• Júlia Rodrigues

Frente ao fogo cruzado, MC Nani celebra 10 anos de carreira com a fé por dias melhores nos Coelhos

Atualizado: 11 de Set de 2020


MC Nani comemora dez anos de carreira. Foto: Gabriel Goes/Divulgação

Somente um, correndo, desesperado por ajuda ou pela fuga. A fissura para ver o sangue derramado parecia grande em direção ao Campinho. Logo atrás, vinham "os homi", a todo vapor. Três Rocans e dois camburões, todos no caminho contrário, que declaradamente deixou de ser estratégia de captura. Entraram no beco errado. Mas só os olhos são capazes de acompanhar a freneticidade das motos dos que andam fardados. O manejo mesmo é não chegar no momento em que duas armas se cruzam, nem como testemunha, tampouco como mediador. Em poucos segundos: um, dois, três. Pá... pá... pá… Por aqui, esse som já é tão comum quanto ir comprar cachorro quente com maionese temperada em Nana para vovó. Nem o sábado de São Roque escapa. 


Dia 15 de março. Dia 11 de abril. Dia 26 de junho. Dia 13 de julho. Dia 09 de agosto. Por mais diferentes que pareçam ser, por aqui, Todo Santo Dia é igual. É difícil ser fugitivo. É difícil nos Coelhos morrer de outra morte que não seja a matada. E eu digo que é sorte quando o acaso, de surpresa, aparece sussurrando: chegou a hora de morrer como gente. Chegou a hora de morrer de outro tipo de morte. Mas, na maioria das vezes, a preferência é que a disputa seja resolvida de favelado para favelado para não correr o risco de deixar sequelas para o alto poder, em quem produz a miséria aqui em baixo. O inferno entra em chamas, dia sim, dia não. 


A partir daí, "sobreviver", por si só, ultrapassa os significados impostos pelo dicionário. "A gente está vivendo uma guerra danada", e hoje eu não me dou ao direito de começar diferente, até porque o cenário jamais permitiria isso. Ele não é introdução. É contínuo, sustentado e vivido. Mas segue sendo parte e não fim. 


Do outro lado da história, muitas vezes ignorada, tem muito mais. E a paz, que há décadas parece não se assentar por essas bandas, transita na voz, na dança e no gingado de quem diariamente estende a cabeça aos céus pedindo só mais um dia de vida. Só mais um respiro. 


Do sopro, a luz 


Longe de ser um gesto folclórico, a música talvez seja o glossário mais simbólico de transmitir paz na favela. Ao lançar voz dos contratempos que interferem na existência dessa coletividade, MC Nani se coloca à prova disso. Versátil, o artista de 27 anos comemora 10 anos de carreira neste mês, dias após lançar seu mais novo trabalho, Peça do Quebra-Cabeça. Assim como MC Xodó, MC Calixto, MC Peka Ordinário e a DJ Karla Gnom, o artista também é fruto do bairro dos Coelhos, no Centro do Recife, e acompanha de perto a dramaticidade cotidiana do local. 


"Nunca terei vergonha de dizer que sou daqui. Luto para levar não só o meu nome, como o do bairro dos Coelhos afora. Vivemos um tormento em ter medo de sair de casa e não é só pela pandemia. Queremos andar na rua, queremos poder sentar na porta de casa em paz. Sem ter um dia de tiros e mortes. A favela não é só lugar de páginas policiais e é isso que a gente quer levar", diz Nani. 


A largada na música foi engatada em 2010, quando ainda cursava o ensino médio. Depois de um experimento, o cantor se juntou a MC Bala e, juntos, os dois formaram um duo que durou quatro anos. Durante esse percurso, a dupla gravou 14 músicas. "O começo foi bem engraçado, porque eu nunca me imaginei sendo cantor. Eu sempre quis ser jogador de futebol, mas no colégio eu sempre fui da turma perturbadora", conta aos risos.


Entre erros e acertos na caminhada, Bala decidiu encerrar a parceria em 2014. Muito, também, pela obscuridade causada na ausência de incentivo aos artistas independentes. A separação, claro, refletiu sobre as perspectivas de Nani. "É complicado para a gente que não tem empresário, não tem produtor. Fica difícil arrumar show, gravar música. Ele preferiu parar. Quando a gente se separou, eu passei um tempo sem cantar, quebrei a perna jogando bola e desisti de tudo", cita.


No mesmo ano, após se recuperar da fratura, o cantor se reergueu e voltou a compor. Ainda assim, dentro de cada peculiaridade, as histórias se repetem e se completam. "Tudo na minha carreira é fruto do meu trabalho. Às vezes, eu consigo ajuda de pessoas do bairro mesmo e assim a gente vai".


Hoje, nos palcos e palanques, a banda formada por MC Nani (@mc_nani_oficial) conta com os esforços de quatro integrantes. Michael Santana é o DJ responsável por soltar as batidas. João Pedro forma o ballet e Hyuri Souza compõe a percussão. Já em caminhada solo, foram 10 músicas ao todo gravadas. Além de Peça do Quebra-Cabeça, o MC tem no repertório Sapekinha, uma das mais pedidas nos shows, e Eu me Livrei, também uma autoria do Brabo, como é conhecido artisticamente, sendo a primeira música da carreira transformada em videoclipe. "Estão me chamando até de poeta, porque foram coisas que aconteceram na minha vida", recorda, ao citar que a música foi escrita após passar por um processo de separação com a mãe de sua filha. 



Quase que numa relação paradoxal, entre uma música e outra, Peça do Quebra-Cabeça foi escrita por Nani em 2011. Com batida lenta e transição forte, a música se ambienta no Bairro do Recife e narra o desejo do eu lírico em reviver um grande amor atemporal, às vezes tão inalcançável como pretendia o Romantismo do final do século XVIII. 


"Sempre tive medo e vergonha por não ter estudo de música. Achei que não fosse ficar legal na minha voz, pensei em dar a música para alguém. Mas essa música sempre foi uma paixão minha. Eu fiz para uma menina, uma paixão antiga", explica. O clipe que dá cor, imagem e movimento ao batidão romântico contou com a produção de Luiz View Maker (@luizviewmaker), Michael Douglas e Michael Gomes. Os dois últimos ainda comandam, de forma individual, o programa De Frente com Douglas (@defrentecomdouglas) e o perfil Coelhos News (@coelhoos.news), respectivamente. 


Força emergente


Assim como para grande parte dos artistas independentes pernambucanos, a música não é fonte de renda primária para MC Nani. Além dos palcos, o cantor também trabalha como Auxiliar de Serviços Gerais, em um banco do Recife, seguindo à vista de vôos mais altos na década que está por vir, principalmente sob o cenário de constante ebulição trajada pelo brega-funk no Estado.


"Antes, a gente não tinha tanto reconhecimento. Hoje, graças a muitos artistas daqui, o brega-funk está tendo uma visibilidade muito maior. Enxergo que a gente pode dar continuidade para isso melhorar cada dia mais". Nas palavras de um povo que forçadamente aprendeu a resistir, o arremate final. "O que a gente mais deve ter é paciência. Não só para a situação que vive a comunidade, mas também para a pandemia. Isso é só mais uma fase ruim, e, com paciência, tudo vai voltar ao normal", exclamou.


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