• Heloise Barreiro e Xainã França

Desigualdade musical na era do streaming: algoritmos, visibilidade e remuneração



É possível ser empresário de si e ao mesmo tempo estar à mercê de gigantes capitalistas? O neoliberalismo tem cada vez mais instalado em diversas áreas de atuação a lógica de empresarização dos indivíduos, mas por trás disso se esconde uma profunda precarização trabalhista, representada digitalmente pelos aplicativos de viagens, de entregas e também pelas plataformas de streaming de música. Assim como para os motoristas de aplicativo, a uberização dos músicos é ultra prejudicial e o parâmetro por tempo de trabalho se perde completamente, afetando sobretudo os artistas iniciantes e/ou independentes, que são muitas vezes “escanteados” nas plataformas digitais. Esses são alguns motivos que fomentaram inúmeros protestos da classe musical em 2020.


Hoje em dia, não se vende um produto físico com uma quantidade certa de faixas e possibilidades de projeção de vendas. Em uma mudança completa na lógica do mercado musical tradicional, as plataformas de streaming passam a vender um serviço; uma experiência de imersão contínua baseada nos algoritmos gerados pelo stream de cada usuário. As empresas oferecem recomendações personalizadas, playlists, formato de rádio para conhecer novas músicas e também um acesso facilitado para compartilhamento nas redes sociais. O entendimento algorítmico altera totalmente a noção de “venda” por cada produto, tornando o cálculo da remuneração muito mais complexa em comparação com a era do disco, dificultando uma visão do futuro para os artistas, que não conseguem prever um ganho fixo mensal, por exemplo.


Além disso, o que torna um stream mais valioso do que o outro? De que forma o artista pode ser mais valorizado digitalmente? Para se ter ideia, o Spotify paga ao artistas em torno de $0.00437 dólares por stream. A forma como os algoritmos desses aplicativos funcionam continua nebulosa e em constante mudança, podendo variar de acordo com escuta personalizada de cada usuário, além de fatores como localização e horário.


“Os algoritmos de cada plataforma vão contar os vetores de cada streaming, ou seja, o que uma pessoa escuta, quanto ela escuta, por quanto tempo ela escuta. Isso tudo vale um streaming. Isso é mercado financeiro puro. Você vai ter uma situação da qual a quantia paga para o titular de direito autoral varia a cada mês. Os vetores são calculados diferentemente pelos algoritmos na hora de fechar a cotação”, explica em entrevista remota para a Gruvi Leonardo de Marchi, Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


O novo modelo digital se difere completamente do formato clássico de lançar um disco e fazer apresentações. No artigo “Música Infinita: serviços de streaming como espaços híbridos de comunicação e consumo musical”, Marcelo Kischinhevsky, Eduardo Vicente e Leonardo De Marchi definem as plataformas de streaming como “portais de consumo, promoção e circulação de conteúdos sonoros, operando também como mídias sociais, ou de modo articulado a estas, constituindo espaços híbridos de comunicação social e consumo cultural que escapam às tentativas de classificação generalizantes”.


Um panorama desigual


No esforço de mapear um setor que se expande cada vez mais, a Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) entregou um relatório em outubro de 2020 relativo à Pesquisa do Mercado Brasileiro da Música Independente. Um dos dados aponta que 53,5% dos artistas que aparecem no Top 200 do Spotify são independentes. Número impressionante considerando que os algoritmos dos aplicativos acabam criando um cenário de competição desigual entre os artistas gigantes e os artistas independentes, isso se deve ao sistema adotado de recomendação através das playlists, que se baseia em oferecer o que está sendo mais escutado pelos usuários, consequentemente deixando de fora os artistas com poucos streams, como explica De Marchi: “Isso tende a criar o que se chamou de filtro bolha também no mercado de música, o que leva a uma enorme concentração de alguns poucos artistas que estão figurando todas as playlists [em gêneros específicos]. Que são as estrelas”.


A remuneração e valorização dos artistas pelas plataformas reflete essa bolha. Enquanto as estrelas faturam verdadeiras fortunas por mês, os artistas independentes e iniciantes dificilmente conseguem atingir um salário mínimo, na verdade, o faturamento de alguns músicos pouco conhecidos não dá sequer para pagar uma refeição. “Acho que no começo do Spotify, quando lancei o meu terceiro álbum e deu uma bombada maior, eu consegui algo como R$ 80,00 … E foi um feito. Mas hoje em dia você não chega nem perto disso. Se você arrecadar R$10,00 reais já é muito”, conta o músico independente pernambucano Matheus Mota. O artista também relata uma incerteza de planejamento: “Está muito pulverizado em mil redes diferentes, então fica muito difícil você agregar uma quantidade X para ter um controle sobre o faturamento e divulgar num nível que fique viável”.


Katarina Nápoles, vocalista da banda Guma, confirma que as dificuldades nas plataformas de streaming começam ainda na parte da produção. “Para estar lá você precisa de uma distribuidora e de conhecimento sobre mixagem e equalização padrão das plataformas. E, finalmente, uma vez que nossas músicas estão lá, as empresas não oferecem nenhuma estratégia de divulgação do nosso trabalho”, defasagem que prejudica diretamente a remuneração. O mais próximo que as plataformas oferecem como uma forma interna de publicização e maior notoriedade das músicas seriam as playlists. Mas a cantora questiona sobre essa estratégia e como a escolha dos mesmos artistas de sempre, os mainstream, afetam a classe independente. “O spotify não sustenta ninguém, a não ser, sei lá, a Rihanna. O Spotify mantém a sociedade da mesma forma que é [desigual]. Mas é isso que a gente tem”.


Foto: Hannah Carvalho/Divulgação

Pesquisador da indústria cultural digital, Leonardo de Marchi comenta que esse obstáculo é comum para grande parte dos músicos que estão nas plataformas, artistas independentes que se situam no meio de um gráfico de cauda longa. “Temos o problema da falta de transparência de como funcionam os algoritmos desses serviços. Toda vez que a gente tenta buscar um tipo menos convencional de música, encontramos dificuldade”.


Há vantagens no virtual?


Apesar dos inconvenientes que os artistas independentes enfrentam atualmente com o streaming, o ambiente virtual não é somente um lugar hostil. Há quase 20 anos, a digitalização e a internet já eram ferramentas poderosas para propagação e crescimento de inúmeros músicos brasileiros. Em 2002, antes do YouTube, iTunes e até mesmo da popularização do MySpace, surgia o site Trama Virtual, um espaço da gravadora Trama que permitia aos artistas divulgarem gratuitamente seus trabalhos. A plataforma divulgava os trabalhos em destaques com resenhas jornalísticas, “joinhas” e espaço na página de abertura do site (alegria máxima de quem cadastrava os trabalhos no site). O espaço, que acabou de certa forma dando tom à cena independente brasileira, teve o seu fim em 2013.


Leonardo de Marchi também expõe como a criação dessas plataformas de música digital interfere de maneira positiva na dinâmica dos artistas independentes. “Com elas, existe a própria possibilidade de entrar no mercado de maneira artesanal. Você pode gravar a música por si só, sem ninguém te falando como você tem que gravar, procurando seu nicho dentro desse mundo digital, que é um mercado global”, dando, assim, visibilidade para os artistas iniciantes ou amadores, que não imaginavam ter.


O músico recifense Matheus Mota foi um dos que surfaram na onda do Trama Virtual. Em 2009, ele lançou seu primeiro álbum na plataforma, que conferiu projeção ao trabalho e também facilitou a formação de uma rede sólida de artistas brasileiros e pernambucanos. “Dei sorte porque eu caí no gosto da redação do site e eles começaram a fazer várias notas sobre mim e sobre meus contemporâneos na época, como Zeca Viana e D-mingus. A gente não se conhecia, mas era uma galera de Recife que estava lançando música ao mesmo tempo. E aí a gente começou a se conhecer, e isso foi como se fosse uma cena acidental e tudo graças ao Trama, que convergia isso e tinha muitas audiências”, explica Matheus.


Foto: Kika Domingues.

A vocalista de Guma conta que o movimento de lançar suas obras em plataformas digitais é e sempre foi algo natural para ela. “A gente nunca parou para pensar exatamente em uma motivação para colocar os trabalhos da banda no Spotify e no Bandcamp. Queremos mostrar nossa arte, e a internet é um lugar de ampla divulgação. Eu posso alcançar uma pessoa de Goiás, de Porto Alegre, da Irlanda. Por mais que não existisse plataforma de streaming, a gente disponibilizaria as músicas na internet”. Katarina diz recordar como o lançamento do “Ok Computer”, disco de 1997 do grupo Radiohead, marcou sua percepção sobre música na internet. “Radiohead disponibilizou o álbum pra baixar, sem ser pirataria, e eu acredito que isso desencadeou em muito do que temos hoje, se tratando da importância do digital.”


Argumenta-se que a lógica de mercado e os algoritmos das plataformas de streaming não caminham para atuar de forma semelhante à iniciativas como o Trama Virtual, que contava com uma curadoria própria; nem mesmo como o Bandcamp, onde se pode comprar diretamente uma obra, mas sim para criar um amontoado praticamente infinito de artistas e canções que são oferecidas aos usuários de forma desigual. Além disso, à época, o Trama ainda dividia espaço com os lançamentos físicos do produtos, em contraste com o cenário atual, onde o lançamento nas plataforma digitais acaba sendo o protagonista e configurando um espaço gigantesco na indústria fonográfica, de forma a “deixar de fora” quem não participa desse circuito. Essa situação se acentua ainda mais na pandemia, com o fim temporário das apresentações ao vivo, que são uma forma direta de repercutir um lançamento e ser remunerado imediatamente por isso.


A "uberização" dos músicos


Em seu primeiro livro, “A Estrada Do Futuro”, de 1995, o empresário Bill Gates usou a expressão “capitalismo sem a força de atrito” para prever que a internet aproximaria cada vez mais comprador e vendedor, de maneira que a relação de troca aconteceria facilmente, sem que tempo ou dinheiro fossem perdidos no processo. Mas o mercado de música digital não cumpriu exatamente essa promessa. “Você tem intermediários fundamentais, que são os algoritmos, dos quais a gente não conhece como funciona. Isso cria um problema tanto de diversidade cultural, ou seja, acesso ao conteúdo, quanto de remuneração”, pontuou Leonardo de Machi. “Daí você joga tudo isso ao sentimento de fracasso do músico em relação ao número de plays”, completa.


Como foi falado anteriormente, a ideologia neoliberal embrenhou-se pela mentalidade econômica mundial. A uberização e a promessa de “ser o seu próprio patrão” como resolução de todos os problemas também alcança a indústria da música. A grande questão é que, como bem pontua o pesquisador Leonardo de Marchi, “não adianta fazer com que o trabalhador seja o seu próprio empregador, porque ele não vai ser. Sempre vai ter um intermediário fundamental. As plataformas dizem que vão juntar a demanda à oferta, mas elas as criam”. Isso seria uma consequência direta ao fato de que a economia digital tende ao monopólio. “Por isso que as pessoas ouvem mais o Spotify do que o Bandcamp”, explica. De acordo com De Machi, é preciso parar para rediscutir “essa forma de servidão voluntária que essas plataformas obrigam as pessoas a se submeter”.


Caminhos para um cenário mais justo


Diante de um panorama desigual, muitas queixas por parte dos artistas surgem, e com elas também sugestões mais justas. Para o especialista Leonardo de Marchi, o problema é estrutural: “Você tem que pensar em formas de diminuir a desigualdade que está acontecendo entre os artistas e que espelha a desigualdade econômica que se tem na nossa sociedade. Isso está se tornando absolutamente insustentável, tanto no cenário macropolítico como no cenário da música”, alerta.


O pesquisador chama atenção para a possibilidade de uma remuneração fixa para os artistas cadastrados na plataforma, principalmente quando se analisa um cenário em que a música feita por algoritmos, ou seja, a música automática, tem se tornado uma realidade. “Tem-se a necessidade de fazer uma discussão sobre remuneração geral, tipo um salário universal para esses artistas que estão presentes na plataforma. O que é polêmico, mas extremamente necessário considerando que cada vez mais nós temos a entrada de músicas feita por algoritmos dentro dessas plataformas”, analisa. Em 2019, a gravadora Warner Music fechou um contrato com a Endel, empresa de inteligência artificial, para produzir canções e algumas delas já circulam nas plataformas.


A recifense Katarina Nápoles diz acreditar em uma maneira mais justa de remuneração aos artistas independentes, visto que streamings como Spotify, Deezer e Youtube lucram grandes montantes com os direitos autorais que são dos artistas. Ela cita outras empresas de escuta digital como exemplo de política de remuneração ética. “No Bandcamp existe a possibilidade de fazer doações diretas para artistas específicos, sem a empresa tirar um centavo”.


Já para Matheus Mota, a questão é cultural e também educativa. Diferentemente de pagar por um produto palpável, as pessoas ainda não estão totalmente acostumadas a pagar por um link ou um arquivo, pensa o músico. “Eu já vendi disco, o pessoal comprou muito disco meu, comprou adesivos e souvenirs que eu fazia artesanalmente, mas eu ainda não consegui fazer com que o pessoal compre um disco meu no Bandcamp por 4 ou 5 dólares. É um valor de CD, então o pessoal ainda se motiva mais por uma coisa palpável. Isso de comprar um arquivo, por mais bonito que seja no discurso, até o pessoal que defende, não compra”, argumenta.


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