• Xainã França

De passo a passo, Cassio Oli abre alas com seu som

Rock, com manguebeat, com fanfarra. Quem diria que essa mistura de influências poderia dar fruto a uma sonoridade tão concisa e particular. Cassio Oli, de 30 anos, nascido e criado em Igarassu, sempre teve dentro de si a vontade e sensibilidade para a música. “Comecei com 12 anos, tocando instrumento de sopro na Banda Heitor Villa Lobos”. Criada no início dos anos 1990, a tradicional banda marcial igarassuana serviu não só como iniciação musical para o artista, mas também como um espaço de inspiração que maturou sua identidade e estilo sonoro.


Durante o tempo que integrou a banda, Oli experimentou todas as etapas: foi aluno, professor e maestro. Mais precisamente entre 2010 e 2011, ele dirigiu artisticamente o grupo. Parar o músico, a cultura que gravita as bandas marciais é inseparável do caráter social. “Tenho uma vivência de banda marcial muito forte, não apenas musicalmente, como socialmente. Lá, antes da música, a gente pensava na questão social”.

É potente a influência que a banda marcial exerce na comunidade de Igarassu, de forma humanizada e na construção técnica dos músicos. “Depois das igrejas evangélicas, que tem um projeto muito forte na construção de musicalidade, as bandas marciais cumprem esse papel de formação, não só aqui como em várias cidades”, comentou.


Porém, o artista percebe que existe uma visão de que bandas marciais e fanfarras são tradições limitadas às cidades do interior, e que isso não é verdade. “Em Recife existe uma cena forte do gênero. Na Várzea, inclusive, acontecem alguns campeonatos. Isso acontece meio que em um submundo, porque não é tão divulgado”, declarou. Um dos campeonatos que acontecem na Zona Oeste do Recife é a Copa Pernambucana de Bandas e Fanfarras; em nível nacional, tem-se o Campeonato Nacional de Bandas e Fanfarras.


Em 2018, Cassio Oli lançou seu primeiro single, “Dobrado Sustenido”. As influências marciais no trabalho começam desde o nome; o dobrado, muitas vezes associado à celebrações e festas, é um dos estilos produzidos pelos metais, madeiras e percussão das Bandas Marciais. Já o “sustenido”, na música, é tido como um acidente, uma falha de execução que originou uma nova nota musical, alterada para ser tocada um semitom elevado. É assim que o título da canção anuncia de forma sucinta e ousada o tom do trabalho de Oli: a poderosa tradição das marchas somada ao efeito subversivo do rock e do manguebeat.



Inicialmente, o single seria um EP, mas a notícia de que havia sido premiado pelo Festival Pré Amp (2019) com a produção de um álbum o fez reorganizar os planos. “Eu preferi, ao invés de soltar um EP, me concentrar e trabalhar de forma mais elaborada em um disco”. Com a pandemia, o processo atrasou um pouco, mas o cantor prevê a liberação de seu primeiro disco para o primeiro semestre de 2021. Para Oli, o Pré Amp foi uma oportunidade que abriu portas para muitas outras experiências musicais.


“Foi um divisor de águas, porque lá você adquire um certo reconhecimento na mídia. E a partir dessa apresentação de 2019, surgiram várias oportunidades. Além do disco, a gente tocou no FIG, que é mais uma cidade, mais um público para mostrar o trabalho, e depois no RecBeat, que é um palco muito importante para a cena de Recife. Foi uma construção de experiências incríveis”, disse o músico.

Em setembro foi liberado o clipe da música “Salvador de Araque”, que segundo o artista, foi integralmente gravado em casa, com o celular e editado remotamente por Diego Gonzaga. “Essa música vai estar presente no álbum. Inclusive foi uma das últimas a serem escritas. ‘Salvador de Araque’ veio nesse clima “lado A, lado B” que o Brasil se encontra, de ameaça a democracia. Isso foi algo sobre o qual eu queria tratar, eu precisava.”.



Segundo Oli, o tempo em casa que a pandemia proporcionou para ele está sendo o momento de ver como os músicos e cantores irão se reinventar. “A gente vai produzindo do jeito que dá, com o auxílio das lives”. Contudo, ele não nega a saudade do público. “O conceito do som que eu proponho é levar um pedacinho da banda marcial para o palco, e é difícil reproduzir isso sozinho no meu quarto. Um dos instrumentos que eu toco é uma tuba, que é um instrumento imenso. A live é uma maneira de não parar, mas não chega nem perto da experiência do som que a gente quer reproduzir ao vivo.”, afirmou. Ele tem aproveitado esta pausa para se debruçar ainda mais sobre seu primeiro disco, que já tem nome definido, “Bloco Marcial”.


40 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo