• Giovanna Carneiro

Artistas Pretas de Pernambuco que você precisa conhecer

Neste dia 25 de julho celebramos a vida das Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. Vivendo em uma sociedade racista, que elege mulheres negras como objetos e negam o mínimo de dignidade para a sua sobrevivência, precisamos questionar diariamente quais são as formas de resistência que devemos pôr em prática para fazer dos nossos territórios lugares mais dignos para essas mulheres.


No dia de hoje também rememoramos e celebramos a luta de Teresa de Benguela, líder quilombola do século 18 que lutou contra a escravidão dos povos negros e indígenas do Brasil. Teresa é inspiração para todas as mulheres negras que continuam a ter que lutar pela própria existência e pela sobrevivência dos seus semelhantes.


Entre as inúmeras questões que estão em voga na luta contra o racismo a subjetividade e as narrativas de vida das mulheres negras é um ponto crucial e muitas delas usam a arte como forma de tornar visível as suas vivências únicas e plurais. Em seu livro “Pensamento Feminista Negro”, a escritora americana Patricia Hill Collins exalta a importância que a música tem para a luta das mulheres negras. “A música afro-americana como forma de arte proporcionou uma segunda esfera na qual as mulheres negras puderam encontrar sua voz. O povo negro foi capaz de criar com sua música uma comunidade estética de resistência que, por sua vez, encorajou e nutriu uma comunidade política de luta ativa pela liberdade”.


No Brasil a música também é sinônimo de resistência e a cultura negra da diáspora africana é muito presente nas periferias do país e impulsiona uma luta antirracista, pensando nisso, criamos uma lista com mulheres negras que fazem da música e da arte uma ferramenta política contra as desigualdades raciais, sociais e de gênero.



Lia de Itamaracá


Pensar em mulher negra latino-americana caribenha e Pernambuco é lembrar quase que instantaneamente em Lia de Itamaracá. Fila da Ilha de Itamaracá, no litoral pernambucano, a dançarina, compositora e cantora de ciranda, Maria Madalena Correia do Nascimento, é referência ancestral da cultura brasileira.


Para os pernambucanos, Lia de Itamaracá é uma divindade que com o dom musical encanta a todos. Representante da ciranda, ritmo musical pernambucano que nasceu das mulheres de pescadores, que cantavam e dançavam esperando eles chegarem do mar, Lia representa a força da mulher negra pernambucana, uma força que vem da cultura e da ancestralidade dos povos negros.


Em 1977, Lia gravou o seu primeiro disco intitulado “A Rainha da Ciranda”. O segundo álbum da carreira da cirandeira, “Eu sou Lia”, foi lançado em 2000, o disco também foi lançado na França e com ele Lia fez sua música viajar para fora do país. Em 2008, já com uma carreira consolidada e reconhecida como uma grande artista da música brasileira, Lia lançou o disco “Ciranda de Ritmos”. Aos 75 anos, em 2019, Lia de Itamaracá lançou seu quarto álbum em parceria com DJ Dolores, produzido pela Natura Musical, “Ciranda Sem Fim”.


Reconhecida como patrimônio vivo de Pernambuco, Lia de Itamaracá coleciona títulos, entre eles o de Diva da Música Negra atribuído a ela pelo jornal The New York Times. Em 2019, a cirandeira recebeu uma das maiores honrarias de toda sua trajetória artística: o título de Doutora Honoris Causa, pela Universidade Federal de Pernambuco, pelos serviços prestados à cultura de Pernambuco e do Brasil. Neste ano, Lia teve sua história eternizada através da biografia “Lia de Itamaracá: Nas rodas da cultura popular”, escrita pela jornalista Michelle de Assumpção e editado pela Cepe.



Mãe Beth de Oxum

Filha da cidade de Olinda, a Ialorixá do Ilê Axé Oxum Karê, terreiro de matriz afro-indígena da Umbigada, Mãe Beth de Oxum é sinônimo de aquilombamento e resistência.


Fazendo revolução através da arte, Mãe Beth de Oxum fundou, em Olinda, o Afoxé Filhos de Oxum, um dos primeiros a incluir mulheres na percussão. Como percussionista, Mãe Beth de Oxum tocou nas bandas de Lia de Itamaracá e Selma do Coco. Criadora da famosa “Sambada de Coco de Umbigada”, Mãe Beth de Oxum leva a cultura africana e indígena do coco às ruas do bairro de Guadalupe, em Olinda.


Além da arte, a Ialorixá luta pelos povos negros e contra o racismo religioso através de iniciativas sócio-educativas. Mestre de coco, integrante do Coletivo de Comunicação e Hipermídias Nordeste Livre, Mãe Beth de Oxum é, também, a fundadora do ponto de cultura Casa de Oxum, o local é ponto de iniciativas de educação, tecnologia e arte dedicadas aos jovens da periferia.



Bione

Com apenas 16 anos, a rapper e poeta Bione já é referência para muitas mulheres negras. A recifense, que iniciou os processos de escrita aos 11 anos, já participou do Slam BR 2018, lançou o livro de poesias Furtiva publicado pela editora Castanha Mecânica, lançou a mixtape “Sai da Frente”, se apresentou na edição 2019 do festival Coquetel Molotov e conseguiu tantos outros feitos memoráveis na cultura pernambucana.


Júlia Bione compõe uma cena de poetas e rappers negras que têm produzido uma arte diferencial em Pernambuco e graças a um trabalho coletivo mediado tanto pelo Slam das Minas quanto pela produtora Aqualtune Produções tem conquistado espaço na música pernambucana. Guardem bem o nome de Bione, pois ainda iremos ouvir falar muito dessa artista preta e pernambucana.



Rayssa Dias

“Mais uma que explodiu!”. Com o seu famoso bordão, Rayssa Dias tem ganhado espaço em um gênero musical dominado por homens: o bregafunk. Aos 25 anos, a cantora olindense tem um papel importante na visibilidade feminina e negra na música popular pernambucana.


Dona dos hits “Malvadas que Brota” e “Foda Demais”, Rayssa Dias se divide entre sua carreira musical e sua atuação como professora. Assim como Bione, Rayssa Dias é agenciada pela produtora musical Aqualtune Produções. Atualmente cantora de bregafunk, Rayssa também canta bregas românticos, fazer poesia não é coisa nova para a cantora que já atuou no Slam das Minas e no recital Boca no Trombone. Como diz em um verso de sua canção “Malvadas que Brota”: “Tu vai ter que aturar que a preta chegou pra ficar!” Rayssa Dias é potência preta que promete revolucionar o brega pernambucano.



Bell Puã

Mais uma cria do Slam das Minas, Bell Puã é uma mulher preta que carrega em seus versos uma força ancestral que consegue envolver com suas dores e seus afetos. Vencedora do Slam das Minas BR no ano de 2017, Isabella Puente de Andrade, é mestranda em História pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua vitória no Slam BR garantiu ainda uma vaga na disputa na Copa do Mundo de Poesia Falada, que aconteceu em Paris.


Inspirada por grandes escritoras negras brasileiras como Conceição Evaristo, Bell Puã expõe em seus versos as vivências de uma mulher negra e nordestina e escancara o racismo velado na nossa sociedade. Em 2018, Bell Puã lançou o seu primeiro livro “É que dei o perdido na razão”, publicado pela editora Castanha Mecânica. O segundo livro da multiartista foi lançado em 2019 pela editora Letramento e tem o título “Lutar é Crime”.


Na música, Bell Puã participou do novo disco de China, com a canção “Moinhos de Tempo”. Em 2019, Bell anunciou que estava em processo de produção de um álbum em parceria com a Aqualtune Produções. Mulher negra, mãe, historiadora, poeta, atriz, cantora, compositora, Bell Puã é potência preta que merece ser ouvida.



Isadora Melo

Dona de uma beleza majestosa, Isadora Melo encanta com sua voz e poesia. A cantora e atriz pernambucana é dona de uma voz potente e expressão única. Entre os diversos projetos artísticos, Isadora integra o musical “A Dita Curva”, um espetáculo musical composto só por mulheres que une dança e poesia.


“Dorinha Meu Amor” é mais um musical estrelado pela pernambucana com direção de João Falcão. Em 2018, Isadora Melo acompanhou a banda Cordel De Fogo Encantado na turnê nacional de retorno e encantou a todos com sua poesia. Isadora é beleza, poesia, dança e arte em forma de mulher preta, uma deusa que vale a pena exaltar.



Eliza Mell

Falar de mulher negra e música pernambucana é falar de Eliza Mell, a nossa Whitney Houston. Com 18 anos de carreira, Eliza Cardoso dos Santos começou a cantar aos cinco anos de idade durante eventos religiosos da comunidade e desde então não parou mais.


Quando iniciou sua carreira no brega, Eliza não encontrou muitas mulheres à frente das bandas, em sua maioria eram homens, o ritmo era dominado por eles. Porém, através de bandas como Brega.com e Carícias, as mulheres conquistaram com o brega romântico o seu espaço. Recentemente, com a formação do grupo Amigas do Brega, Eliza Mell voltou a ocupar espaço na agenda de shows de pernambuco e leva a poesia das mulheres aos palcos.


Dona do hit “Ânsia” e com uma voz incomparável, Eliza Mell se tornou um dos maiores ícones do brega pernambucano. Preta, nordestina e lésbica, a cantora é um exemplo de poder e sedução.



Dany Miler

E se tem Whitney Houston também temos nossa Beyoncé do Brega. Companheira de Eliza Mell na banda Amigas, Dany Myler é dona de uma voz impactante e inconfundível, além de uma beleza sem igual. A cantora teve a carreira artística iniciada em 2003 quando comandou a Banda Lolyta em Recife.


Dany se destacou no forró e no brega e desbravou o Nordeste passando por várias bandas renomadas dos gêneros, entre elas: “Jatinhos do Forró”, Forró Namoro Novo” e “Capital do Sol” do Ceará; “Instinto Selvagem” de Pernambuco; e “Garotões do Forró” e “Cavaleiros do Forró” do Rio Grande do Norte.


Atualmente, Dany Myler, juntamente com Dayanne Henrique e Eliza Mell, integra o grupo Amigas e faz sucesso no brega pernambucano.



Adelaide

Se você quer sentir o impacto que uma mulher preta pode causar na sociedade você precisa conhecer Adelaide Santos. Poeta, cantora e impulsionadora cultural, Adelaide ficou conhecida pelos versos entoados em suas participações no recital Boca no Trombone.


Mulher preta, favelada e cheia de talentos, Adelaide faz parte da Femigang uma formação de rap feminista e antirracista composta por ela, Luíza Simpson e Maria Helena. O grupo chegou a participar do Slam Nacional de Duplas e levou a poesia de pernambuco para outros lugares.


Em seus versos Adelaide enfatiza o empoderamento feminino das mulheres periféricas fazendo da arte uma ferramenta contra o racismo e disseminando ideias revolucionárias.



Isaar

Compositora, percussionista e cantora, Isaar França é símbolo cultural de pernambuco e uma deusa preta. A carreira musical de Isaar começou no Maracatu Piaba de Ouro, nos anos 1995


Isaar França começou a prodigiosa carreira brincante nas ruas eletrizadas do Recife, envolvida em coisas de coco, afoxé e frevo, com ênfase no Maracatu Piaba de Ouro, nos idos de 1995. Em 1997, junto com Karina Buhr, Isaar fundou o Cumadre Fulôzinha e viajou o Brasil e o mundo cantando e tocando música pernambucana.


A cantora participou do grupo Cumadre Fulozinha durante 8 anos e a convite de Dj Dolores, passou a cantar com a Orchestra Santa Massa, chegando mesmo a dividir a autoria do CD Aparelhagem, do grupo homônimo, com DJ Dolores.


A partir de 2006, Isaar investiu na carreira solo quando lançou com o seu primeiro disco, Azul Claro, que foi motivado por uma experiência europeia, em que lá mesmo foi convidada a participar de uma coletânea com diversas cantoras africanas.


Isaar é a imagem divina da artista negra de pernambuco que carrega consigo a história dos povos africanos e a sua cultura, uma das grandes divas da música do século XXI.


357 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo