• Giovanna Carneiro

Em voo livre pelas profundezas humanas, Condor lança primeiro EP



O primeiro EP do grupo pernambucano Condor nasce no ano em que mudanças sociais causam uma aflição em todos os seres e a saudade se torna um sentimento tão comum que chega a assustar. Entre ritmos e poesias que despertam o que há de mais humano em nós, Respire é um apelo, um consolo e uma turbulência que agita os ouvidos, dói na cabeça e acalenta o coração.


O trabalho de estreia do quarteto composto por Chant, Simbá Obi, José de Sá e Luiz Aquino carrega inúmeras referências musicais: Don L, Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado, Milton Nascimento. Porém, a mais forte delas está no chão pisado e bem ritmado do sertão de Pernambuco: o Samba de Coco Raízes de Arcoverde.


“Eu costumo dizer que o Condor é um voo livre nas profundezas aéreas. As nossas referências musicais atravessam o nosso trabalho de forma inconsciente e move a forma que a gente faz a nossa música. Escutamos coisas diferentes e no momento que vamos criar tudo isso influencia”, afirma José de Sá.


Com as faixas “Samba da Saudade”, “Faça A Coisa Certa (Ou Coco do Fim Do Mundo)” e “Respire”, o Condor consolida uma nova experimentação e formação musical que transita entre diversos gêneros musicais. Samba, rap, coco, trap, ciranda e outros ritmos se unem à poesia para resultar em canções que apresentam problematizações, conforto, referências e uma arte que possibilita o acesso ao inconsciente em comunhão com o social.




“Cada integrante teve um período sabático antes mesmo de começarmos a produzir e durante a produção cada um de nós quis sair da sua zona de conforto. Chant, por exemplo, era beatmaker e produtor e passou a cantar e compor também, José de Sá costumava trazer uma poesia mais declamada, mas agora ele escreve e canta além da rima”, disse Simbá Obi sobre o processo de criação do Respire que ocorreu durante a pandemia e o isolamento social.


O EP foi produzido por Chant e co-produzido por Matheus de Bezerra. A produção foi feita inteiramente de forma caseira, desde a captação até a mixagem. “Foi um procedimento de muito aprendizado, porque apesar de produzir a quase três anos, eu nunca tinha experimentado fazer algo com tantos elementos instrumentais”, afirmou Chant.


A primeira faixa do EP, “Samba da Saudade”, que é cantada por todos os integrantes do grupo e conta com a participação do cantor Matheus de Bezerra, tem como referência principal o sambista baiano Batatinha e traz sonoridades do samba de partido alto, chorinho e bossa, que se juntam à musicalidade única das sandálias do Coco Raízes de Arcoverde. A canção, que carrega uma letra sobre a dor e a prazer da saudade, encerra com um boom bap que revela a próxima faixa.


“Qual seria essa coisa certa a se fazer?” Eis o questionamento exposto na segunda faixa, que recebe o nome do filme do diretor Spike Lee: “Faça a Coisa Certa (Ou Coco do Fim do Mundo)”. Escrita na mesma semana da morte de George Floyd, homem negro morto pela polícia nos Estados Unidos, a canção traz uma letra que aborda a reação popular aos ataques racistas e afirma a urgência do combate.


O ano de 2020 foi marcado pelos protesto “Black Lives Matter” ou “Vidas Negras Importam” e nada mais certeiro do que afirmar que “Povo inflamado é fuego”, como consta na faixa 2 do EP Respire. “Essa música é como se nós estivéssemos tomando partido entre Malcom X e Martin Luther King de como agir em situações racistas”, afirma Simbá Obi, compositor da música.




Depois de uma escuta intensa e poderosa, o grupo nos conduz a um momento de reconstrução e conforto. A terceira e última faixa, que recebe o mesmo nome do EP, é a síntese daquilo que parece ser a principal mensagem que o Condor quer transmitir: resistência. Com uma sonorização totalmente experimental carregada de diversos ritmos e uma letra vigorosa, Respire nos convida a permanecer vivos apesar de tudo.


“A gente precisava terminar o EP dizendo ‘apesar de tudo, respire!’, uma frase que exala um ar de esperança, de acalento; em contraste com o caos diário que vivemos, principalmente neste contexto atual de pandemia, atos racistas sendo expostos e desordem de maneira geral”, declarou Chant.


A nossa natureza é resistir e diante de tantos momentos difíceis, de alvoroço e perturbação social nos esquecemos de fazer aquilo que é natural do nosso corpo: respirar. O EP que representa o primeiro voo do Condor é um lembrete daquilo que é essencial a humanidade, mas muitas vezes é esquecido por nós, afinal, “sem respirar, quem sobrevive?”.


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© revista gruvi. pernambuco, 2020
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