• Vinícius Lucena

Flaviola de volta à vida

Na última vez que Flaviola lançou um disco, a distribuição da obra ficou a cargo da Rozenblit, histórica fábrica de discos que tinha sede em Recife. Mais de quarenta anos depois de Flaviola e o Bando do Sol (1974), o artista lança, nos serviços de streaming, o segundo álbum de sua discografia sob a alcunha de Flaviola. Em Ex Tudo, lançado Discobertas e produzido após uma “quase morte”, o músico desvia da sonoridade marcante do disco de 74 e se entrega a novas experimentações.

Ex Tudo, de Flaviola. Lançado pelo selo Discobertas.

Agora sem o Bando do Sol e sem os artistas que o acompanharam naquela incursão por sonoridades simultaneamente psicodélicas e regionais (participaram daquela gravação Lula Côrtes, Robertinho do Recife, Paulo Raphael e Zé da Flauta), Flávio contou com a mão de D Mingus, responsável pela produção de Ex Tudo. O disco que marca o retorno de Flaviola - ao longo desses quarenta e poucos anos o artista assinou outros trabalhos (entre composições para outros artistas e trilhas sonoras para peças de teatro) como Flávio Lira - não foi feito pra ser uma continuação da obra que marcou a psicodelia pernambucana dos anos 70, mas traz uma espécie de atualização do músico para a contemporaneidade. Já faz tanto tempo / Que eu reclamo pelas coisas que eu amo / Tanto que eu podia até

ter esquecido / Ou nascido outra vez. A letra de O tempo, do disco de 74, parece premonitória. Em 2019, Flaviola, de fato, nasceu de novo. O cantor passou 15 dias em coma depois de ter complicações no coração. “Medo de morrer eu nunca tive. Mas tive medo de não conseguir concluir o disco”, conta. O músico diz que a gênese do disco, que começou a ser produzido em 2017, não tinha nada a ver com a produção de um “Flaviola e o Bando do Sol 2”. A ideia, de acordo com o músico, começou a ganhar corpo a partir de um encontro com D Mingus no Abril Pro Rock de 2015. A relação, mediada por Juvenil Silva, descambou na parceria. “Fiquei encantado com a sonoridade de D Mingus e propus que ele produzisse meu disco. No começo ele ficou meio apavorado, pensando que eu queria repetir a dose do Flaviola e o Bando do Sol, mas o caminho foi diferente”, diz Flávio. Entre o início das gravações, em 2017 e o lançamento, em junho deste ano, problemas de saúde puseram a vida do artista em risco. “Tive uma infecção óssea braba. Meu coração estava inchado e fraquíssimo, quase morri mesmo. Mas ainda tenho que viver muito ainda”, diz o cantor sobre os mais de três meses que passou hospitalizado em Recife. Um registro do tempo no hospital virou a capa de Ex Tudo. Algumas letras do disco novo foram concebidas na década de 1970, mas não há elementos explícitos que demarquem a temporalidade das composições. A ideia, que abre o disco, evoca uma ambiência setentista que também é sentida em Crânio. Crânio e Sem Tema são composições de Lula Côrtes; O Bando do Sol e Nunca Vá Embora (composição dos anos 70 que tem o tema homoafetividade como pano de fundo), de Flaviola também foram resgatadas de outros tempos, mas que, através do diálogo com sons atuais, foram atualizadas. O uso de sintetizadores e de outros recursos eletrônicos são alguns dos elementos que evidenciam a participação definidora de D Mingus, que, familiarizado com o universo da música experimental, foi um dos responsáveis por moldar a sonoridade do disco. A quase instrumental Recife Submerso e a eletrônica Nunca Vá Embora reforçam o dualismo que se constrói entre as influências dos tempos de Rozenblit e psicodelia com novas tendências. O ressurgimento em Ex Tudo atesta a preocupação do artista em se manter atualizado; flertando com o experimental de novo, só que em outros tempos. Em setembro, segundo o próprio artista, o álbum, já disponível em todas as plataformas de streaming, será lançado em mídias físicas (CD e Vinil). No início do ano, Flaviola e o Bando do Sol ganhou uma reedição em vinil pela Polysom. Aos 68, Flaviola garante que seguirá trabalhando em novos projetos musicais e que pretende iniciá-los o mais cedo possível. “Tenho muita produção acumulada e muita produção nova, que eu não parei de fazer. Ainda tenho muita coisa pra vomitar e a ideia é produzir incessantemente”.


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