• André Santa Rosa

Arqueologia digital do brega: do romântico ao bregafunk, do Orkut ao TikTok

Atualizado: 17 de Nov de 2020




Do Romântico ao bregafunk, em todas os subgêneros e eras, o brega preserva sua capacidade de ser vigorosamente viral. O gênero tem uma capacidade magnética de fazer parte do debate público, dos programas de auditório, as mesas de bar, mas, também, na internet. Um viral desde os tempos de internet discada, carrinho de som, lan house, 4Shared, Palco MP3, YouTube. Parte da história do brega é também a história de como hits se propagam de forma incrível ou de como um gênero periférico consegue se manter sempre vivo na cultura digital. E são justamente essas tecnologias digitais que têm propagado a difusão do Bregafunk para além de barreiras geográficas. O espírito de irreverência e memes continua sendo renovado na internet e o gênero se reconfigura despontando em páginas no Instagram, Twitter e TikTok.


Quem começou a usar a internet pelos anos 2000 - assim como eu - provavelmente passou pelo Orkut e os infindáveis grupos de torrent e discografias. Era um outro momento da internet: mais amador, anárquica e experimental. Para o jornalista e pesquisador de brega, Emannuel Bento, boa parte da cultura digital relacionada ao gênero começou ainda no Orkut, através de um engajamento forte da comunidade de fãs. “Lembro que no Orkut era possível incluir vídeos do YouTube nas contas. Não tanto como uma ‘timeline’, mas sim uma pasta, como havia a pasta de fotos. Nessa época, era comum encontrar vídeos de brega romântico nos perfis. Também era comum que as pessoas ‘upassem’ as músicas no YouTube e deixassem na tela do vídeo os seus endereços de MSN (que também era usado para encontrar o Orkut). Basta ver os antigos vídeos do canal do DJ Amster Araújo, por exemplo. Dessa forma, as marcas do Orkut e do MSN estão presentes na fruição do brega romântico até hoje”, relembra.


É justamente no contexto desse primeiro momento de experimentações nas redes, que MC Leozinho fez um dos movimentos mais célebres na divulgação do brega em Pernambuco, como descreveu na série de reportagem sobre MCs pra Vice. “A divulgação era por Orkut, Fotolog, 4Shared, rádio comunitária e carrocinhas de CD. Nós fazia o CD e passava dando. Eu mesmo levava Iá no centro da cidade e chegava no camelódromo: ‘Olha aí parceiro, saiu CD novo’”, explicou o MC para o site. Outro caso de sucesso da época, uma espécie de marketing de guerrilha do brega pernambucano, foi a divulgação da música Posição da Rã, de MC Cego e Metal. A estratégia da dupla foi comprar cinco carrocinhas de CD e colocar alguém pra vender. O vendedor ficava com o dinheiro, mas em contrapartida teria que tocar Metal e Cego.



Em 2012 as redes viviam o pleno declínio do Orkut e uma migração para o Facebook. Nesse contexto, surge o Blog dos Bregueiros, “O maior site de Brega do Planeta”, página criada Diego Leonardersom, conhecido como produtor musical Don Diego, 28 anos. O perfil não parou as atividades desde sua criação, adaptando conteúdos de brega, falando pra mais de 200 mil seguidores e com perfil, também, no Instagram. No início, a página era mais voltada a disponibilização de downloads, últimos lançamentos e calendário de shows. Hoje, funciona muito mais como uma plataforma de divulgação em vários frontes: notícias, videoclipes, memes. Com o passar do tempo foi sofisticando suas formas de monetização, cobrando divulgação, sendo divulgado em shows, participando ativamente de um ecossistema de parcerias da indústria do brega.


Foi, também, nesse momento que a comunidade consolidou um star-system e indústria fofocas (muito vinculados aos programas de TV locais) como as páginas Babados dos Famosos PE e Bregapope. “Muitos influencers já admitiram que criaram polêmicas propositais buscando aparecer nas páginas, assim expandindo a sua visibilidade nas redes. As páginas acompanham relacionamentos amorosos, brigas, conquistas, além da realização de coberturas de shows ou gravações de clipes. São como “colunas sociais” do brega”, explica o Emannuel.



O brega, os memes e a grea

Outro caso de sucesso da comunidade digital do brega é o Brega Bregoso. O perfil já passou de 1 milhão de seguidores e, hoje, é um espaço de conexão e divulgação de influenciadores do brega: memes, divulgação para MCs e dançarinos. “O Brega Bregoso é pioneiro pois surgiu juntamente com a popularização do Facebook em Pernambuco, em 2011. Era o início da cultura dos memes - que, na época, era um termo para descrever imagens como o Troll Face. A página soube criar uma brand persona do “galeroso”, um imaginário de jovem da periferia que existe no Grande Recife desde a consolidação do funk nas cidades, no começo dos anos 2000. É um jovem brincalhão, que usa óculos espelhados modernos, regatas de times e costuma sair para o brega nos fins de semana”, pontua Emannuel.



Em entrevista recente ao Diario de Pernambuco, o jornalista Emannuel Bento conversou com a dupla de criadores da página, Eliabe e Alexandre, que se conheceram em um grupo do Cartola FC no Orkut. “Eliabe King, um dos criadores, costuma afirmar que a página criou um humor da periferia para a periferia, fugindo de tons depreciativos ou racistas. Com a ascensão do Instagram e também com a popularização do marketing digital, o Brega Bregoso se consolidou como uma plataforma para fomentar a cultura de meme da cena brega. Eles possuem um papel de ‘curadores’ da internet, elencando vídeos humorísticos e do passinho, sempre dialogando com essa ideia do galeroso. As celebridades digitais são constantemente legitimadas por essa página”.


De diversas formas, os memes na cultura digital do brega se tornam uma verdadeira instância consagradora de hits. Um som estourado é sinônimo de memes, e memes populares são sinônimos de hit. Mas não apenas aborda o brega de forma musical, faz também grea com diversos aspectos do estilo de vida, contextos mais amplos do Recife. Nesse sentido, a página acompanhou o brega nas mais variadas tendências, que são bem ilustradas na própria seleção de fotos de perfil: Sheldon, Troinha e Shevchenko e Elloco.


Da tela do smartphone

O bregafunk não surgiu a cinco anos atrás, mas faz parte de uma construção envolvendo a história dos MCs, que vêm desde os “bailes de galera”. Um dos vídeos mais compartilhados do brega são das músicas Novinha tá querendo o Que?, de Metal e Cego, Hit do AB, de Reny e a A Galera e Beijo de Tabela, de Sheldon e Boco, que foram exemplos bem sucedidos no Youtube.



Porém, sem dúvidas, o grande viral que conectou o bregafunk a possibilidades no eixo Rio-SP - inclusive, gravando o primeiro clipe pernambucano no Kondzilla - foi Envolvimento, de MC Loma e as Gêmeas Lacração. Gravado em um armário, com clipe espontâneo e feito a partir de um smartphone, Envolvimento foi parte de um conjunção de estéticas que vinham sendo construídas do gênero. “Esse viral foi nitidamente estimulado pela chave do humor e da espontaneidade. Paloma, Mirella e Mariely já haviam gravado outro vídeo viral antes, chamado Meu Momento. A faixa tinha um beat baixado da internet, com a voz de Loma gravada de forma caseira pelo celular. No vídeo, elas dançavam em trilhos de trem. Foi a repercussão desse vídeo que estimulou um outro mais elaborado, que foi Envolvimento”, pontua o pesquisador.



Enquanto as fronteiras do viral vão se atualizando sem percebermos, o brega tem uma capacidade incrível de ocupar esses novos espaços. Recentemente a Banda Sentimentos, que desponta no cenário como um novo nome do brega romântico pós-explosão do bregafunk, conseguiu emplacar a coreografia no TikTok da música Onde Estás. A rede é a nova obsessão dos jovens, sendo a rede social que mais cresce no mundo superando o ritmo mensal do Facebook e do Instagram




Como apontado pela pesquisadora Simone Pereira de Sá, no texto “Apropriações low-tech no funk carioca: a Batalha do Passinho e a rede de música popular de periferia”, a revolução do acesso das classes C e D aos computadores e celulares, principalmente nos governos de Lula e Dilma, foi um grande estímulo para produção de conteúdo e fortalecimento de uma cultura digital periférica. Desde as coreografias filmadas no funk carioca, passando pela cena de tecnomelody e por casos com MC Loma e o “passinho dos malokas”. No Ranking Connected Smart Cities, Recife aparece como a capital mais conectada do Nordeste. "São muitas pessoas atualizando a timeline diariamente, o tempo todo, ávidas por conteúdos engraçados, fofocas, novos vídeos criativos de passinho", diz Emannuel. Para todos os efeitos, além do viral, a utilização do espaço público para filmagens é, dentro do bregafunk, um exercício de reafirmação de cidadania. Pautados pelo amor ao gênero, a cultura brega é a história da renovação de um gênero e de mudanças no paradigma do acesso à tecnologia no país.










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