• Giovanna Carneiro e Júlia Rodrigues

Brega romântico: é possível se reinventar sem abandonar as raízes?



O sucesso da música Onde Estás, parceria de MC Tocha com a Banda Sentimentos, animou os amantes do brega romântico. Para muitos, a viralização da música é a prova de que o ritmo pernambucano que foi sucesso nos anos 2000 voltou a ascender e conquistar espaço na cena musical.


Dizer que o brega romântico estava esquecido seria um erro. O gênero musical, na verdade, tem buscado novas formas de se adaptar ao mercado da música de Pernambuco e do Brasil, e para isso, tem se misturado com outros ritmos que tem uma força maior de consumo. O brega funk, por exemplo, nasceu da fusão entre a música brega e o funk, formando um ritmo que tem como fator impulsionador do sucesso uma sonorização que estimula a dança, e que viralizou graças ao passinho, fruto da cultura periférica.


Professor do Departamento de Comunicação da UFPE, pesquisador de cultura pop e autor do livro Ninguém é perfeito e a vida é assim: a música brega em Pernambuco, Thiago Soares acredita que esse movimento de incorporação de outros ritmos na música brega é natural. “No momento em que o brega se aproxima do funk, lá nos anos 2010, gerando o brega funk, aquele brega romântico que tinha ficado como um certo padrão da música brega pernambucana também precisa se reinventar. Por isso, naturalmente, há uma tentativa de aproximar o brega romântico de algumas matrizes hegemônicas da música romântica comercial brasileira”, declarou.


Recorde de audições e acessos nas plataformas digitais de música, o sertanejo tem um potencial comercial gigante e, por isso, tem sido cada vez mais comum que artistas de outros gêneros musicais incorporem elementos do sertanejo em suas produções, a fim de conseguir ampliar seu público. Do mesmo modo que vimos uma vertente mais dançante do brega ostentação se integrar ao funk, é possível notar a incorporação de elementos musicais do sertanejo no brega romântico.


As canções do sertanejo que fazem sucesso nas vozes de artistas nacionalmente conhecidos, como Marília Mendonça, Maiara e Maraisa e Gusttavo Lima, ganham uma releitura e passam a compor o repertório das bandas e artistas de brega romântico, como Raphaela Santos, Priscila Senna e Eduarda Alves, essa última, por exemplo, lançou o DVD “Bem brega, bem sofrência, bem eu”, cheio de regravações de músicas do sertanejo no ano de 2018.



As semelhanças das narrativas e performances que dominam a música romântica parece ser o elo mais significativo entre o brega pernambucano e o sertanejo, e quando pensamos em um elemento que une esses gêneros musicais não há nada mais expressivo e consumido ultimamente do que a sofrência.


“É a sofrência que traz uma conexão estética entre o brega e o sertanejo, com as músicas sobre a dor de corno, a ida ao bar, por exemplo. A canção Garçom, de Reginaldo Rossi, um grande ícone do brega pernambucano, presentifica um espaço de sofrimento público quando ele canta ‘garçom, aqui nessa mesa de bar’. Ao mesmo tempo, se analisarmos a música 10% de Maiara e Maraisa, que viralizou e se tornou um hino sertanejo, também traz essa mesma ambiência do bar ‘garçom troca o DVD que essa moda me faz sofrer”, afirmou Thiago Soares.


Muito dentro de um processo cíclico, as músicas que nascem do brega pernambucano e ficam famosas com o ritmo também ganham releituras e regravações de artistas do sertanejo. Por exemplo, a canção Vira Homem, que viralizou na voz de Eduarda Alves, em 2018, foi relançada por Marília Mendonça em 2020. Com os versos “primeiro lugar você some, segundo lugar vira homem, você é o terceiro que me perdeu”, a canção virou um clássico da tão famosa e consumida sofrência.



Da disruptura ao processo contínuo de atualização


A percepção de uma maior interação entre os gêneros musicais não significa dizer, porém, que o diálogo e a ocupação de espaço entre o brega romântico e o sertanejo são estabelecidos de maneira igual. E é justamente a partir do papel social incorporado em cada gênero, que o que é hegemônico se mantém no controle desse movimento contínuo de mistura de ritmos, despertando no que é local o desejo de expansão, e, consequentemente, provocando certo distanciamento do que é periférico.


Além dos fatores de nacionalização do consumo, o sertanejo transita fortemente por espaços social e economicamente hegemônicos, e, nesse sentido, o diálogo performático da sonoridade com a classe dominante acaba sendo ponto chave para maior aceitabilidade do gênero nesse e em outros ambientes em detrimento do brega romântico, por exemplo.


Com o intuito de se inserir nessa dinâmica, surgiram As Comandantes, trio pernambucano formado por Eliza Mell, Dayanne Henrique e Dany Myler. Ao perceber a intensificação da nova tendência, as antes protagonistas da marca Amigas, deram início a um processo de reformulação e mudança de identidade, partindo das redes sociais. A proposta de alcançar um novo público e expandir a nova marca para o país impulsionou a mudança de girl band do brega para girl band do Brasil. A prova dos novos rumos alçados se materializou com o lançamento de "Vilão", em agosto deste ano. A música chamou atenção pela melodia carregada de elementos do sertanejo, ainda que a essência do brega não passe despercebida na composição sonora.



"A gente já estava com essa inquietação de encontrar uma identidade para As Comandantes. A gente precisou se fortalecer e entender que precisávamos encarar essa mudança, porque a gente quis um novo nicho de mercado", explicou uma das integrantes das Comandantes, Dany Myler.


"A procura da banda e o acesso das nossas redes sociais por pessoas de outros estados é muito grande. A gente quer, de verdade, atingir outro público, um público mais jovem. Eu, Dayanne e Eliza, fizemos nossa história no brega. Entre 2002 e 2006, acho que foi a década de ouro do brega mais tradicional. A gente marcou essa geração, mas o trabalho continua, não queríamos ficar eternamente presas ao passado", reforçou.


Ainda que a construção do trabalho da banda esteja caminhando para o estreitamento de laços com outros ritmos - o que também já foi incorporado aos shows do trio -, a cantora pernambucana afastou qualquer possibilidade de o grupo migrar inteiramente para o sertanejo ou outro gênero musical.


"Não é que a gente não vá continuar levantando a bandeira do brega. Alguns fãs do brega raíz, brega mais tradicional, ficaram um pouco amedrontados que a gente saísse do gênero, e não vamos sair do gênero. Muito pelo contrário. É uma história que a gente está reescrevendo. O que vamos fazer é enriquecê-lo, e, quem sabe, desmistificar um pouco do preconceito que as outras pessoas têm com relação ao brega".


O pesquisador Thiago Soares explica que esse movimento já existe há algum tempo, funcionando como um fluxo mercadológico em constante adaptação, tanto no brega local como no sertanejo.


"Quando você tem um artista que é muito conectado territorialmente com determinado espaço e ele quer entrar em um processo de nacionalização ele vai se desprender daquele contexto de origem, mas ao mesmo tempo é importante pensar que outros artistas naquele contexto vão estar atuando. Não acredito que o brega tenha a perder com essa mudança, porque enquanto uns artistas partem para a comunhão com outros gêneros como o sertanejo, outros artistas vão reafirmar o brega aqui, e esse movimento é um movimento contínuo, de atualização, de disruptura e de conexão com o gênero musical".


O processo contínuo de reinvenção e busca por novos nichos é uma tendência que, por outro lado, também vem impulsionando artistas da nova geração a vislumbrar novas perspectivas, inclusive como parte da cena do brega romântico de Pernambuco. Hoje, "Clichê", da Banda Sentimentos, e "Some", parceria de Banda Bandida com MC Tocha, são duas das canções que expressam bem como esse movimento de atualização vem sendo construído.



“Eu já enxergava neles [Banda Sentimentos] um grande potencial por causa das características que eles apresentam. Não é a questão do brega romântico por só ser o brega romântico, é a característica que hoje os artistas estão imprimindo no estilo. Eles têm características joviais, que se assemelham muito ao público de internet hoje, porque são artistas de streaming, estouraram nas plataformas de internet, e depois o grande público abraçou", sintetiza Dany Myler.


Algoritmização do consumo cultural


Assim como o forró, o sertanejo, o funk e o pagode, o brega é uma música comercial que tem se adaptado a outras realidades, visando conquistar mais espaços no mercado e ampliar o público consumidor. E a mistura dos ritmos tem um poder expressivo nessa difusão, junto às performances de internet.


“Hoje, a música, independentemente de ser brega ou não, vem sofrendo essa miscigenação, todo mundo está bebendo de alguma fonte. O forró é um dos principais gêneros que mistura tudo. Eles pegaram batida de swingueira e colocaram com axé, que se transformou na pisadinha. Pegaram a questão do próprio brega e veio o forró de favela”, declarou a cantora Dany Myler.


Os algoritmos das plataformas de streaming funcionam através da aproximação estética e sonora dos artistas e suas obras. Portanto, no momento em que uma cantora ou cantor faz a releitura de uma música de outro gênero ou incorpora ritmos desse gênero no seu repertório, os acessos à sua obra nos meios digitais tendem a aumentar.


“Essa aproximação do brega com outros gêneros musicais, como o sertanejo e o arrocha, parece ser um tipo de contaminação estética e performática que também faz parte de uma construção em rede. [...]. Quando a gente pensa nas semelhanças estéticas de alguns gêneros musicais e as participações em featurings, a gente também está lidando com um processo de algoritmização da vida e do consumo cultural. Com isso, parece que existe uma tentativa de entender e de negociar com esse sistema de plataformatização da cultura e do consumo que é tão importante”, destacou Thiago Soares.


O contexto de pandemia mostrou o quanto a construção de um público e a interação nas redes sociais virtuais é importante para a manutenção do consumo musical. Impedidos de realizar shows e eventos, diversos artistas do brega pernambucano fizeram uso das redes socias, principalmente do YouTube e Instagram, para promover lives e manter suas produções musicais ativas.


Além disso, é importante destacar que o sertanejo não é o único ritmo que interage com o brega nessa construção em rede, o arrocha e o pagode também ganham um espaço no repertório de artistas e bandas pernambucanas. É possível notar que, assim como no caso do sertanejo, o caráter romântico e a sofrência são os elementos que fazem a ponte necessária para que essa interação entre os gêneros musicais seja possível.



Através dessa incorporação entre os ritmos, artistas nordestinos conquistam um pouco mais de espaço em um mercado que ainda tenta impor seu poder hegemônico e é dominado por artistas e produções sulistas, como aponta Soares: “Eu diria que existe um movimento muito interessante de aproximação com gêneros musicais do próprio Nordeste. A música “Tudo ok”, por exemplo, que foi considerada o hit do carnaval de 2020, foi classificada como um arrocha funk, ou seja, na medida em que um gênero musical começa a se esgotar comercialmente ou esteticamente, ele vai se deslocando para outros gêneros musicais”.


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