• Revista Gruvi

Futebol e música: artes que se contentam em ser

Explicar o futebol torna a palavra limitadora. Definir sua relação com a música, então, desnuda o ser e o não ser desse esporte polissêmico. Mas pensar essas duas artes dentro de particularidades que em vários pontos interagem entre si, parece mais democrático. Ainda assim, qual dos palcos escolher? Das arquibancadas, a decisão é injusta. É como se o ritual dos campos e dos alambrados precisasse de vozes sintonizadas para sorrir. Ou chorar.


Os torcedores do Liverpool, time que conquistou seu primeiro mundial de clubes em 2019, em cima do Flamengo, que o digam. "Walk on through the rain / though your dreams be tossed and blown / walk on, walk on / with hope in your heart / and you'll never walk alone / you'll never walk alone". A música "You'll never walk alone" (Você nunca caminhará sozinho) foi composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical Carousel, em 1945. Mas somente 14 anos, em 1963, quando a banda britânica Gerry and the Pacemakers fez uma versão, é que a canção foi incorporada às arquibancadas do Anfield, estádio dos Reds. Desde então, a emblemática letra virou símbolo da coletividade da torcida inglesa. Há quem diga sentir na alma a emoção de escutar a torcida vermelha cantando a música, mesmo que a presença material do corpo do ouvinte não esteja no estádio.


Apesar de ter viajado inconscientemente mais de 7.600 km para evidenciar que a música é uma das intermediadoras centrais das relações entre clube e torcida nas três temporalidades dentro do estádio (pré-jogo, jogo e pós-jogo), Jackson do Pandeiro não precisou fazer o mesmo percurso em "Um a Um". Ele mesmo já dizia que em caso de empate, a culpa era do juiz. Tampouco Beth Carvalho, com "Vou Festejar", música que ficou imortalizada na voz da compositora e segue ecoando nas bancadas dos clubes brasileiros até hoje.


Para Rogério Andrade não houve caminho oposto a seguir. O músico é autor de Ninguém Segura o Sport, um dos frevo-canção mais ouvidos em Pernambuco. Para criar o ícone, o compositor foi provocado por um incômodo que atingiu toda a torcida rubro-negra de 1962 a 1974, quando o clube da Praça da Bandeira ficou 12 anos sem conquistar o Campeonato Pernambucano. A canção até serviu como freio para a gozação sadia dos torcedores rivais. "A música começou a tomar uma dimensão grande e é muito emocionante ver 20 mil pessoas cantando", diz Rogério.


Seguindo o gancho temporal, o período de trevas também foi (é) significativo para o Santa Cruz. Em 2011, quando o clube disputava a Quarta Divisão do Campeonato Brasileiro, uma das músicas mais entoadas no Arruda ganhou forma, Santa, Meu Eterno Amor. A composição de Rodrigo Baltar e Luiz Quirino é uma versão do toque de entrada do Esporte Espetacular. Do céu ao inferno, em 2013, a canção ganhou popularidade e ocupou com todas as letras o Colosso. Naquele ano, o Santa Cruz conseguiu o acesso à Segunda Divisão, contra o Betim/MG.


Em outra zona da cidade, Os Centenários dos Aflitos, torcida de Barra do Náutico, lançaram este ano O Clube do Capibaribe. A música mistura rap e trap para dedicar o amor dos torcedores ao Timbu da Rosa Silva. "É o clube do Capibaribe/ Gigante marcado na história / Torcida mais fiel não existe / 120 anos de glória". O Náutico foi o primeiro time da capital a contar com uma Torcida Organizada (Fanautico, 1984), quando os bailes funks eclodiam pelo país.


O dia 19 de julho dá ao futebol um dia só seu. Fora das emoções que o tempo pode interromper, inexplicável, e sempre majestoso quando popular. É o esporte que caminha com as próprias pernas, mas sempre atravessado pelo eco que se forma das ruas para o campo - o processo inverso também. Assim, dentro desse ciclo ininterrupto de releituras e apropriações, o som se torna parte do processo de socialização, identidade e politização dentro do esporte. Afinal, entre tantas coisas, o que é o futebol senão uma reivindicação?


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