• Heloise Barreiro e Júlia Rodrigues

Frevo só no carnaval? Os caminhos para contornar a sazonalidade do ritmo



Compreender as origens e as similaridades do frevo com outros gêneros pode ser um caminho viável para tornar o ritmo acessível a diferentes contextos e realidades para além do período carnavalesco. Essa construção não se restringe às elaborações sonoras que envolvem a música, e o mestre Capiba mostrou isso com ninguém em Pernambuco. Foi fundador e criador da orquestra Jazz Band Acadêmica; escreveu seu nome na história da cultura popular através do frevo e dos diálogos que traçou em suas composições; transitou por outros gêneros e estilos musicais, como o samba e a música erudita, e não esqueceu do que talvez, para ele, fosse a cereja do bolo: se fez corpo e alma presente nas ruas pernambucanas, festejando o carnaval de forma afetuosa com o povo que extravasava como se não houvesse amanhã.


À frente da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH) há quase 20 anos, Maestro Forró reconhece a problemática da sazonalidade como uma realidade dura para os músicos de frevo, assim como para outras expressões culturais brasileiras. “O Brasil é muito segmentado e dividido em ciclos". A expressão dá nome ao fenômeno que representa a visibilidade do frevo majoritariamente no período carnavalesco, em parte pelas rádios, programas e line-ups de apresentações que costumeiramente adotam uma programação sazonal, centralizada e conservadora do ritmo.


Por isso, desde o início do seu trabalho como artista, Forró vem pensando no que pode ser feito para transformar esse cenário. Em 2002, fundou a Escola Comunitária de Música da Bomba do Hemetério, que originou a orquestra sustentada por quatro pilares fiéis ao maestro até hoje: “A gente faz um trabalho de pesquisa, manutenção, releitura e interação. Esses são os quatro pilares que sustentam tudo que eu venho fazendo desde meados da década de 1990, antes sequer de eu fundar a orquestra”, explica Forró. Filho de pai brincante, José Amâncio do Coco, e irmão mais velho de um estudioso de piano, o maestro carrega consigo o lema de “popularizar o erudito, eruditizar o popular”. É justamente da base erudita agregada ao popular que ele extrai suas principais preocupações em relação à sazonalidade: educação, informação e comunicação.


"Para sairmos dela, a sazonalidade precisa ser trabalhada focada primeiramente em formação e educação. E isso tem a ver com o mercado também. A gente precisa ver o que podemos fazer para trabalhar o ano todo. Temos uma diversidade de estruturas rítmicas pernambucanas, nordestinas e brasileiras, a gente é muito rico, é muito fácil de se comunicar em qualquer lugar do mundo que a gente vai".


Em suas apresentações com a OPBH, o maestro prepara um repertório que pode ser tocado e apreciado em qualquer lugar do mundo: “Preparamos um show para tocar tanto no Teatro de Santa Isabel como nas ruas do Recife, ou até Paris”. Além disso, por prezar pela formação, Forró acredita que o nível acadêmico dos seus músicos deve ser alto, mas quem já assistiu a uma apresentação da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério se surpreende com a descontração do grupo, com coreografias e arranjos inusitados. “Apesar do nível acadêmico lá em cima, a gente desburocratiza e adiciona a espontaneidade, a alegria, a comunicação direta com o público”, explana Forró.



No momento, está em vigor na Escola Comunitária de Música da Bomba do Hemetério o curso de capacitação musical “Frevando em Bomba do Hemetério", com apoio do Governo de Pernambuco através da Fundarpe e Secretaria da Cultura. No curso, Maestro Forró dará aulas de trompete, além de aulas de saxofone, trombone, tuba e percussão ministrada por outros professores. O projeto, assim como tantas ações da OPBH e da escola ao longo dos anos, mostra o compromisso de estender a capacitação musical à comunidade. “O trabalho que eu faço está ligado a vários pontos que melhoram o produto final em todos os aspectos. E o produto final não é só o exímio musical, a gente também trabalha formação e cidadania”, ressalta.


“Bomba do Hemetério é uma comunidade da Zona Norte do Recife que é super pobre, porém super rica em diversidade cultural. Naquela época [2002], a gente já fez economia criativa. Eu formei a orquestra e a escola com pessoas da comunidade, e nisso a gente mostrou pra nós mesmos e pro mundo que você pode morar na Bomba, em Nova Iorque, ou em Paris e tocar”.


Quanto à comunicação, o maestro considera que é fundamental o diálogo com outros ritmos para tornar o frevo perene, até porque por essência é impossível negar as influências comuns a tantos ritmos brasileiros: “Quando você volta pras origens, você vai vendo que o continente africano é a espinha dorsal da música popular brasileira”, afirma. Em suas viagens por mais de 30 países ao redor do globo, o músico foi percebendo certas semelhanças nas sonoridades, o que criou uma inquietação geradora de muita pesquisa (primeiro pilar do projeto musical OPBM).


"Em qualquer lugar do planeta, eu via coisas similares à riqueza dos nossos ritmos daqui. Por exemplo, na Turquia, as formações dos grupos de sopro parecem muito com o Nordeste. O zabumba lá é tocado praticamente igual aqui, mas recebeu outro nome", descreve.


Nas apresentações do Maestro Forró com a OPBM, é evidente a conversa com outros ritmos do Brasil e do mundo, mas sem fugir das tradições. O maestro recorda a ocasião em que fez um arranjo da tradicional “Vassourinhas” em valsa, como se fosse o compositor austríaco Strauss tocando, e a seguir a canção se transpõe em coco de roda e retorna ao frevo. Nas apresentações da orquestra, além da sonoridade, há uma grande dedicação ao figurino e ao plano de luz, que agrega na dramaticidade das canções. Abaixo, selecionamos um vídeo em que ocorre diálogo similar, confira:



“Quando eu comecei, o frevo era uma peça de museu, e de um museu morto, que não se podia mexer, não podia se comunicar. Isso também vai construindo esse cenário sazonal, que tem a ver com falta de comunicação, com falta de interação e com engessamento. Quando você já está "consagrado", você tem que estar se reinventando, você tem que está criando para não virar peça de museu”, finaliza Forró.

Uma ilustração de como uma cena musical precisa estar em constante movimento/renovação para se retroalimentar aparece no Recife da década de 1980, período descrito pelo jornalista José Teles, no livro "Do Frevo ao Manguebeat" (2000) como uma "década praticamente morta". Na iminência, nomes como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Robertinho do Recife migraram para o Rio de Janeiro. Aliado ao que parecia uma espécie de debandada, a gravadora nacional Rozenblit - que tinha um direcionamento mais voltado ao frevo no cenário local - fechou as portas.


O "praticamente" de Teles salva, no contexto, a década oitentista. Ou melhor, assim o fez o surgimento do manguebeat de Chico Science, com a Nação Zumbi, e de Fred Zero Quatro, com o Mundo Livre S/A, - movimento que influenciaria o pop brasileiro dos anos 90. Em entrevista à Folha de São Paulo, no período de lançamento do livro, Teles ressalta: "eles eram muito antenados. Elevaram nossa auto-estima, foi o renascimento de Pernambuco".


Das entranhas do movimento como baterista da Nação Zumbi, Pupillo bebeu dessa fonte que já nasceu revolucionária. Hoje, com a Orquestra Frevo do Mundo, que mistura o ritmo que é patrimônio imaterial da humanidade com outros estilos, o também compositor de trilhas sonoras e produtor musical acredita que uma das formas de descentralizar o frevo pode ser feita através do casamento de referências.


"O frevo é uma cultura popular muito forte e um patrimônio nosso. Na minha cabeça, desde os anos 90, do trabalho com a Nação Zumbi até hoje, a partir dessa força que temos nesse ritmo, é que o frevo precisa se atualizar como toda arte; agregar outras referências para que as novas gerações tenham acesso a isso. Parte disso é construir o frevo para além do período carnavalesco. O frevo está ganhando aos poucos novas abordagens para que seja um ritmo musical que a gente sinta prazer em ouvir em outros períodos do ano", explica.


Uma das formas disso acontecer, para ele, é também através do diálogo entre o que há de tradicional e o contemporâneo. De acordo com Pupillo, essa é a ideia que norteia a Orquestra Frevo do Mundo, sendo necessário que novos espaços sejam abertos para que o ritmo passe a ocupar outros cenários no país.


"Eu queria um frevo em perspectivas diferentes, uns arranjos. Você pode tirar uma rítmica tradicional e acrescentar elementos eletrônicos. Por conta da força tradicional que já temos no frevo, poder abrir esse leque é fundamental para que as pessoas se interessem. Tem canções de frevo que não falam apenas do período carnavalesco. Capiba fez músicas lindas, canções de amor e a gente pode rearranjar e propor uma audição diferente. Andar junto, a tradição e o contemporâneo, é necessário para que qualquer estilo dentro da cultura popular seja atrativo. Esse diálogo é fundamental para que as pessoas apreciem o frevo sem colocá-lo apenas nesse lugar da tradição", diz.



Como exemplo do que vem sendo construído dentro desse movimento, Pupillo cita os trabalhos de Henrique Albino (que tem participação no disco Orquestra Frevo do Mundo Vol.1), bem como as partituras de Amaro Freitas e do maestro Spok, dois artistas que utilizam referências do frevo com o jazz. Um dos artifícios utilizados por Pupillo surgiu na percepção de que os BPMs (batidas por minuto) entre estilos pop, como o trap e o eletrônico, podem ser associados com os do frevo, de maneira que novas articulações sejam criadas. Segundo o produtor, é através dessas renovações que outras identidades começam a ser assimiladas na música.


"Meu sonho é ver o frevo sendo tocado por artistas de outros locais e contribuindo para que ele se perpetue sem perder a sua originalidade. Acredito que o frevo pode se expandir como o samba. Em qualquer lugar do país, você ouve samba, e em qualquer lugar do país acho que as pessoas podem fazer frevo também. Cada uma dando a sua contribuição, isso enriquece".


Na expectativa de tirar o sonho do imaginário, a Orquestra Frevo do Mundo tinha uma programação de turnês pelo país e até para o exterior. Mas a chegada da pandemia da Covid-19 acabou sendo um empecilho. Mas, assim que possível, Pupillo garante: "a ideia é que a gente faça essa mistura de repertório com as versões contemporâneas e as mais tradicionais também".


O grupo trabalha na produção de um EP com três músicas - ainda sem nome - para o carnaval do próximo ano. Pupillo adiantou que o novo trabalho vai agregar um pouco do tradicional "para dar a condição do público entender mais como é o frevo tradicionalmente" e também a pegada pop, cujo estilo de música possa transitar em diferentes ambientes.


"A quebra do bairrismo é fundamental para que a cultura se expanda. Não só com o frevo, mas para que a cultura popular, de uma maneira geral, possa dialogar. É preciso colocar o frevo em diálogo com tudo o que está acontecendo ao redor da gente".





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