• André Santa Rosa

Do baile à academia, Embrazado firma encontro entre culturas periféricas

Atualizado: 20 de Set de 2020


Dos bailes de funk e bregafunk até as pesquisas acadêmicas, o projeto Embrazado é um exemplo de deslocamento entre campos que à primeira vista parecem distantes (mas não são!). Após a aprovação no edital da Petrobras, o projeto composto por GG Albuquerque, Igor Marques, Rodrigo Édipo e Igor Jatobá inicia outra fase, em uma espécie de plataforma sobre música periférica. Entre Brega, funk, reggae, seresta, arrochadeiras, tecnomelody e pagode, o projeto agora terá correspondentes em cinco capitais brasileiras, além de oficinas e a construção de disco com produção da plataforma.


“O Embrazado surgiu em um baile funk que eu e GG fomos. Conversamos sobre como no circuito que costumávamos frequentar existia a ausência para se curtir esse tipo de música, que pesquisamos já há um tempo”, relembra Igor. No entendimento de ambos, a música periférica ocupava um lugar à margem não só de forma socioeconômica e na mídia, mas também nas formas de escuta. Mas por que não se falar e celebrar a música pop periférica? A partir desse questionamento foi se estruturando as intenções do projeto. Na busca, também, por uma outra forma de produzir conhecimento, de certa forma menos dicotomizada entre mente e corpo, como transformar uma festa em uma forma de pesquisa. Então, o Baile Embrazado primeiro aportou no Texas Bar, localizado no coração do centro do Recife. “Eu lembro quando eu falei com Pedro [dono do Texas] e falei brincando ‘queria fazer um baile e tal…’. E acabou que ele falou ‘ué faz aqui!’ e ele foi super receptivo”, comenta GG.


Foto: Thalyta Tavares / Reprodução Facebook
Foto: Thalyta Tavares / Reprodução Facebook

Por um tempo, as festas foram uma forma de compartilhar o interesse por esses sons, que iam do tecnomelody, passando pelo inicio do funk 150bpm e funk de BH até o bregafunk. Nesses anos do projeto ainda como festa, foram inúmeras colaborações dos dois em textos sobre música periférica, como o especial sobre bregafunk para a Vice. Em 2019, o Embrazado começou a lançar conteúdo em um plataforma própria através de um formato de Podcast, que já teve episódios sobre "Forró de Favela de Fortaleza", "Como as mulheres estão mudando o pagodão em SSA" e "Os impactos do coronavírus na música periférica". Acontece do projeto ter sido fundado a partir de formações distintas: Igor faz graduação em ciências sociais pela UFPE e GG Albuquerque é formado em jornalismo e mestre pelo PPGCOM da UFPE. “Você tá tratando de problemas sociais, então pensamos em devolver algo pra sociedade. E a academia é o melhor incentivo a isso! Ela dá as melhores ferramentas para aprendermos a lidar com isso”, explica Igor. Através dos recortes e das formações dos dois, o projeto foi ganhando uma cara singular.



Nesse tempo o projeto tentou vários editais, como o Natura Musical e o Funcultura, até serem aprovados pelo Petrobrás. Entre outros fatores para celebração está o fato de os editais brasileiros (em sua maioria) terem uma cara muito parecida, além de todos os entraves da democratização do acesso de agentes da cultura periférica nesse tipo de financiamento. “Da parte da gente também, o esforço para criar um projeto que fosse entendido foi trabalhar em três frentes”, explica GG. Na proposta da plataforma, além das questões jornalísticas, o projeto foi aprovado em um edital com a elaboração de três frentes: capacitação, difundir e fomentar. O primeiro item faz parte de uma ideia de capacitar realizadores locais, tanto para produção cultural quanto para o jornalismo, em um gesto não de demarcar dicotomias no modo de fazer - como certo ou errado -, mas com interesse de capacitar futuros agentes culturais em escolas públicas; já no sentido de difundir, o projeto pensa a partir de sua produção de conteúdo uma forma de divulgar as culturas periféricas e gerar desdobramentos a partir da arte; no último ponto, da fomentação, o portal Embrazado vai fazer oficinas e, ao final do projeto, lançar um disco que conecta essa rede de música periférica de três regiões diferentes do país. Tudo remunerado e feito a partir de chamadas públicas.


As cidades escolhidas foram Salvador, Recife, Belém, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Entre outros motivos, por serem cidade férteis em novas cenas de cultura periférica. “O primeiro fator de seleção é que a própria Petrobrás tinha essas cidades como fato de critério. Mas acabou de ser cidades que tínhamos uma pesquisa: Igor conhece muito de Belém e eu já tinha ido pra BH, conheci o Centro Cultural do Aglomerado da Serra. Então já tínhamos familiaridade com essas cidades”, pontua GG. Uma coisa muito interessante de se pensar é como muitas vezes essas cidades já estão conectadas por redes de música periférica, muitas vezes digitais, mas que terão o aporte financeiro e criativo para fazerem parte de um disco.


Mesmo tendo sido aprovado ainda em 2019, é uma estranha coincidência que um projeto que busque construir pontes chegue em momento pandêmico e adverso. “Por um lado é ruim, porque não deve surgir cenas novas. Não por incapacidade, mas pela impossibilidade de ganhar corpo e chegar nas ruas”, lamenta GG. Ainda assim, cabe para o momento repensar as formas de encontro e construção dessas conexões. E se depender da criatividade, sofisticação inventiva e vocação de sobrevivência dos gêneros periféricos, existem muitas conexões entre as quebradas do Brasil a serem firmadas.



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