• Vinícius Lucena

Cannibal tem pressa


Foto: Wesley D'Almeida / PCR

Em 1988, três músicos do do Alto José do Pinho, bairro da Zona Norte do Recife, decidiram usar o hardcore como arma para falar dos problemas enfrentados pelo povo da periferia. Mesmo longe do mainstream, a banda, que no começo era chamada de Devotos do Ódio, conseguiu mover estruturas, incentivando o surgimento de novas produções culturais e chamando atenção para as já existentes. Do Alto, Cannibal, vocalista dos Devotos e da Café Preto nos convida a pensar os movimentos recentes sob a ótica de alguém que viveu outras conjunturas e se adaptou a todas elas.


Na trajetória de mais de 30 anos com uma das bandas pioneiras do hardcore pernambucano, Cannibal e os companheiros de banda sofreram diretamente as consequências de uma estrutura social racista. “No começo da banda a gente levava baculejo todo final de semana. De deitar no chão e abrir as pernas”. O fato de que a maioria dos casos de racismo relatados pelo artista ao longo da entrevista estão relacionados à violência policial não é mera coincidência. Ele explica que esses abusos - que costumam ter como alvos as pessoas pretas - continuam aparecendo, mesmo com o reconhecimento alcançado pelo trio, e acontecem em níveis diferentes.


A Devotos, formada por Cannibal (voz e baixo), Cello (bateria) e Neilton (guitarra) resistiu às adversidades e fez com que, em meados dos anos 1990, parte da classe média e dos produtores de conteúdo da mídia tradicional passassem a ver o Alto sob outra ótica. “A gente conseguiu tirar o Alto José do Pinho das páginas policiais e colocá-lo nas culturais”. Vieram os videoclipes na MTV, aparições na mídia sudestina e, finalmente, a atenção dos jornais locais. Com a projeção conquistada pelos Devotos, o Alto assumiu de vez o status lugar cultural. Surgiram novas bandas, rádios comunitárias e a inspiração para outras comunidades recifenses.


Em meio à entrevista, feita pelo WhatsApp, Cannibal começa a entoar os primeiros versos de Olhos Coloridos para mostrar que a música continua sendo um importante instrumento de combate ao racismo e às injustiças sociais. “A música consegue abrir as portas para a gente entrar nas casas das pessoas que não estão muito preocupadas com o racismo. De repente essa pessoa escuta uma música como essa e começa a se tocar no que a letra tá dizendo”.


Nesse ponto, as lutas convergem. Cannibal diz que o desmonte da cultura no país não acontece por desprezo ou negligência, mas que a ausência de uma política cultural é parte de um projeto de poder. A fim de comprovar esse ponto de vista, o artista menciona o episódio dos livros proibidos em Rondônia e do “negro racista” na presidência da Fundação Cultural Palmares. “Para um governo fascista, quanto menos você pensar, melhor”.


O autor de Música para o povo que não ouve (Cepe Editora, 2018) também acredita que antes as lutas se articulavam de forma mais restrita e que, hoje, com as possibilidades abertas pelas redes sociais, o acesso à informação e a possibilidade de mobilização foram potencializados. “Eu tava dentro de um grupo que tinha mais de 200 pessoas e o foco era a luta pela democracia. Uma pessoa entrou, já foi falando sobre racismo e o pessoal começou a prestar atenção nesse debate”, conta Cannibal.


Gruvi - Na sua avaliação, há algo que difere os protestos que se organizam em torno das pautas antirracistas hoje dos que aconteceram em outras ocasiões? Se sim, essas mobilizações recentes te passam um sentimento de que as coisas finalmente caminham para uma mudança?


Cannibal - As causas são as mesmas. Os negros continuam sendo linchados, sofrendo preconceito, sendo excluídos e menos favorecidos na nossa sociedade. Mas eu vejo uma diferença na luta, porque antes a organização era apenas entre os próprios negros, a divulgação dos atos, por exemplo, era muito secreta, muito fechada.


Hoje as pessoas conseguem se organizar muito rápido, por conta da tecnologia, e trazer outras classes pra luta, outras pessoas que também sofrem outros tipos de preconceito e nos dão apoio. Com a tecnologia também fica mais fácil pra gente falar sobre o começo do racismo, mostrar porque o Brasil é um país racista e porque estamos lutando. Hoje a gente consegue debater sobre esses assuntos não só entre a negritude, mas com várias outras classes.


A gente tá conseguindo se articular, abranger, conversar mais e chamar a atenção da mídia pra esses assuntos. As pessoas ainda vão falar muito sobre o racismo, apesar de existir outras lutas que acontecem em paralelo. Por isso eu acho que a gente vai conseguir muito.


Tendo em vista a situação turbulenta que a gente vive no país, estando sob o governo com aspirações claramente fascistas, a organização de atos na rua em oposição ao racismo, à violência policial e ao governo Bolsonaro tem ganhado força em algumas capitais. Na tua opinião, como fazer pra conciliar esses protestos com a necessidade de se ter cuidado por conta da pandemia, especialmente no caso de pessoas da periferia?


Eu sou totalmente a favor do isolamento enquanto não houver uma cura, uma vacina. Mas é importante pensar sobre o momento político que estamos vivendo, com o governo querendo que o povo se arme, cortando verbas da cultura e assim querendo tornar o país cada vez mais ignorante. Felizmente, há pessoas que lutam contra tudo isso. Aí a gente fica entre a cruz e a espada, não sabe se fica em casa ou se vai pra rua.


Nos períodos mais críticos o governo aproveita pra colocar esses planos em prática. Aí a gente vê que não tem como ficar em casa. Não temos como ficar esperando porque senão eles vão lá e fazem tudo como eles querem. Lutar contra a máquina é muito difícil, e se a gente ficar em casa a gente vai ser engolido. A gente corre o risco de perder muita coisa que a gente conquistou. .


Muita gente costuma dizer que a tua música, junto a outros movimentos, mudou um pouco a geografia do recife quando a gente fala sobre produção cultural. Você concorda com isso? No contexto atual, como você acha que a música pode colaborar pra que haja uma mudança nessa estrutura racista, que faz vítimas com tanta frequência?


Nossa música mudou o quadro social da comunidade pra melhor. A gente aqui no Alto José do Pinho sempre sofreu com o preconceito da sociedade que, muito influenciada pela mídia, nos tinha como um lugar violento. Diziam que só tinha traficante e ladrão. Quando acontecia algum caso no Alto a mídia tradicional passava meses falando daquele caso. Quando o Devotos consegue uma gravadora, consegue andar o Brasil falando do Alto José do Pinho, a mídia começa a subir aqui pra entrevistar as bandas, os maracatus, falar sobre afoxés e outras manifestações culturais. A gente conseguiu tirar o AJP das páginas policiais pras páginas culturais.


No início a comunidade não abraçou a ideia, o pessoal teve um preconceito muito grande com a gente, com nosso tipo de música, nossas roupas e nosso estilo de andar. Ainda falta muita coisa por aqui, mas já existe uma auto afirmação por parte das pessoas que moram na comunidade. Até então o pessoal daqui dizia que morava em Casa Amarela. Hoje a gente tem orgulho de dizer que mora no Alto, que é um lugar que sempre foi cultural mas sofria com a abordagem da mídia sensacionalista que só mostrava os crimes que aconteciam aqui. Depois, outras comunidades se espelharam nesse movimento e começaram a fazer projetos como os que tínhamos aqui, rádios comunitárias, eventos na rua, alto-falantes, entre outros.


Por isso a cultura é um meio muito forte pra gente acabar com os preconceitos, especialmente com o racismo. Não é a toa que o governo Bolsonaro despreza a cultura. Para um governo fascista, quanto menos você pensar, melhor. Então eles proíbem livros, colocam um negro racista na Fundação Palmares, e tudo isso faz parte de um plano totalmente orquestrado, porque eles sabem como a cultura faz com que a sociedade evolua.


Você se incomoda com o fato de que o racismo faz vítimas frequentemente mas esse assunto só parece entrar em pauta quando acontece algum caso que ganha projeção?


Isso é muito preocupante. Parece que o racismo é uma coisa pontual, mas não, é algo que acontece todos os dias, em todos os lugares. Minha preocupação maior é que essa indignação não fique só na mídia, só nos debates. Mas eu acho que não vai ficar porque tem muita gente focada, querendo que isso acabe. Tem muita gente se esclarecendo.


As manifestações têm que ser feitas sempre, não só nas ruas, mas nas escolas, nos grupos de internet e em outros lugares. Esses assuntos não podem ser pontuados só quando alguém foi morto ou quando uma criança foi jogada de cima de um prédio por uma patroa branca , tem que ser diariamente.


Você conta que já foi alvo de racismo por várias vezes. Tem as histórias dos baculejos que vocês tomavam na época dos primeiros anos de Devotos do Ódio. Essa realidade de violência policial que vocês sofriam mudou com o passar do tempo?


Hoje a gente é uma banda conhecida, mas a realidade não mudou. O racismo [por parte da polícia] pode vir te abordar de várias formas, seja por meio de um simples questionamento ou de uma forma mais brutal. Isso nunca mudou pra gente.


No começo da banda a gente levava baculejo todo final de semana. De deitar no chão e abrir as pernas. Eles questionavam de quem era os nossos instrumentos. Depois que a banda ficou conhecida, já aconteceu de entrar policial no camarim do Abril pro Rock pra tirar foto com a Devotos. Agora, em 2020, alguns subiram no palco pra acabar com nosso show, porque a gente cantou uma música de Chico [Banditismo por uma questão de classe]. Então tem gente que curte a tua música nesse meio, mas boa parte não gosta do que tu faz e vai querer acabar com teu sonho. Então, mesmo com o episódio do APR, a gente nunca se iludiu que essa violência acabaria em algum momento.


Então não existe aquela coisa de você ser conhecido e não vai sofrer mais preconceito. Isso sempre vai acontecer, num banco, num ônibus, no seu show. Tem festivais em Recife que a gente não toca por causa de preconceito, e a gente sente isso.


Uma vez eu estava na frente de uma faculdade com a minha filha, ela tinha uns 11 anos e a pele dela não é escura como a minha. Eu estava abraçado com ela e, de repente, chega um carro da polícia. Por sorte, eu conhecia um dos policiais, que tinha morado no Alto José do Pinho. Fui abordado e ele disse que tinha recebido uma denúncia de que tinha um negro aliciando uma criança. Se o cara não me conhece eu tava fodido, ele ia chegar junto pra depois perguntar o que eu era da menina.


Boa parte dos policiais é gente de periferia, pessoas que sabem o quanto quem é de comunidade sofre, mas quando vestem a farda e recebem uma ordem eles fazem com o maior gosto, parece que o mundo tá sendo ruim com eles e eles têm que descontar em alguém, se for num negro melhor ainda. Não há nada que justifique o ato de você mirar um cidadão negro e canalizar todo o ódio que você sente numa ação violenta, o ódio que você teve quando se frustrou por não ser alguém na vida ou por não ter dinheiro pra ter conseguido comprar o que queria.


Um dos pontos que surgiu nesses últimos debates foi a questão de como a pessoa branca deve se portar nesse contexto da luta antirracista. Muita gente diz que isso tudo passa por reconhecer privilégios. Como você acha que isso pode ajudar na construção de uma sociedade mais justa?


Pra se inserir na luta contra o racismo, a pessoa tem que pesquisar, estar junto e sobretudo acreditar. Tem gente que acredita que não teve escravidão, que não teve ditadura. Tem gente que quer fechar os olhos pros fatos, ainda mais quando elas se sentem culpadas pelo que estão fazendo mas não querem dar o braço a torcer.

Já o povo negro tem uma característica muito forte, que é o amor que a gente tem por nós mesmos. Temos que fazer a nossa parte, mostrar que a gente pode ocupar os espaços e continuar agindo mesmo que a gente consiga atingir outro patamar social.


São quase quatro meses, ou mais, sem shows, e ainda vai demorar muito pra que vocês possam tocar pra uma galera de novo, né? Talvez essa seja uma das pausas forçadas mais longas da banda (tanto no Devotos quando no Café Preto). Como isso está te afetando?


O que mais afeta é o lado econômico. Tem as contas pra pagar mas não entra nada. Lançamos um disco com a Café Preto que chegou agora em vinil e terá a distribuição da Tratores. A Devotos já passou da fase de produção do disco novo [O fim que nunca acaba, 2018] e estávamos numa sequência boa de shows, mas não tínhamos nenhum show marcado.


No momento estou muito focado na saúde, não estou pensando em voltar a trabalhar. A gente precisa, logicamente, mas o único jeito de controlar essa pandemia parte dos cuidados que a gente pode ter. É importante garantir primeiro que a gente tenha um futuro pra depois se pensar no que vamos fazer nele.




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