• Júlia Rodrigues

Da precariedade à reinvenção: RAPensantes abre caminho para MC´s


Brvno MC, compositor de "Fases". Vinícius Amorim/Divulgação

As escadarias? Vazias. A batalha da Cruz? Interrompida. E se a música fosse vivida nos trilhos de uma eterna pandemia, o que do rap seria? Ainda sem resposta para esse e outros questionamentos metafóricos, e visando alternativas no presente para o que, de fato, dificilmente poderia ser remediado, a produtora audiovisual RAPensantes abriu espaço em seu canal, no YouTube, para a divulgação de produções musicais de MC´s e grupos de rap/hip-hop da cena pernambucana. A iniciativa recebe trabalhos nos formatos de vídeo com música e arte, vídeo clipe e lyric vídeo, e foi pensada para servir como via de mão-dupla: de um lado, artistas conseguem publicar seus trabalhos produzidos de casa. De outro, a produtora continua tendo material para alimentar sua plataforma, mesmo que longe das ruas, pilar de sustentação do gênero.


“O RAPensantes nasce da precariedade. Criamos a produtora com o objetivo de valorizar e desenvolver a cena do Nordeste como um todo. A oportunidade de abrir nosso canal no YouTube faz com que esse gargalo possa ser resolvido, principalmente para aqueles que estão iniciando e não têm tanta visibilidade, porém tem potencial para ser um som de âmbito do rap nacional”, explica Jonson Pereira, fundador e administrador da produtora de rap/hip-hop.


Até o momento, alguns trabalhos passaram por curadoria e duas publicações foram feitas desde a sexta (22), “Fases”, autoria de Brvno MC, e Desdém, de Ruan Nogueira. Isso porque, os músicos devem seguir alguns critérios para terem as produções divulgadas, por exemplo, não ter o produto artístico veiculado em nenhuma outra plataforma, sendo assim inédito. Da mesma forma que o beat utilizado deve pertencer ao autor da música e comprovado no momento de envio da produção audiovisual, realizado através do e-mail oportunidaderappe@Rapensantes.com.br . Outros detalhes, como nome do rapper/grupo, quem produziu o beat, quem fez o processo de mixagem e masterização, além de quem produziu o vídeo também devem ser informados no e-mail.


Manter os trabalhos de pé, contudo, não tem sido fácil, principalmente por conta da falta de recursos e apoio. “Sempre falo que a gente tem corrido contra a maré, nosso projeto tem dificuldade de gerar receita, é quase um projeto social. Não recebemos ajuda financeira de nada. Estamos produzindo camisas nossas com desconto de 20% e todo valor é destinado às produções dos sons, com custo zero do artista. Estamos usando nossa principal arma, que são as redes (sociais) para divulgar os artistas da cena local”. Mesmo em meio ao fogo cruzado, Jonson garante que a monetização é revertida integralmente aos músicos.


“Nesse momento são todos atingidos, nós, produtora, não conseguimos sair para gravar os clipes deles e dar continuidade aos eventos de rua, como as batalhas de rimas e poker show. A rua é a grande vitrine dos Mc's e sem ela eles ficam esquecidos”.


Fases

Da batida melancólica, que transita entre o Lo-fi e o trap, descrição atribuída pelo compositor, a faixa "Fases" abriu as porteiras da primeira divulgação do RAPensantes na quarentena. Longe do palco improvisado, e perto da rima arrastada, Brvno MC enxergou o canal como vitrine ao seu trabalho. O cantor se preparava para lançar a música por meios próprios, antes da produtora tirar o projeto do papel.


"A princípio, eu iria lançar no meu próprio canal, mas eu lembrei que eles estavam com o projeto e isso seria também uma vitrine muito massa, a gente conversou e eu aceitei. Sou muito grato aos coletivos que eu faço parte. Todo o trabalho para 'Fases' sair no RAPensantes foi coletivo", comenta.


Apesar de ter sido lançada recentemente, Brvno compôs a música no início do ano passado, momento descrito por ele como obscuro, marcado pelo delinear de perdas e novas perspectivas. "Eu estava passando por um momento bem complicado, tive perdas familiares, várias decepções. 2019 foi um ano em que eu fiquei inativo da música. Escrever sempre foi o meu melhor jeito de colocar tudo para fora e 'Fases' vem muito disso. Apesar de eu enxergar que eu estava numa fase muito complicada, eu sabia que tudo aquilo iria passar", exclama. Confira a faixa "Fases":


Trabalhos, apoio e falta de rua

Da favela do Bonfim, em Igarassu, Região Metropolitana do Recife, o MC de apenas 17 anos é um dos organizadores da Batalha da Cruz, assim chamada em referência ao distrito de Cruz de Rebouças, também localizado no município - interrompida temporariamente por conta da pandemia. Hoje visto com certa notoriedade na localidade, o MC construiu sua base musical dois anos antes, com "Tamo na Cena" e "Nordeste Gang", ambos em 2018. Depois, "Medesculpakerda.mp3" (2019), "Controverso" solo e "Procurados", com participação do Lifreestyle Mob (2020), grupo o qual também é integrante.


Polivalente, Brvno é agenciado pela Northcode, selo independente gerenciado por Vinícius Amorim (@viniciusamorim_silk). O responsável pela produção e animação do lyric video de "Fases" foi um parceiro homônimo, Vinícius Crastro (@v1nil_). O trabalho contou, também, com Dennys Apolo na mixagem e masterização, e Lua Martins (@luabmartins) na intro.


Se em tempos normais, no entanto, viver de música se revela um desafio aos artistas independentes, quem dirá agora que a crise intensificada pelo novo coronavírus se torna ainda mais seletiva entre grande parcela dos brasileiros.


"A gente não vive 100% da música. Tem que estar pegando outros 'trampos'. Eu faço muita coisa. Já trabalhei em rádio, sou filmmaker, designer gráfico, faço articulações. O que eu tirei com música até hoje foi muito pouco, mas me trouxe muita vivência", cita. Além disso, todo fim de tarde, Brvno se desloca até o Poeirão, estádio municipal de Igarassu, onde também trabalha como fotógrafo do time feminino do Ibis. “Eu gosto de ter uma agenda apertada”, diz.


Mesmo assim, "se virar" deixa de ser alternativa e passa a ser parte do sustento, no momento. A finalização de Fases, por exemplo, foi feita na casa de Dennys Apolo, que é onde funciona a produtora. Aos risos, Brvno conta que eles tiveram que esperar a mãe de Apolo sair de casa, por conta do barulho, para que eles pudessem terminar os efeitos do som. É também nesse contexto, que a saudade da rua, espaço de sobrevivência do gênero, aperta no peito.


"Como diz a crença no próprio estilo: o rap é uma cultura de rua, e não tem como fazer uma cultura de rua, sem poder ir à rua. O rap se promove de batalhas, de coletivos de grafite. Não poder ir à rua é quase que quebrar o movimento, é como se o movimento perdesse os meios de vida”, enfatiza, na esperança de que novos ventos sejam soprados na cena local e em sua vida, com projeção para o lançamento de Libido, sua próxima faixa - que carrega a mistura do trap com swingueira -, e novas experimentações. Na mira também o lançamento de um Brega Funk, já com identidade, mas ainda sem nome. "É algo de extremos mesmo”.


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