• Giovanna Carneiro

A transformação artística e cultural que vem do Pina quer e merece incentivo

Atualizado: Mai 7



“Pra gente a arte é um processo de transformação social, então a gente quer compartilhar o conhecimento que temos”. Essas são as palavras da advogada e produtora cultural Jéssica Jansen. Moradora da Comunidade do Bode, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife, Jéssica é integrante do Pão e Tinta, um coletivo independente de artistas periféricos.


Assim como diversos artistas de Pernambuco e do Brasil, os integrantes do Pão e Tinta sentiram o impacto econômico e social causado pela chegada da pandemia. Antes mesmo da instauração da crise humanitária da Covid-19, o coletivo, que iniciou com o objetivo de incentivar e promover arte nas periferias, já se apresentava como um dispositivo de resistência e assistência na periferia.


“A gente sentiu a necessidade de se apresentar enquanto coletivo de ações sociais de fortalecimento artístico e usar a arte como um poder de transformação para impactar jovens e crianças”, declarou Jéssica.


Através do Leilão Pão e Tinta - antes conhecido como Leilão em Chamas - e do Encontro Internacional de Artes, o coletivo foi capaz de gerar renda para dezenas de artistas. De acordo com a produtora, cerca de 80 pintoras e pintores são beneficiados a cada leilão.


Buscando saídas e incentivo


O Leilão em Chamas Pirata, que acontecia presencialmente, era uma experiência instigante para o público. Com as telas dos artistas em mãos, e um tonel com chamas de fogo ao lado, o apresentador anunciava o lance inicial e aguardava os demais lances da plateia. As telas que não fossem arrematadas eram queimadas.


Já o Encontro Internacional de Artes acontecia anualmente e presencialmente, na Comunidade do Bode. Centenas de artistas se reuniam para celebrar a arte e inspirar os moradores do Pina. Porém, com a chegada da pandemia, nenhum dos eventos puderam acontecer presencialmente.


A impossibilidade do encontro físico não foi capaz de impedir a realização dos leilões e festivais, afinal, o cancelamento dos eventos resultaria em uma grande perda econômica e cultural para os integrantes do coletivo e da comunidade em geral. “A gente viu que não podíamos parar, porque a produção independente não dá possibilidades para que os artistas parem, pois isso impacta diretamente na renda e, consequentemente, no trabalho que é executado”, afirmou Jéssica Jansen.


Antes mesmo do anúncio da Lei de Incentivo à cultura, Aldir Blanc, o coletivo já havia encontrado soluções para continuar gerando renda aos artistas. Uma das ações promovidas foi o Projeto Aquarelena, quando os artistas faziam lives pintando suas telas e explicando suas técnicas de produção. Depois, as artes eram vendidas no Leilão Pão e Tinta.


O leilão também se adaptou e começou a ser executado através de lives que aconteciam no Instagram e no YouTube. A migração para o formato online possibilitou que o evento expandisse suas linguagens, e, hoje, durante as transmissões ao vivo, também acontecem performances de música e dança, além da venda das telas.


Outra iniciativa que passou por adaptação foi o Encontro Internacional de Artes Pão e Tinta. A nona edição do evento, que estava prevista para setembro de 2020, só aconteceu em abril de 2021, devido à pandemia. O festival aconteceu no canal do Youtube da Palaffit Produções e contou com uma extensa programação com apresentações musicais, oficinas e, claro, leilões de artes.


Diferente do Aquarelena, o encontro só aconteceu graças a verba do edital da Lei Aldir Blanc, que beneficiou centenas de artistas e coletivos pernambucanos, e possibilitou a execução de diversos projetos com múltiplas linguagens.


“Esses incentivos culturais surgem como uma contrapartida, porque senão daqui a pouco, cada vez mais a linha da pobreza e da miséria vai se alargando. Com o mínimo, a gente vem conseguindo garantir uma renda e fazer a economia circular no meio da arte independente”, afirmou Jéssica Jansen, ao questionar a demora da distribuição do auxílio financeiro aos artistas.


Só em dezembro de 2020, dez meses após o início da pandemia, as verbas do edital da Lei Aldir Blanc foram liberadas. Antes disso, os artistas tiveram que se reinventar para lidar como podiam com a impossibilidade de promover eventos e shows, devido às medidas de isolamento social - fundamentais para conter a propagação da Covid-19.


As propostas aprovadas no edital beneficiaram não apenas os artistas e produtores culturais, mas também toda a sociedade, que pôde ter acesso a novos produtos culturais e trabalhos artísticos executados com muito talento e dedicação, como o álbum visual "Sobrevivências Periféricas", do grupo Barbarize.


Para continuar sobrevivendo


Formado por YuriLumin e Barbarize, o grupo de música e arte Barbarize surgiu em 2018 quando os artistas decidiram transformar em canções as suas vivências pessoais e artísticas no teatro e na dança. Moradores do Pina, o casal estreou na cena musical de Pernambuco graças à Lei de Incentivo Aldir Blanc.


Com um álbum formado por faixas que falam sobre negritude, ancestralidade, resistência, beleza e poder, e uma sonoridade que mistura afrobeat, rap e pop, a produção audiovisual “Sobrevivências Periféricas”, dirigida por Victor Limãr, é um documento artístico e histórico da cidade do Recife.



“Quando a gente fala de território e de resistência, a gente tem o Pina como exemplo. Um dos metros quadrados mais caros do país, que é completamente atacado pela especulação imobiliária e, ainda assim, a gente tem os moradores que resistem, que estão aqui e que não vão sair, sabe?”, declarou a cantora Barbarize ao explicar porque escolheu o Pina para gravar todas as cenas do álbum visual.


Atriz e cantora, Barbarize sabe muito bem a importância da manutenção das leis de incentivo à cultura e as possibilidades que ela pode trazer para os moradores que estão às margens. Porém, é preciso desburocratizar o processo dos editais para que a verba chegue para mais pessoas. “Para conseguir uma aprovação no Funcultura é muito mais difícil porque a burocracia é muito grande. Tem muita documentação e, muitas vezes, as pessoas da comunidade não têm nem identidade”, reiterou.


“Além de fornecer os editais, é importante saber quem vai ter a possibilidade de acessar eles”, reforçou YuriLumin. A diminuição das burocracias da Lei Aldir Blanc foi fundamental para que muitos artistas, que nunca conseguiram aprovar nenhum projeto em editais, como o Funcultura, recebessem investimento público.


Em abril de 2021, o Senado aprovou a prorrogação da Lei Aldir Blanc e do benefício para artistas e outros profissionais do setor. Contudo, a proposta ainda aguarda a aprovação da Câmara e do presidente para ser sancionada.


“A Lei Aldir Blanc foi um respiro para muitos artistas. Muita gente conseguiu aprovar seus projetos, mas não devemos ver o edital como uma migalha, porque ele é uma obrigação, uma contrapartida, pois todos os espaços culturais e artísticos estão fechados durante a pandemia”, declarou Jéssica Jansen.


Com o aumento do número dos casos da Covid-19 e sem perspectiva de melhoras ou relaxamento das medidas de isolamento no país, os auxílios financeiros dos governos federal e estadual são fundamentais para que o setor de cultura não sofra mais ainda com as consequências da pandemia.


80 visualizações0 comentário
frufru.png