• André Santa Rosa

Disco Orquestra Frevo do Mundo constrói pontes entre frevo e música pop

Os gêneros musicais não têm configurações estáveis, eles, assim como qualquer forma de cultura, estão sujeitos a modificações. O Frevo, gênero que nesta segunda-feira (14) tem seu Dia Nacional celebrado, tem suas origens nas bandas marciais e encontra sua forma mais viva nas colisões carnavalescas. Ele é sinônimo de modernidade e de uma construção de perspectiva moderna da cultura urbana recifense. No disco Orquestra Frevo do Mundo, Vol. 1 o frevo é também engenhosamente pop.



O disco produzido pelo ex-Nação Zumbi Pupillo e Marcelo Soares conta com releituras clássicas dentro das estéticas de vários artistas pernambucanos como Siba, Otto, Almério e Duda Beat, além de nomes célebres da MPB como Caetano Veloso, Tulipa Ruiz e Arnaldo Antunes. O álbum, lançado em fevereiro desse ano, ganhou uma versão belíssima em vinil lançada pelo selo Noize em junho.



A Orquestra Frevo do Mundo surgiu em 2007, aliando o frevo aos beats e à tríade clássica de instrumentos do rock, pensando uma nova leitura do gênero. Essa pesquisa por uma outra visão do gênero vem de Pupillo, que desde as experiências do manguebeat, pensou esse encontro a partir dos possíveis encaixes dos BPMs da música pop com o frevo. E é justamente esse encontro, ou melhor essa colisão, que vemos no disco: cada artista deixa sua assinatura, sua versão de frevos clássicos com um verniz de outros gêneros, seja puxando para o rock em Frevo Mulher (Zé Ramalho), a música pop em Bloco do Prazer (Moraes Moreira/ Fausto Nilo) ou um referência a nova mistura de guitarra baiana com música de paredão do Baianasystem em Ciranda de Maluco (Otto/ Dengue).


Inclusive, é na faixa Ciranda de Maluco, com Otto e o guitarrista Roberto Barreto, que a ponte Olinda-Salvador fica mais em evidência. É claro, o frevo transformou o carnaval baiano e influenciou diretamente músicos como Moraes Moreira e Caetano Veloso, que no disco grava com Céu na faixa A filha da Chiquita Bacana. Mas essa relação meio esquecida no passado ganha uma nova vida a partir dessas versões. Também é muito interessante ver a interação de duas gerações que, ao seu modo, fizeram coisas semelhantes no sentindo de pesquisas os limites entre uma visão pop da cultura popular, como foi Manguebeat de Pupillo e a Trópicalia de Caetano.



Na canção Vida Boa (Fábio Trummer) interpretada por Almério vemos uma leitura de um dos nomes mais interessantes da cena pernambucana interpretando uma música da Banda Eddie. Almério é uma figura de performance e corporalidade extremamente política, então é um grande acerto ele ser o interprete dessa música de discurso mais "delimitadamente político". Sua versão não só traz uma outra sonoridade, mas carrega outras possibilidades como declaração política. Outro nome da música pernambucana presente no disco é Siba, que faz sua leitura Linda Flor da Madrugada (Capiba) com muita presença, ao mesmo tempo que brincando com o simples, entre sons latinos, frevo e a música popular. Quem encerra o disco é Henrique Albino, já reconhecido como maestro da nova geração do frevo, que sintetiza bem a proposta do disco em uma faixa instrumental de Último Dia (Levino Ferreira).



Mesclando os beats e arranjos de sopro de mestres como Maestro Duda, Roque Netto e Nilsinho Amarante, o disco ressoa bem uma assinatura de Pupillo e Marcelo Soares, que são os grandes produtores que fizeram possível a união desses nomes e um disco nesse contexto. Orquestra Frevo do Mundo, Vol. 1 não é só um disco de versões. É um trabalho que traz uma visão muito interessante de cultura em deslocamento, dessacralizada, ao mesmo tempo propondo homenagens, ainda que não seja muito radical na sua execução. Mas seu ponto alto está nessa construção de pontes: tradição e contemporâneo, Pernambuco-Bahia e do popular e pop.


Faixas:

“A Filha da Chiquita Bacana” (Caetano Veloso), por Céu e Caetano Veloso

“Linda Flor da Madrugada” (Capiba), por Siba

“Bloco do Prazer” (Moraes Moreira/ Fausto Nilo), por Duda Beat

“Ciranda de Maluco” (Otto/ Dengue), por Otto e Roberto Barreto (BaianaSystem)

“Frevo Mulher” (Zé Ramalho), por Tulipa Ruiz

“Ela É Tarja Preta” (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ Felipe Cordeiro/ Luê/ Manoel Cordeiro), por Arnaldo Antunes

“Vida Boa” (Fabio Trummer), por Almério

“Último Dia” (Levino Ferreira), por Henrique Albino (instrumental)

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