• André Santa Rosa

"Corte é brisa": os dez anos da Kalouv



“É justamente esse ato de talhar, esse corte em um árvore, uma poda, que ao mesmo tempo que corta faz nascer outros ramos”, explica Túlio Albuquerque, guitarrista da Kalouv. É assim que ele define Talho, o novo som da banda, que celebra a marca de dez anos do grupo. Mas é assim, também, que as coisas costumam funcionar na vida, os rompimentos, suturas, crescimentos e outras possibilidades. De toda maneira isso não deixa de ser o que a banda recifense sempre se propôs a fazer: uma trilha sonora para a vida cotidiana, suas correrias, seus momentos mais calmos, de encontros e despedidas. E esta nova década começa justamente com esse single e videoclipe, que não só olha a história construída nesses dez anos, mas abre passagem para um possível futuro, sendo a primeira música com letra do grupo. Pra celebrar esse futuro, a faixa conta com a participação de Dinho Almeida, da Boogarins.

Em 2017, quando conheci a Kalouv, estava vendo crescer um novo ramo na minha vida: mudei muita coisa na minha vida e inclusive de cidade. O som da banda embalou algum dos meus primeiros rolês em Recife e na época a banda lançava Elã, um disco que repaginou a sua sonoridade. Mas nesses dez anos, a Kalouv foi parte ativamente da cena recifense e rodou por festivais, viu nascer e morrer rolês, assistiu reconfigurações entre seu próprio som e a cidade. Em 2020, a banda mudou de formação com a ida do guitarrista Saulo Mesquita para Portugal. “A gente está nesse processo de se redescobrir, compondo sem definição exata do que vai fazer. É legal reimaginar a banda. Um dos projetos é um álbum que a gente possa encontrar mais pessoas”, diz Túlio.

Há dez anos a Kalouv era uma fusão de projetos e experimentações distintas: uma de metal, outra de MPB. Não buscaram um nome que significasse algo de cara, mas decidiram criar uma união de letras e sons que viria ter seu próprio significado no futuro. Em um primeiro momento, o grupo foi influenciado de cara pelo pós-rock, entre Mogwai e Explosions in the Skies. Além, é claro, de música instrumental, math rock, jazz e trilhas sonoras. O grupo é composto por Basílio Queiroz (baixo), Bruno Saraiva (teclado), Matheus Araújo (guitarra), Rennar Pires (bateria), Saulo Mesquita (guitarra) e Túlio Albuquerque (guitarra).

Essa presença do pós-rock aparece de forma bem objetiva no primeiro disco da banda, Sky Swimmer (2011). Com o passar do tempo, a banda foi ganhando outros contornos, mais definitivamente no Elã. “O Pluvero (2014) é um disco ainda muito prolixo. O Elã (2017), a gente fez um exercício para se comunicar melhor, as pessoas ficavam mais conectadas", explica o guitarrista. Nostalgia e videogames de 8-Bit, o disco foi um divisor de águas, ao mesmo tempo que conseguiu atrair um fã clássico de rock progressivo, trouxe vários com elementos muito contemporâneos bastante pop. De referências de jogos como Hotline Miami até sons da trilha da saga Zelda, da Nintendo, o disco traz new wave, synthpop e game music, e ajudou a banda a firmar uma paisagem, que inclui o clipe de Moo Moo, em uma sonoridade mais pop e concisa.

Já o single novo, Talho, é de várias formas fruto das construções do último álbum. “Talho já é uma música mais dançante, com elementos de percussão. Isso vai muito do que a gente gosta de ouvir. Ela também tem samples que são áudios que os amigos gravaram em viagens”, explica. Essas gravações vieram do celular de Dinho Almeida, da Boogarins, que se interessou pelo projeto e ajudou compor a primeira letra da Kalouv, trazendo uam ideia forte de movimento e relembrando a estrada. “Eu tinha acabado de voltar de uma turnê longa com o Boogarins e estava com meu celular cheio de mensagens de áudio carinhosas. Daí, comecei a brincar de recortar alguns desses e botar na música. Achei que só isso bastava, porque de uma certa forma mantinha a coisa da banda instrumental, mas aí a ideia fechou o caminho, me veio o estalo desses versos e foi muito prazeroso poder construir essa paisagem toda, de som, palavra, ideias e sentimentos”, conta o vocalista da Boogarins.




O clipe montado por Luara Olívia traz justamente esse visual nostálgico e lo-fi, sendo montado a partir dos mais de 60GB de arquivos desse dez anos. Neste ano, a banda revisitou sua história no #Kalouv10Anos, com um compilado de fotos e vídeos de cada ano de sua carreira, com shows, bastidores e lançamentos. Outro trabalho foi a série do IGTV “Nós e a Kalouv”, que trouxe a cada edição um dos integrantes falando sobre criação e a relação com sua música preferida do grupo. O grupo também lançou as faixas Bolha e Cidades desertas, que ganharam sua primeira versão em vídeos lançados no YouTube. Talho é a canção que encerra um processo e conta com a arte de Maria Eugênia Franco.


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