• Heloise Barreiro

Dani Carmesim: uma década de crescimento e quebra de paradigmas da forma mais underground possível

Viver de música independente não é fácil. A sobrecarga incessante de compor, gerenciar, produzir e divulgar o próprio trabalho é cansativa e configura uma luta muito distante do glamour que muitos relacionam à figura do artista. Agora, imaginemos tudo isso combinado ao enfrentamento diário do racismo e machismo enraizados no universo da música, sobretudo no rock. Vemos uma luta que já era árdua se multiplicar infinitas vezes. Por isso, as mulheres que resistem nesse cenário são vitoriosas por essência.

Completando dez anos de carreira autoral, a recifense Dani Carmesim é uma das faces que estampam a resistência negra e feminina no underground pernambucano. Mulher, negra e moradora da periferia, a cantora batalha há mais de uma década para reafirmar seu lugar e sua voz da forma mais rock’n’roll possível. “Foram dez anos de luta, levantando bandeiras mesmo; tentando quebrar esses estereótipos, e claro, fui evoluindo como mulher, como ser humano e como artista, mostrando sempre que na periferia se tem e se faz rock”, afirma. A mulher ingressou na música em 2004 como backing vocals para bandas e artistas solo, mas apenas em 2011 passou a se dedicar exclusivamente aos trabalhos autorais.

[Já fizemos um texto sobre a disputa pelo espaço das mulheres no rock; confira]

Foto: André Insurgente/Divulgação

Para marcar os anos de atuação, Dani lança uma série de documentários com três vídeos que abordam suas vivências, desafios, parcerias e também revelam detalhes da produção de Resumo da Ópera, o seu segundo disco que deverá ser lançado no meio do ano para coroar esse aniversário. Para a artista, além de ajudar a reverberar e valorizar sua trajetória, o projeto “leva um pouco de esperança para quem está no início''.

O primeiro episódio da série. intitulado "Lapada, dose e bronca", foi lançado nesta sexta-feira (26) no canal do YouTube da cantora e conta com a participação dos membros da banda: André Insurgente (baixo), Tiago Marditu (bateria) e Fernando S. (guitarra). No vídeo, os músicos falam sobre a pré-produção e gravação do novo disco.


Já o segundo mini-documentário, a ser lançado no dia 2 de abril, conta com depoimentos dos músicos que participaram como convidados na gravação do novo trabalho: Kira Aderne, da Diablo Angel; Neilton Carvalho, da Devotos; Fernandes; André Oliveira e Rafael Bandeira. O último vídeo, que sai no dia 9 de abril, será um pocket show gravado em estúdio com quatro músicas, sendo três delas inéditas e Loop Infinito, que foi lançada como single em junho do ano passado.

Conversamos com a artista sobre os dez anos de carreira, o novo disco que está no forno e também sobre o novo projeto audiovisual.


Confira a entrevista completa:


Gruvi: Como você avalia esses dez anos de produção musical independente a partir das suas vivências como mulher negra na cena underground de Pernambuco?


Dani Carmesim: Eu simplesmente eu fui fazendo, eu fui tentando me adaptar e me adequar às mudanças que aconteceram no mundo, na indústria fonográfica. O engraçado é que foi no ano passado que eu parei para pensar e me dei conta de que esse ano eu estava fazendo dez anos de carreira. Ou seja, uma década inteira dedicada à música autoral, independente e underground. E fui fazer uma avaliação desses anos e vi muitas conquistas, muitas barreiras que eu consegui quebrar.


É muito difícil quebrar estereótipos, principalmente quando se é uma mulher negra, quando se é da periferia, quando eu não faço parte da estética que as pessoas esperam que uma mulher tenha. Então foram dez anos de luta, levantando bandeiras mesmo; tentando quebrar esses estereótipos, e claro, fui evoluindo como mulher, como ser humano e como artista, mostrando sempre que na periferia se tem e se faz rock. Sei que a minha luta poderá deixar as lutas de outras mulheres menos pesadas, assim como outras antes fizeram e me abriram o caminho.


Gruvi: De que forma você enxerga um amadurecimento na sua trajetória?


Dani Carmesim: Quando comecei em 2011, a indústria fonográfica era outra, não se tinha as plataformas digitais de forma tão feroz como a gente tem hoje. Eu sou uma pessoa que ainda funciona à moda antiga; gosto de ouvir álbuns inteiros. Hoje em dia a gente sabe que a galera gosta mais de single, de clipe, de artistas que fazem essa junção do audiovisual com a música, com o figurino... Então eu fui tentando me adaptar da maneira que eu conseguia.


Eu gerencio minha própria carreira, então eu mesma tive ‘arregaçar as mangas’ e ir em busca de conhecimento para tentar me adaptar a essa nova realidade musical, então fui fazer pesquisa sobre direito autoral, gerenciamento de carreira, marketing digital… Todas essas coisas que são básicas para um artista independente.


Todo mundo que vive de arte teve que se adequar às novas tecnologias, à nova busca pela música nas plataformas. O que facilitou, por um lado, porque eu consegui levar meu som pra muito mais longe sem nem precisar ter saído de Recife. Isso é impressionante, mas ao mesmo tempo também a gente fica refém de ter que ficar alimentando redes sociais e tá sempre produzindo alguma coisa.


Houve também um amadurecimento como artista, como mulher. Hoje em dia eu tenho muito mais segurança no palco do que antes, eu acho que eu evolui muito como compositora, principalmente nesse disco novo. As letras são bem maduras e eu estou super satisfeita. Fiz muitas parcerias também, muitas trocas com outros artistas e isso engrandece pra caramba.


Gruvi: Eu vejo que essa série de mini-documentários é uma conquista; uma forma de compartilhar com o mundo um pouco da tua história. Qual é o seu sentimento em relação a essa partilha?


Dani Carmesim: Eu estou muito feliz de ter sido pela primeira vez, depois de dez anos, contemplada com um projeto [Lei Aldir Blanc] para poder viabilizar esses vídeos. A grande dificuldade do artista independente é conseguir viabilizar financeiramente seus projetos, eu sempre tive trabalhos formais para poder me sustentar na música. Ter esse projeto aprovado foi um alívio, um respiro e uma conquista.


Foi uma conquista para agregar e conseguir levar para mais longe a forma como a gente trabalha, como a gente faz música. Mostrando para as pessoas que é difícil conseguir, mas a gente vai dando um jeitinho e no final consegue. Leva até um pouco de esperança para quem está no início.


Gruvi: Quais são as temáticas do “Resumo da Ópera” e principais influências do disco? Como ele dialoga com os seus trabalhos anteriores?


Dani Carmesim: Resumo da Ópera é uma quebra, é o fechamento de um ciclo, está representado lá todos esses dez anos. E ao mesmo tempo é a abertura de um novo ciclo. Ele é uma quebra de paradigmas e também na minha sonoridade musical. Eu não deixei o rock de lado nesse disco, mas eu posso dizer que ele está com uma pegada muito mais punk, pop e claro: aquela cama de rock que é a minha influência principal. Eu acho que as letras estão super maduras, eu falo muito sobre instinto nas letras das músicas; instinto de sobrevivência e de aceitação. Falo também sobre as revoltas que estamos vivendo, sobre esse mundo louco; estranho. Sobre esse sentimento que a gente está tendo de mudar as coisas e da impotência, da frustração.


O disco tem um sentido muito amplo, mas eu acho que a gente conseguiu fazer uma ligação bem interessante entre as canções. Ele começa com um clima bem pesado, vai aliviando no meio e termina com outro clima bem pesado. Eu achei interessante porque Fernando S, que produziu o disco, conseguiu deixar as músicas com arranjos pra cima apesar das letras bem pesadas. Conseguimos fazer esse contraste entre as letras densas e as melodias mais alegres.


Também consegui realizar alguns pequenos sonhos com esse disco novo, ter Neilton Carvalho, da Devotos, como gravando uma guitarra para mim. Também convidei Kira Aderne, da Diablo Angel, que canta uma música comigo. Fernandes também gravou duas guitarras.


Gruvi: O público já vai poder sentir um gostinho do que é o disco no dia 9 de abril, com o pocket show. Como você imagina a recepção das novas canções? Que tipo de sentimento você acha que a escuta do álbum novo vai provocar?


Dani Carmesim: Vamos tocar quatro músicas do disco novo no poket show, uma das músicas eu já tinha lançado como single, que é Loop Infinito e tem mais três: duas inéditas e uma versão de uma música chamada Memória Queijo Coalho, que é uma música minha mas eu tinha lançado ela em parceria com Voltimetro Bass em 2019 numa versão remix.


Eu já lancei dois singles do disco novo: Loop Infinito e De Dentro Pra Fora e tive uma ótima recepção. Com eles, eu consegui pela primeira vez levar meu som para outros países - Argentina, Chile, Guatemala, Espanha, Inglaterra e até na França. Foi uma aceitação muito legal, tiveram muitas rádios e webrádios divulgando. Eu me senti acolhida e espero que o disco inteiro seja assim.


Claro, teve muita gente que estranhou, principalmente quando eu lancei de Dentro Pra Fora, que é uma música mais dançante, tem uma vibe disco. Mas eu gosto desse estranhamento, acho que essa é uma função da arte. Esse é o sentimento que eu tenho: eu sei que muita gente vai estranhar, mas esse é o objetivo mesmo. E acho também que com o som mais pop eu possa conseguir levar ele para outros públicos.


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