio nome sugere, Gabi da Pele Preta carrega consigo a força de uma ancestralidade que marca a sua arte. Cantora, atriz, professora de educação infantil, militante da Marcha das Mulheres do Agreste, e tantas outras coisas que podem definir esta mulher não parecem tão importantes e potentes quanto ser uma mulher preta.


Para uma pessoa que nasce com um propósito bastante desafiador, fazer da arte um canal de manifestação pode ser um processo prazeroso e às vezes difícil também, Gabi sabe muito bem disso, mas com a força de quem é “do interior do interior” e tem Caruaru como seu primeiro lugar, a cantora resiste como “a vegetação do agreste que tem raízes profundas e sobrevivem de inverno a verão”.


Com sua voz única e marcante, desde criança, quando decidiu que seria artista, Gabi da Pele Preta sabia que tinha um compromisso de fazer da arte uma estratégia de sobrevivência e resistência. Prestes a lançar o seu primeiro disco, após 13 anos de carreira musical como artista independente, Gabi fala um pouco sobre a sua militância artística em entrevista para a Gruvi.

Gruvi – Na canção “Virá”, composição de Ezter Liu e Joana Terra e interpretada por você, há uma exaltação da revolução que está para chegar. Você acha que essa revolução tem um protagonismo? De quem e para que virá essa revolução?

Gabi da Pele Preta - Eu acho que a revolução vai vir da periferia. A gente já tem visto uma insurgência das pessoas pretas no mundo inteiro e nada me afasta dessa noção de que a revolução virá e virá pela mão das pessoas pretas que são em sua maioria periféricas. Mas eu acredito também que essa revolução só pode acontecer se as mulheres pretas estiverem no lugar de protagonismo que é delas, porque nós estamos na base da pirâmide social e se base dessa pirâmide se move, toda a estrutura se move, como disse Angela Davis.


Será positivo para todo mundo se as pessoas pretas, mais especificamente as mulheres pretas, conseguirem concluir mais um plano de revolução, porque já concluímos muitas outras ao longo da história. Quando a sociedade finalmente passar a ouvir o que nós temos dito há centenas de anos, a sociedade toda vai ser abraçada nesse contexto revolucionário.



Gruvi - A sua identidade de mulher negra está estampada no seu nome artístico e isso deixa claro o seu posicionamento político. Para você, qual a importância de ter mais mulheres negras que usem a sua arte como forma de manifestação política?

GPP – Nós pessoas pretas temos uma relação simbólica com a África, esse útero do mundo e isso reflete na nossa relação ancestral com a arte e com a música, porque a música quanto ciência surgiu na África. Para mim, enquanto mulher preta, ser artista e poder trabalhar com música é trazer essa ancestralidade e resgatar esse lugar e também me resgatar nesse processo de construção constante. E para além disso, precisamos lembrar que a autoestima e o lugar de fala das pessoas pretas foram aniquilados ao longo dos anos, e aí, de repente, a gente tem o poder de subir em cima de um palco e usar da linguagem artística de maneira estratégica para ironizar e confrontar a realidade de uma forma que nenhum discurso tradicional é capaz de fazer.


Ter mulheres pretas nos palcos fazendo suas manifestações artísticas e ocupando esses espaços é um direito que nos foi negado por muitos anos e nós merecemos essa reparação histórica, precisamos das estratégias da arte, seja para falar sobre as nossas feridas antigas, evocar revolução ou festejar o fim dessa revolução. A história e a complexidade das pessoas pretas têm um poder de síntese muito grande na arte e isso atinge as pessoas, por isso é tão importante que as mulheres pretas ocupem esses lugares para que inspirem e sejam inspiradas como eu fui por Elza Soares, Larissa Luz, Leci Brandão, Isadora Melo e tantas outras. Sempre houve a arte de resistência das mulheres pretas só não fomos historicamente ouvidas, ao contrário, fomos historicamente silenciadas. Já passou da hora de sermos maioria no contexto artístico também.


Gruvi - Como mulher negra eu conheço algumas cobranças que nos empregam, uma delas é o dever de ser sempre uma ativista política, voz ativa. Você acredita que isso influencia e pode influenciar na sua arte? As pessoas lhe cobram este posicionamento político mais forte?

GPP - Acredito que eu me cobro mais do que as pessoas, porque eu tenho consciência de que o lugar que eu ocupo é um lugar estratégico. Mas quando eu estou cansada eu me retiro, para refazer as minhas forças, me reestruturar e voltar inspirada na resistência das minhas semelhantes.


O processo de militância é um processo extremamente cansativo e hostil, mas eu não faço dele um esforço não. Por isso, quando é preciso eu saio, porque mesmo que as pessoas me cobrem, eu aprendi a ser gentil comigo mesma. É importante que a gente ocupe esse lugar de militância para que possamos falar por nós e sobre nós, mas ao mesmo tempo, precisamos entender que se doer muito precisamos nos ausentar um pouco, mas nunca se retirar por inteiro. A nossa coletividade é fundamental nesse processo porque somos diversas e podemos nos ajudar com a habilidade que cada uma possui.


Quando eu escolhi ser artista, ainda criança, eu tinha um propósito de tornar a estrutura em que eu estou inserida melhor para todas e todos através da minha arte, e esse compromisso continua o mesmo.


Gruvi - Na sua avaliação, há algo que difere os protestos que se organizam em torno das pautas antirracistas hoje dos que aconteceram em outras ocasiões? Se sim, essas mobilizações recentes te passam um sentimento de que as coisas caminham para uma mudança?

GPP – Essa não é a primeira vez que as pessoas pretas se posicionam de forma revolucionária e todas elas foram extremamente importantes para a história do Brasil. Então, a população preta nunca parou de resistir porque nunca parou de morrer, se tivéssemos parado de resistir provavelmente nem estaríamos mais aqui.


Este momento é importante, mas não é uma novidade. Ele pode ser uma novidade para nós que somos mais novos. Eu, com 34 anos, posso afirmar que nunca tinha visto um levante desse tamanho. Infelizmente, a mudança ainda acontece de forma muito lenta comparado ao risco que corremos quando propomos essa revolução e essa lentidão é fruto de um racismo estrutural que tem raízes muito profundas e que invisibiliza até as nossas vitórias, porque nós tivemos sim muitas vitórias. Por isso, eu acredito que todos os movimentos que são contra os preconceitos da nossa sociedade são importantíssimos para uma transformação.


Gruvi - De que forma o movimento "Vidas Negras Importam" pode contribuir para que artistas negros ganhem mais espaço no cenário local e nacional da música?

GPP – Esse movimento é das pessoas pretas e nós nunca deixamos de fazê-lo. Eu acho que o que podemos fazer é continuar existindo, produzindo, criando e forjando nossas próprias oportunidades e nossos próprios espaços para que a nossa arte seja difundida. A gente já está lutando para sobreviver todo dia, e se nos mantivermos vivos e vivas e a nossa ideia continuar ecoando, a mudança também continua. Como disse Jonathan Raimundo: “Não é que as pessoas têm que nos dar voz, as pessoas têm que finalmente ouvir”.


Gruvi - Como você vê o racismo se manifestar no meio artístico? E para você, como os artistas brancos podem ajudar na causa antirracista?

GPP - O meio artístico ainda não se incomoda que haja uma paridade entre as pessoas pretas e brancas e isso é um verdadeiro problema. Se a arte vem para confrontar a estrutura, mas ela continua reproduzindo essa estrutura de exclusão e silenciamento, ela não está cumprindo o seu papel revolucionário. Além disso tem o estereótipo de que se a pessoa é preta ela é sambista, funkeiro ou pagodeiro. As pessoas esquecem que a música nasceu na África e que nós somos muito mais diversos e esvaziam tudo aquilo que produzimos.


Para ajudar, as pessoas brancas podem começar a observar esses comportamentos, ouvir, e dar espaço para que as pessoas pretas possam finalmente assumir o protagonismo na construção e nas mobilizações artísticas, para que possamos sair dessa lógica do produtor branco que dá oportunidade aos artistas pretos.


Gruvi – Como pessoa negra, sinto que muitas vezes somos moldadas a ser sempre carregadas de drama e dor, muitas vezes me parece que o afeto e a alegria são um privilégio para nós. Você acredita que os artistas negros precisam refazer as suas subjetividades e encontra valores da luta antirracista na alegria de suas canções também?

GPP - Nós estamos o tempo todo lutando e tentando sobreviver, é muita hostilidade e a gente precisa construir as brechas dentro das nossas próprias organizações para se amar em algum momento. Ao se amar a gente traz alegrias e quando estamos alegres nos alimentamos de esperança e de renovação. A estratégia do opressor é que a gente fique de cabeça baixa e sem autoestima porque assim a gente não tem força para reagir, por isso, é importante pensar a revolução como um processo de alegria, porque ser feliz dentro desse contexto que a gente vive é revolucionário. É estratégia de guerra também arrumar um tempo para sorrir, conversar com amigos, dançar e tomar uma cervejinha. A felicidade das pessoas pretas não é o que a sociedade racista e o sistema opressor espera de nós.





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