• Giovanna Carneiro

Do Coração Nu de Zé Manoel, nasce uma nova história para o povo preto

Escrevo como quem deseja ser ouvido pelo mundo inteiro, no meu caso, diria que por todos os pretos e pretas do mundo. Do seu coração nu, Zé Manoel tocou o meu e com certeza, o de muitas pessoas que tiveram contato com sua obra. No ano em que foi preciso gritar, mais uma vez, que “VIDAS NEGRAS IMPORTAM”, e que estamos cansados de morrer, o álbum do pianista pernambucano ecoou dor, alegria, resistência e acalanto em forma de música.


“Fecho os olhos e me lembro de uma história que me dá vontade de chorar”. É com esse anúncio e com a memória de uma história trágica que o disco se inicia. A canção “História Antiga”, que foi lançada como single, em junho, nos relembra os momentos de dores que fazem parte da vida das pessoas negras há muito tempo, uma história que de tanto se repetir, se torna atual. Porém, a canção não se esgota no sofrimento e termina com uma saudação à Xangô e aos ancestrais que sonharam com um futuro feliz e justo para os seus filhos pretos.



A música de abertura parece conter uma narrativa que é abordada de forma mais intensa e minuciosa durante todo o álbum: o reconhecer da angústia das pessoas pretas e a força ancestral de seguir em frente e lutar pelas suas conquistas, guiados por suas crenças e seus afetos.


Após saudar e pedir proteção a Oxum na canção “No Rio das Lembranças”, Zé Manoel deságua na construção de uma nova história, uma história das pessoas pretas do Brasil e do mundo, que durante muitos anos não conseguiram falar por si mesmas. Nessa construção estão presentes as falas de Beatriz Nascimento, mulher negra, professora influente nos estudos de raça no Brasil. A passagem da poeta, roteirista e ativista ganhou uma nova intensidade junto às melodias do piano de Zé Manoel. "A história do Brasil foi escrita por mãos brancas, tanto o negro quanto o índio, que eram os povos que viveram aqui juntamente com os brancos não teve sua história escrita ainda”, canta Beatriz.



O músico baiano Letieres Leite também está presente na obra, em um interlúdio que atesta a potência da música negra no Brasil e declara que “toda música brasileira é afro-brasileira”. Com essas intervenções de intelectuais e referências históricas para o povo preto, Zé Manoel intensifica a urgência de união; aquilombamento entre os nossos e nos chama para a construção de uma história cantada, narrada e escrita por mãos negras, como confessa na canção Notre Histoire: “precisamos saber nossa história”.


Já nas canções “Não Negue Ternura”, parceria com a cantora baiana Luedji Luna e “Pra Iluminar o Rolê”, que conta com um prelúdio declamado pela poeta pernambucana Bell Puã, somos lançados a momentos de afeto e alegria, dois sentimentos e objetivos essenciais na construção de uma narrativa mais humana e longe das amarras coloniais. Na primeira canção, a voz de Luedji harmoniza perfeitamente com o piano e com a voz de Zé Manoel e resulta em uma composição que é capaz de incentivar o riso, o choro e a afeição, uma ternura impossível de ser negada.



“Você tem que aprender a levantar-se da mesa quando o amor não estiver mais sendo servido”, essas foram palavras proferidas pela cantora e pianista norte-americana Nina Simone em You've Got to Learn. Ao ouvir a canção “Canto Pra Subir”, nona faixa do álbum No Meu Coração Nu, imediatamente lembrei dessas palavras, a composição fala sobre uma despedida amorosa e dolorida. Mais emocionante que as palavras da canção é o arranjo musical com sopranos e um piano que é doce e intenso ao mesmo tempo. Sem dúvidas, uma das canções mais bonitas que já ouvi na vida!



O disco encerra do mesmo modo que começou: com uma saudação aos guias espirituais e ancestrais da religião e cultura negra. Em “Adupé Obaluaê”, Zé Manoel agradece a luz e o amor do seu orixá. A canção foi lançada antes do álbum, no dia 20 de outubro, e conta com um clipe belo e impactante, dirigido por Gil Alves e Wendel Assis e coreografado por Jorge Silva.


Já não é mais segredo para muitas pessoas, que a riqueza cultural do Brasil é fruto do povo preto e indígena. Porém, durante muitos e longos anos, a história foi racista e injusta com o legado do nosso povo. Por isso, obras culturais como álbuns, filmes, livros, e tantas outras estão sendo reescritas pelas mãos daqueles que de fato conhecem o valor e a importância da cultura na construção de uma sociedade antirracista e anticolonial.



Do Meu Coração Nu, é uma obra de arte e um patrimônio para o povo negro deste país. Ao ouvir o álbum de Zé Manoel, me transporto para um lugar onde escuto, aprendo e entendo as narrativas dos meus irmãos e irmãs pretas e isso diz respeito a algo que é maior que eu, que você e que as estruturas racistas do nosso país. É um sentimento de pertencimento que está além do entendimento humano e intelectual, é ancestral, não cabe nesse texto, só cabe no afeto, na música e na espiritualidade.


Ouça o álbum "Do Meu Coração Nu" completo:



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