• Júlia Rodrigues

Amor, guerra, espiritualidade: os espaços que se ocupam de Matheus de Bezerra

Artista recifense protagoniza o segundo programa das Gruvilinas Sessions, que vai ao ar neste sábado (13), trazendo canções que refletem sua vivência enquanto morador de periferia e subjetividades que vão além do afeto



Foto: Heloise Barreiro

Falar com as mãos, tocar com a voz, sentir com os olhos. Inverter a ordem dos sons sem fazer com que eles percam o sentido aos nossos ouvidos, nunca foi tarefa difícil para o recifense Matheus de Bezerra. Ele, que está na estrada como artista independente desde os 14 anos de idade, é permeado por um processo criativo que atravessa duas personalidades aparentemente distintas, mas que continuamente se cortejam. O Matheus de Bezerra artista, que canta com a alma. E só o Matheus, neto de dona Maria, como é conhecido em Afogados, bairro onde cresceu assistindo a repetição de problemas estruturais nas ruas, mas também de onde acredita sair a ebulição necessária para fazer o mundo se mexer.


“Eu sempre fui uma pessoa muito curiosa, e foi assim que achei o violão e entrei para a música". O encontro inesperado aconteceu no quarto da casa dos avós, ambiente intimista e que sempre se mostrou refúgio. Foi também no quarto que compôs Sereia, faixa que propositalmente finaliza Tropikal, seu primeiro álbum. A música abre a apresentação do músico no segundo programa das Gruvilinas Sessions, e saiu do papel em contraponto aos desmandos do artista sobre ele próprio, que, há certo tempo, prometeu não falar sobre as vivências amorosas do passado.


“Estava no quarto, tinha um buraco na telha, passou uma luz e desenhou o sol no chão. Nesse momento, eu vi que estava sendo um cara totalmente quadrado ao tentar ofuscar os meus sentimentos e quando fiz a música me emocionei bastante. Faltavam alguns espaços no disco, por conta de uma organização caótica minha", conta. A forma desordenada do trabalho faz parte da maneira a qual o artista enxerga seus arredores e o mundo.


"O quarto é muito importante tanto no meu processo de composição quanto de produção. No estúdio, você controla ambiente, ruído, não deixa a natureza existir ali. E quando estou no meu quarto, sou só eu e a natureza. É um lugar para onde eu sempre vou voltar”. Nas ruas, longe da zona de conforto, a realidade se apresenta nua e crua para aqueles que precisam sobreviver. Ou somente existir.


Sintomas invisíveis


“Quando eu comecei a olhar para o meu lugar, para o meu bairro, comecei a ver que não precisava de mais nada". Criado entre a favela do Viveiro e a Miami, nas proximidades da feira de Afogados, os dias de domingo para ele são como uma verdadeira mistura de prazer e afetividade contínua. “É uma coisa mágica. As pessoas se comunicando, os próprios conflitos calorosos, a troca de afeto, que não é tão comum, mas você sabe quando existe. Eu fui encontrando meu lugar”, diz.


Matheus de Bezerra cresceu nos arredores da feira de Afogados. Foto: Heloise Barreiro

A construção desse laço afetivo contrasta com o cenário sintomático de guerra enfrentado por moradores das periferias da Zona Oeste da capital. Para Matheus de Bezerra, que também é atravessado por essas questões, o desespero por sobrevivência tomou conta desse espaço há certo tempo. Às vezes, os sintomas de um bairro doente são promovidos de forma sutil aos olhos da própria favela, fruto também do que muito se vê nos noticiários tradicionais, representados por números que rasgam a individualidade de cada história, como o próprio artista descreve.


O discurso passivo adotado para retratar a violência de cada dia nas periferias acaba sendo o produto precursor desse meio. Realidade que, para Matheus, não poderia ficar somente no campo da crítica narrada. Daí surge Tuberculoso Bairro. A canção inédita, lançada nas Sessions, fala da crueldade de forma explícita, como deveria ser em outros espaços além da música.


“Começo com esse nome para chocar mesmo. É uma pauta que falta nas pessoas. Quando as pessoas falam de violência, elas não falam do sangue, do corpo, do velório. São discursos rápidos e rasos, que não causam o impacto que deveriam causar. É assim com o racismo e com todo tipo de preconceito”, declara o artista, ao passo em que acrescenta.


“Sobra crueldade nas ações, mas falta crueldade na teoria que vai ensinar as pessoas a não chegarem nesse nível de ações violentas. As favelas nunca sangraram tanto quanto nesses últimos tempos”. É nesse contexto que encontrar alternativas para continuar vivo acaba sendo mais difícil.

“Como achar perdão num bairro violento? Como achar amor num bairro violento? Como achar Deus num bairro violento? Tudo isso e a paz nesses lugares são praticamente invisíveis".

Matheus de Bezerra em apresentação nas Gruvilinas Sessions. Foto: Heloise Barreiro

Baseado em sua vivência, Matheus de Bezerra conta que ainda não se enquadra em um gênero musical específico, apesar da forte ligação com a MPB. Em suas canções, o compositor e também produtor musical, costuma explorar temas que vão do amor à espiritualidade; da paz à guerra. Mas de forma muito simples, não contrapondo esses substantivos. “O amor, a guerra e a espiritualidade são as mesmas coisas. Eu falo sobre o amor através da guerra, falo sobre Deus através da guerra. Falo sobre paz através da guerra, porque eu convivi ao lado disso por muito tempo”.


À sua imagem e semelhança


"Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte”. O trecho do livro "O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio", lançado quatro anos após a morte do escritor alemão Charles Bukowski, traz uma reflexão sobre algumas mortes que já foram concretizadas dentro de pessoas que aparentemente estão vivas.


“Meu pai trabalha a semana inteira e no final do mês, ele tem que pagar as contas da casa, me mandar um dinheiro [...], será que meu pai tem um dia de lazer? Será que ele está vivendo?”. Já esse, é o questionamento feito por Matheus de Bezerra 27 anos após a morte do autor. A pergunta retórica é direcionada a seu José Antônio, pai do artista. Ele é porteiro há cerca de 20 anos e, na correria para sempre se manter de pé, parece não ter tempo para si próprio. Como Matheus relata, nem para existir. “Essa também é uma das minhas lutas. Tentar em vida salvar meu pai, fazer ele viver um pouco”, dispara o músico.

Foto: Heloise Barreiro

Recentemente, o recifense passou a integrar o grupo arcoverdense Condor, que em outubro do ano passado lançou o primeiro EP, denominado Respire. A faixa conta com a participação de Matheus, que, faz da canção um retrato da realidade, e coloca seu pai à imagem e semelhança de Deus, numa relação construída desde a infância e pautada no amor.


“Me afogo em chuveiros pra não enxergar as lágrimas. A diferença entre Deus e um porteiro é que um é meu pai, crianças dizem 'obrigado pai' {...} porque Deus é invisível igual aos seus pais".


“São figuras muito próximas. Eu sei que encarar a figura de Deus como a figura de um homem é um reflexo social. Ao mesmo tempo, vou quebrando isso e vou vendo Deus sem imagem. Num dia, eles podem estar no mesmo lugar, um do lado do outro. Vejo Deus assim: povão, morador de Afogados”.


Do bairro onde cresceu, da inspiração no pai e em sua identidade espiritual, o artista faz seu motim para manter essas relações dentro de si. Da mesma maneira a qual hoje reivindica a vida dos seus próximos e a dele própria. “Meu atos revolucionários serão pequenos, até porque não vou conseguir chegar a todos os lugares do mundo. Mas sei que posso plantar a semente. Quero fazer revolução vivendo”.


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