• Heloise Barreiro

Dos bailes aos festivais: o poder dos símbolos de latinidade na música pernambucana

Ditaduras, futebol, música, telenovelas. São várias as nuances que localizam o Brasil na América Latina; diversas camadas de semelhanças que se que cruzam e se distanciam para formar uma unidade heterogênea permeada por multiplicidades e controvérsias. Mesmo com tantas cartas repetidas e um consenso geográfico, quando falamos sobre identidade latino-americana em um contexto nacional, uma grande rachadura que nos isola dos demais países do bloco se materializa nas fronteiras. Contudo, parece ser precisamente nesses desencontros que nos encontramos enquanto latino-americanos.


Em meio a esses desencontros, a música é um dos principais espaços de embate. As influências de outros países latinos estão quase sempre presentes na música brasileira, seja no MPB com Caetano e o Clube da Esquina ou no brega do pará, com a Banda Calypso. O que está em questão é que, em muitos casos, essas influências não são tão anunciadas; essa conexão não é abertamente reconhecida e trabalhada. Em momentos chaves na história da América Latina, a discussão sobre a importância de uma unidade aparece como estratégia de resistência, de modo que o debate ganha ainda mais força com a ascensão de Jair Bolsonaro e outros governos conservadores de extrema direita que se alinham a noções hegemônicas. Em Pernambuco, um movimento musical que se iniciou no pós manguebeat, em meados dos anos 2000, perdura até os dias atuais carregando uma reivindicação cada dia mais inflamada: o reconhecimento das diversas latinidades presentes na região.


Foto: Divulgação.


Tendo como principal símbolo a tradicional máscara de luta livre mexicana, o trio recifense The Raulis é um desses grupos que fez questão de mostrar desde o início quais influências atravessam seu trabalho. No som, na identidade visual e na performance ao vivo, o grupo formado pelos músicos Arthur Dossa, Gabriel Izidoro e Rafael Cunha (Arquétipo Rafa) evoca diversos signos de latinidades, como as camisetas estampadas coloridas, a dança sensual e descontraída, a atmosfera litorânea, e claro, a máscara mexicana que é sempre usada por Arthur nos shows e clipes. Quanto à música, os Raulis usam baterias eletrônicas, sintetizadores e guitarras para criar um mix de estilos: cumbia, surf music, guitarrada do Pará, bachatas e música eletrônica, para nomear apenas alguns.


Para dar nome a essa mistura de ritmos, o grupo criou o Surfcumbia. “A gente usa o termo Surf Cumbia justamente para tentar sintetizar toda essa mistura, que é a nossa vivência no Recife, que é a cultura do brega com a cultura popular e com a noite cubana. [...] É uma mistura latino américa que todos nós somos, mas que o brasileiro às vezes renega, né?”, explica Arthur Dossa.



Para o mascarado, a atmosfera latina transmitida pela banda é um movimento natural de quem mora no Recife. “A cultura de Recife, pelo menos pra mim, que morava em Candeias na adolescência e estudava no centro da cidade, pegava todo dia uma kombi ou uma van indo e voltando pro colégio, ficava pelo menos uma hora no trânsito ouvindo brega na ida e na volta… Não tinha como não ser influenciado, não tinha como não colocar isso como uma experiência sonora massiva… Não tinha como isso não se espelhar no nosso estilo de tocar ou na nossa estética musical”, afirmou. “Recife, eu não sei se consciente ou inconscientemente, se aproxima muito da latino américa”, completou o músico.


Signos de latinidades


“Aqui no Recife eu acho que a gente tem essa presença mais anunciada, mais auto-consciente de se reconhecer enquanto latino-americano porque há uma influência da cumbia, que chega aqui durante os anos 1980 e ocupa essas festas de clubes. E essa influência da cumbia, por sua vez, influencia o brega, que surge em torno disso, e depois esse brega daqui vai ser muito influenciado por uma música do Pará, que por si só é uma música que tem influência caribenha muito forte”, explica o jornalista e pesquisador Antonio Lira.


Em outubro de 1980, foi inaugurado o Clube Bela Vista, na Zona Norte do Recife, um dos principais elementos responsáveis por fazer a cidade aparentar ter uma laço mais estreito com a noção de América Latina. A partir daí, Recife e Olinda - no Mercado Eufrásio Barbosa e no Clube Atlântico -, passaram a integrar a cultura das famosas noites cubanas. Nesses bailes, os “cubaneiros” usavam chapéu, calça de tecido, camiseta estampada e lustrosos sapatos de dança; enquanto as “cubaneiras” apostavam nos vestidos coloridos e tamancos. Qualquer preparação valia para se entregar às múltiplas danças cubanos: salsa, guaracha, merengue… Cabia ao DJ decidir o melhor momento para cada ritmo, nomes de artistas como Célia Cruz e Bienvenido Granda apareciam na playlist.


Em uma convergência de culturas, a essência das tradicionais noites cubanas foi importante para engatar o surgimento do brega de Recife, que fez uma reinterpretação desses sons de diversos países latino-americanos acrescentando características próprias. Comparando apresentações da Banda Labaredas com clássicos cubanos, é possível encontrar as semelhanças no movimento corporal, no traje que as dançarinas vestiam nos palcos e no som dos metais, que aqui ganharam uma sonoridade por vezes mais eletrônica.




Foi justamente desses encontros entre o brega e ritmos latinos que surgiram bandas como Academia da Berlinda e Banda Eddie; e um pouco mais tarde, Madimboo e The Raulis - grupos que, inclusive, propagam a cultura da dança sensual, das festas dançantes, do flerte.


Exageros, contrastes e passionalidade


Uma outra banda recifense que vem seguindo essa tendência é a Madimboo. A banda, formada pelos músicos Artur Dantas, Thiago Duarte e Felipe Rodrigues, nasceu em 2015 a partir de uma experiência em comum: todos tocavam com o cantor pernambucano Johnny Hooker, de forma que a atmosfera de apresentações e viagens foi estreitando cada vez mais a relação entre eles, até que as referências de cada um entraram em sintonia e deram vida a um novo projeto musical. O grupo têm acionamentos muito próprios de América Latina, sempre associados a uma vivência do Recife muito forte. Nas canções, destaca-se o modo de tocar do guitarrista Felipe Rodrigues, que apresenta uma pegada passional e dramática intrínseca à música latina.


Érica Colaço/Divulgação


Na Madimboo, o excesso, a paixão e o drama estão quase sempre presentes; um bom exemplo é o clipe recém-lançado de Os Últimos Dia de Pompéia, que faz parte do álbum Flertar é Humano. A proposta audiovisual foi trazer todos os excessos presentes na musicalidade da canção para o clipe através da narrativa de uma vampira que vive dramas solitários no centro do Recife. Gravado em agosto e setembro de 2019 na Rua da Aurora, a estética noir e o jogo de cores vibrantes é algo no vídeo que reforça os contrastes e excessos.



“A música é um brega que tem uma pegada muito exagerada, muito passional, um exagero estético também e é aí onde conversa tudo [a música com o clipe]. Os sentimentos são quase violentos, a música já foi pensada para ser um exagero e casou muito bem com esse universo de terror”, conta o integrante Artur Dantas. Apesar da forte influência dos filmes de terror trash italianos, as nuances de latinidades aparecem na personalidade fatal da vampira, por exemplo, e no próprio cenário do Recife combinada às notas de drama da guitarra. Para Artur, toda a associação que a banda faz de Recife com o que vem de fora “implica numa latinidade, tanto na música inglesa do North & Soul quanto na música africana da polirritmia como na música caribenha da Salsa, da rumba…”


Ainda de acordo com Antonio Lira, mestrando no PPGCOM/UFPE, se apropriar e ostentar esses signos de latinidades podem atentar o olhar do brasileiro para o conceito de América Latina e talvez nos situar nesse circuito. “Eu acho que há uma implicação política de trazer à tona semelhanças que estão aí, quando você as afirma você treina o olhar do recifense, do brasileiro, para prestar atenção nessas semelhanças que já estão postas. [...] Talvez as implicações disso para a cultura e a cena musical de pernambuco acabam sendo no sentido de colocar Recife dentro desse circuito latino-americano”.


Uma afronta à hegemonia


Embora essencialmente distintas, o modo de se colocar dos dois grupos contribui para estreitar a metáfora inicial da rachadura, isto é, contribui para promover uma integração política, cultura e social entre Brasil e outros países da latino-américa. Entretanto, é essencial entender que o poder desses acionamentos reside em sua complexidade. “O que enriquece essa discussão de América Latina é justamente entender esse bloco enquanto uma série de multiplicidades que se encontram justamente nas diferenças e no caos”, sintetiza Antonio. Por isso, entende-se que infinitas faces são postas lado a lado, sendo duas delas a condição de colonizado subalternizado e a condição de resistência à essa mesma subalternização.


Através da descontração presente nas sonoridades, letras, movimentos e clipes, as duas bandas parecem retomar o relajo, termo traduzido pela estudiosa de performance Diana Taylor em sua obra O Arquivo e o Repertório como “um modo especificamente mexicano de ridicularizar pretensões hegemônicas e disruptivas. O relajo sinaliza uma atitude de desafio ou desrespeito, já que contesta o espetáculo dominante - ou o espetáculo da dominação - propostos por aqueles autorizados a falar”. Em português, a palavra pode ser traduzida como relaxamento ou descontração, além de ser a flexão em primeira pessoa do verbo relaxar.


Na mesma lógica contra-hegemônica de Taylor, Antonio entende que “em torno dessa ideia de América Latina acaba se agregando a ela uma série de discursos de resistência, uma série de discursos anti-imperialistas, uma série de discursos de valorização de uma cultura, sendo essa cultura uma cultura com forte influência africana e ameríndia”. Por isso, ao vestir a descolada máscara de luta mexicana ou ao louvar a naturalidade do flerte em seus discos, The Raulis e Madimboo parecem incorporar com sucesso o relajo proposto por Taylor e promover novas formas de resistência enquanto valorizam as infinitas camadas culturais das “Américas Latinas”.


92 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo