• Vinícius Lucena

A tríade que sustenta o álbum de estreia de PC Silva


Amor, saudade e tempo. A relação entre os três substantivos reunidos no nome do álbum de estreia do pernambucano PC Silva está no cerne das relações humanas. São sentimentos e expressões que, por mais abstratas que pareçam, são intrínsecas à nossa existência; podemos não compreendê-las, ou saber explicar com exatidão o que é essa relação e quais as implicações dela nas nossas vidas, mas sabemos bem identificá-las.


E as reconhecemos nas onze faixas que compõem Amor, saudade e tempo (Independente, 2020). No álbum, há composições que refletem os movimentos feitos por PC ao longo da sua vida. Nascido em Serra Talhada, na região do Vale do Pajeú, o artista mudou-se para a capital pernambucana, mas conservou as influências sonoras e líricas do sertão. Essas influências se misturam a uma sonoridade que se aproxima da música popular brasileira e com singelas incursões pelo terreno da erudição.


PC Silva / Foto: André Sidarta

As letras, todas assinadas por PC (Juliano Holanda colabora em Boomerang e Isabela Moraes em Saudade Arengueira), resgatam episódios da vida do autor, divagam sobre a temática central do disco ou se mostram como crônicas do cotidiano, como em Moderna. Nessa faixa o compositor assume um eu lírico feminino, movimento comum na literatura (e também na MPB). Tal movimento, de acordo com o músico, está relacionado a “um quê de desafiador que há no ato de viver, mesmo que apenas numa letra de canção, a vida de outras personagens”.


O álbum conta com as participações das cantoras Mônica Salmaso (que acompanha o violoncelo de Lui Coimbra em Adeus, Obrigado e Disponha) e Ceumar e do instrumentista Lui Coimbra. Gravado no Estúdio Carranca, em Recife, o disco foi produzido pelo multifacetado Juliano Holanda, que também toca guitarra, baixo e violão, acompanhando a percussão de Gilú Amaral e o piano de Diego Drão. Na faixa Meu Amorzim, um ode a avó de PC, falecida em 2018, também aparece um coro formado por Joana Terra, Luiza Fittipaldi, Jr. Black, Marcello Rangel e Juliano Holanda.


Gruvi - Um álbum de estreia costuma ser resultado de um processo longo. Foi assim com você? Quando "Amor, saudade e tempo" começou a ser concebido?


PC Silva - Posso dizer que foi um processo muito mais difícil do que demorado. Para colocar marcações temporais, digo que comecei a pensar nesse álbum, ainda de forma muito turva, em 2016, quando meu trabalho anterior com a Bandavoou chegou ao fim. O ano de 2017 foi basicamente para tentar me descobrir enquanto artista solo, estudar meu violão, compor novas canções, e encontrar um lugar fora da minha zona de conforto, onde eu pudesse, pelo menos, colocar meus pés firmemente no chão.


Somente em 2018 eu pude visualizar de forma mais clara a realização desse projeto, quando já havia feito um trabalho conexão com o palco, com meu público, com novas canções e com outras mais antigas que ainda pude trazer pra esse momento de agora.


Em março de 2019 começamos as gravações. Pausamos o trabalho em junho daquele ano por ocasião do nascimento da minha filha, momento para se viver em sua plenitude. Algum tempo depois, retomamos os trabalhos e chegamos ao final dele exatamente um ano após o início das gravações e poucos dias antes do início do isolamento social ocasionado por conta da pandemia.


O disco traz composições de diversas fases da sua carreira, mas, juntas, elas compõem um álbum coeso. Qual o grande elo que une essas suas composições num álbum e faz com que elas pareçam estar correlacionadas?


O ponto mais positivo desse processo foi o entendimento da dimensão de todas as partes do projeto. Desde o aspecto financeiro, com o baixo orçamento que tinha disponível, até a importância da conceituação artística desse álbum.


Quando se acredita muito no potencial de algo é natural querer investir o máximo. Acredito na força das canções que escrevo e meu maior investimento foi buscar as pessoas certas para extrair o máximo de forma saudável, com o mínimo que tinha no bolso.


Esse trabalho demora muito tempo. Vem do dia a dia, das parcerias, dos contatos profissionais, das amizades. Fui feliz nas escolhas dessa vez.


Juliano Holanda, produtor musical do álbum e meu amigo, foi fundamental para que o resultado se encaixasse dentro de tudo que eu esperava. Sorte minha. Eu sabia que queria ter a mistura do piano de Diego Drão com uma percussão mais crua de Gilú Amaral. Queria inserir o meu violão entre esses dois pilares sonoros para dar vida à base desse trabalho. Dito e feito. A organização de tudo isso com os acréscimos de outros instrumentos e vozes foi feita de forma muito bem pensada. Da pré produção à mixagem, Juliano Holanda esteve à frente e ao mesmo tempo ao meu lado nas decisões.


Em algumas letras você trabalha com um eu lírico feminino, movimento comum na literatura e mesmo na música (Chico faz muito isso também). O que te motivou, como compositor, a assumir esse lugar? E como essas mulheres que estão no teu álbum dialogam com as temáticas abordadas no disco?


As principais canções feitas sob esse olhar, "Ímã" e "Moderna", são do começo da década, por volta de 2011, quando eu estava começando a dar passos mais firmes nesse ofício de compor. Naquele momento, eu quis experimentar fazer canções para o repertório da minha banda na época que tinha Luiza Magalhães como uma das vozes.


Para além disso, era também um descobrimento de poder me colocar em outras personagens. Fiz isso não somente com o feminino, mas também com outros tipos e personagens do imaginário.


Há um quê de desafiador no ato de viver, mesmo que apenas numa letra de canção, a vida de outras personagens. Com isso, acredito que fiquei mais atento ao universo feminino e tudo que sua voz tão forte vem dizendo ao mundo.


Quando a gente olha pra ficha técnica do disco, dá pra ter uma noção de como a sonoridade do álbum foi construída. O quanto a proximidade (tanto física, boa parte deles são de Pernambuco, quanto musical) com essas parcerias influenciou na sonoridade do álbum?


Tenho a sorte de ter amigos que admiro muito na música. Não poderia deixar de contar com eles nesse álbum de estreia. Juliano Holanda, já citado, Luiza Fittipaldi, Joana Terra, Jr. Black e Marcello Rangel são alguns desses amigos que estão dentro desse trabalho. Vinicius Aquino que trabalhou na etapa de gravação e fez a mixagem também tem grande importância nesse trabalho.


As outras participações, igualmente especiais, vieram somar como todo talento que tem. Lui Coimbra, com seu violoncelo, Mônica Salmaso e Ceumar são duas das mais belas vozes que podemos ouvi.


Essas pessoas, artistas no que fazem, me inspiram e me norteiam nessa estrada. Artistas incríveis que tenho por perto, outros distantes fisicamente, mas igualmente presentes naquilo que chamo de inspirador.

Sobre a produção de Juliano, como surgiu essa ideia de colaboração entre vocês? Essa parceria está relacionada à participação na Reverbo?


Juliano é uma daquelas pessoas importantes para o mundo. Para a beleza do mundo. Para o bem estar. Ele que se propôs a produzir esse álbum. Nossa amizade vem de antes da Reverbo [mostra musical, co-criada por Juliano, que reuniu, em várias apresentações, artistas da cena independente pernambucana]. Construímos dias melhores através da música, com amigos, viagens e projetos. Esse disco não poderia existir, feliz da forma como é, se não fosse produzido por ele.


Tendo em vista que a lógica de divulgação de novos trabalhos musicais foi afetada por essa pandemia, já que por enquanto não temos a possibilidade de se promover por meio de shows e outros eventos presenciais, como tem sido divulgar um trabalho novo exclusivamente pela internet?


Quero mais é que as pessoas possam ouvir esse álbum e que essa audição possa fazer, sobretudo, um dia melhor. Principalmente pela forma como estão sendo os atuais duas. Para isso as plataformas digitais de música e as redes sociais servem bem. Pretendo usar ao máximo essas ferramentas disponíveis para levar meu trabalho as pessoas.


Agora, com o disco no mundo, quais os planos pro futuro? Você pretende fazer um lançamento para além do Streaming, em formatos físicos?


Uma primeira leva de discos físicos chegará em forma de vinil. O álbum traz no seu título as palavras Amor, Saudade e Tempo e pegando esses ganchos, o formato de LP consegue ainda dar mais luz à bela fotografia de capa, feita por André Sidarta, e também as letras das canções, presentes no encarte.


Quem quiser uma cópia, é só mandar um sinal nas minhas redes sociais que terei o prazer de ver esse disco, em vinil, seguir até as pessoas. Enquanto não temos shows presenciais, o LP vai dando nossa forma de abraçar



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