• Heloise Barreiro

De Rosetta até hoje, a disputa pelo espaço das mulheres no rock

Atualizado: 6 de Ago de 2020


Fotos: Reprodução; Thainá Ferrer/Divulgação; Divulgação


Um ritmo que evoca subversão e um canto transgressor que demanda ser ouvido. Por muito tempo, o Rock‘n’Roll foi considerado um espaço masculinizado onde a docilidade compulsória das mulheres não se encaixava. Para se adequar a uma lógica hegemônica contraditória, as origens do estilo foram historicamente apagadas e até hoje muitos não sabem que o termo foi usado pela primeira vez em 1942 para se referir à performance de Sister Rosetta Tharpe, uma mulher negra norte americana que escrevia músicas, cantava e sobretudo tocava guitarra como se sua vida dependesse disso.

Em 1944, dois anos após o comentário na revista Billboard, Sister Tharpe lançou ‘Strange Things Happening Everyday’, que seria considerada a primeira música de rock da história. Nessa época, Elvis Presley ainda era uma criança e Chuck Berry tinha acabado de completar 18 anos. Nesta segunda-feira (13), é celebrado o Dia Mundial do Rock, data que relembra o Live Aid, gigantesco festival musical solidário que aconteceu em Londres e na Filadélfia, nessa mesma data no ano de 1985.



Para além das amarras do estilo musical, o rock é revolucionário, é um lugar de luta por justiças, de criação de uma nova realidade não conservadora e livre de preconceitos de qualquer tipo. Despido dessas ideias, ele se esvazia e se limita. Por isso, mais do que nunca, artistas têm se esforçados para fazer reparações históricas e têm mostrado a que veio o rock’n’roll. Um importante caminho para celebrar a data e lembrar com justiça a história do rock é enaltecer as mulheres que fizeram parte dela. “O rock‘n’roll para mim é questão de atitude e posicionamento. Infelizmente, a história não nega a massificação do rock e a dominação do rock por pessoas brancas”, afirma Dani Carmesim, cantora e compositora da cena de rock de Pernambuco.


Quase oitenta anos depois, em um ato de reescrever a história do rock e a sua própria história, Dani Carmesim - mulher negra pernambucana - compartilhou um pouco da sua trajetória como cantora e compositora na cena de rock. Sobre o apagamento das origens do ritmo nos Estados Unidos, a cantora explica que “as pessoas não aceitavam dizer que gostavam de rock porque ele foi criado por mulheres e homens negros. Era uma afronta, era um absurdo. E eles precisaram embranquecer o rock’n’roll com figuras como Elvis Presley e tantas outras que surgiram para o rock ser visto como um ritmo menos marginalizado”.


Representatividade


Para Dani, a noção de que ela podia fazer rock veio quando ainda era adolescente. Em um show da banda recifense Comadre Fulozinha, a mulher se viu representada e encontrou em Isaar França a possibilidade de também ocupar um lugar no palco. “Quando eu vi ela ali em cima do palco - negra também, gorda -, cantando, tocando, eu me senti representada e eu vi que era possível eu também botar esse meu desejo pra fora”, contou. Hoje, em seu trabalho, Dani sente na pele a responsabilidade de representar muitas outras mulheres, assim com Isaar a representou anos atrás. “Eu sinto uma responsabilidade muito grande em ser uma cantora e compositora negra, gorda e periférica [...] principalmente no mundo do rock, que a gente sabe que sempre foi altamente machista”. Hoje, a maior missão é viabilizar o máximo possível essas artistas. “Existem muitas mulheres negras roqueiras no Brasil, ainda bem. Só que infelizmente não ganham visibilidade e eu acho que isso tem muito a ver com o racismo estrutural, com o machismo e com mercado fonográfico também”, explica.


A baterista da ExSim, Marcella Tiné - envolvida com o grindcore, considerado um estilo anti-música por navegar contra a corrente mercadológica -, ela trabalha para desfazer a imagem de que mulheres não são adequadas para estilos pesados. “A gente já mostrou e continua mostrando que nós somos capazes de tocar música pesada, de sermos ouvidas. A presença feminina é uma imagem de resistência, atualmente eu enxergo que as coisas estão melhorando, mas não estão ideais”, afirma.


Foto: Divulgação.


Ela também foi fundadora da banda Vocifera, o primeiro grupo de metal formado apenas por mulheres em Pernambuco. A baterista reconhece que uma cena com qualquer tipo de preconceito não pode ser verdadeira. “A cena underground sempre foi uma cena que rompe paradigmas, que rompe com essa quebra de padrões normativos da sociedade. Uma cena preconceituosa não é uma cena underground verdadeira”, explica.


Por uma quebra de estereótipos


A figura feminina presente no universo do rock, assim como em diversas camadas da sociedade, vem carregada de expectativas e imagens pré-definidas. A figura da mulher gótica sensual, sempre com um figurino impecável ainda é muito disseminada. Em seu livro “Problemas de gênero”, a filósofa Judith Butler explica que essas expectativas de gênero foram construídas ao longo da história através de uma repetição. “O gênero é uma identidade tenuemente construída no tempo, instituído num espaço externo por meio de uma repetição estilizada de atos”.


A baterista Marcella enxerga que muitos estereótipos na cena ainda precisam ser desconstruídos para uma cena menos hostil. “Já comentaram minha aparência, isso é uma coisa que ainda precisa ser muito rompida e ainda existe esse tipo de comentário”, explica. Por tocar a bateria de forma voraz, ela também já ouviu diversas vezes que “toca igual um homem”. “Ainda não somos a maioria mas somos muitas e nossa presença não pode ser mais ignorada ou objetificada”, completa.


Situação semelhante também aconteceu com Dani Carmesim, que já teve seu figurino criticado, sob a alegação de que para se empoderar seria necessário ocupar um espaço de diva, um lugar de glamour e brilho. “Eu vejo os meninos com blusas, calças, roupas desbotadas, rasgadas, cabelo meio desgrenhado e a galera não fala sobre como eles tão aparentando estar no palco. E eu acho isso massa. E o mesmo direito que os caras tem de tocar desse jeito eu também quero ter”, afirma.

Dani Carmesim em ensaio para o EP Tratamento de Choque [Desconstruindo a imagem ideal]. Foto: Thainá Ferrer/Divulgação.


Para a cantora, a crítica, por mais que seja inofensiva, é derivada um senso comum da sociedade, quando o que deveria importar é a interpretação no palco. “Talvez eles não consigam perceber que estão cobrando uma coisa de mim que o resto da sociedade cobra também”, conclui. Para Dani, a desconstrução de estereótipos é tão importante que foi tema de um EP. Em 2012, a cantora lançou “Tratamento de Choque [Desconstruindo a imagem ideal], em que trabalha o equilíbrio entre a beleza e o caos através de composições viscerais.


Os trabalhos de Dani Carmesim estão disponíveis em todas as plataformas de streaming, incluindo o seu novo single "Loop Infinito".

Já o primeiro álbum da Esxim Grindcore, lançando durante a pandemia, está disponível na plataforma Bandcamp para download e também em nas demais plataformas digitais de streaming.




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